O pão nosso de cada dia

2 02UTC abril 02UTC 2009

“Felicidade é um hóspede discreto do qual só nos damos conta de que ele existe quando está de partida” (Theodor Adorno – filósofo alemão)

Era uma manhã radiosa, colorida, tais como as telas que o mestre Benedicto Mello sobejamente pintava. Minha fubica deslizava macia pelas ruas arborizadas da cidade. A verdade é que eu estava de bem com a vida. Banho tomado, camiseta de algodão, bermuda, chinela confortável. Meu primeiro destino matinal foi o Pão de Santo Antônio, à caça de antigos alfarrábios.

Quem me recebe – sorriso de piano estampado no rosto – é Armínia, simpática e competente, bota competente nisso, administradora do asilo. Confesso que nunca tinha entrado lá. Minto. Salvo uma ou outra incursão pela refrigerada Capela. Como toda boa anfitriã, Armínia ciceroneou-me pelas dependências do antigo e bem conservado casarão.

Fiquei impressionado com o que vi. Ao contrário da maioria dos asilos, o Pão de Santo Antonio é um primor. Nem parece um asilo. Está mais para um pensionato de luxo. Piscina, salão de jogos, salão de festas, assoalho reluzente, quartos e enfermarias bem ventiladas, banheiros, roupas de cama impecavelmente limpas, cinco refeições por dia (depois falarei sobre a cozinha) e uma equipe de prestimosos funcionários zela pelo bem estar dos velhinhos que lá residem. Ao passar pela secretaria, reencontro Cleide Acatauassu, cara amiga, e uma das mais fiéis colaboradoras do Pão de Santo Antônio.

Retorno ao meu inesquecível tour pelas incontáveis dependências do casarão. Enquanto me mostra tudo, minha anfitriã distribui sorrisos e afagos, uma palavra de conforto por onde passa. E acreditem: sabe de cor e salteado o nome de todos os velhinhos. Como vai, Bené? E você, Maria José, melhorou da gripe? Como vão os bisnetos, dona Antônia? Que dia lindo, seu Hamilton! Aliás. Por que será que a grande maioria dos que lá estão é de mulheres? Reparei também que todos os cômodos têm móveis, eletrodomésticos doados por abnegados e anônimos colaboradores.

Como não podia deixar de ser, fiz questão de conhecer a cozinha – e que cozinha! Para minha surpresa, encontro Patrícia Freire, nutricionista do pedaço. O que mais me impressionou na cozinha, além do número de refeições servidas diariamente – cerca de setecentas – foi o formidável fogão industrial – doado décadas atrás pelo Rômulo Maiorana. Enfim cheguei aos chalés. Mini-suítes com todo conforto possível. Sala, quarto refrigerado, cozinha, banheiro, varanda florida… Lá, casais de idosos vivem a vida que pediram a Deus. Têm segurança, companhia, assistência médica, lazer… E o principal: amor!

Fiquei surpreso ao saber como as voluntárias conseguem manter e prover digna e confortavelmente todos os velhinhos e ainda fazer novas obras no casarão. A resposta estava bem na minha frente: um adorável brechó coalhado de roupas, adereços, móveis… Essas e outras doações recebidas vão para o bazar, onde são vendidas regularmente pela melhor oferta recebida.

Faço uma pequena pausa, enquanto sorvo um copo de água geladérrima. Absorto, caminho com vagar pelos corredores centenários. Num dos quartos, uma simpática senhora me espreita pela nesga da porta entreaberta. Cumprimento-a com alegria e ela me indaga, os olhos rútilos, fixos em minhas madeixas grisalhas:

- Quando o senhor vem morar aqui?

Acho que estou ficando velho.

Só aí me lembrei o motivo da visita: os livros. Cadê os livros?

cronista9@hotmail.com

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