Esqueceram de mim

10 10UTC julho 10UTC 2009

Catatônico, avisto um jurássico carro de raspa-raspa, sequioso e saudoso, estaciono rapidola o carro no meio fio. Que sabor escolher: Côco ou maracujá? Acabei optando pela perfumada graviola. Esparramo-me no banco do automóvel e me delicio com a guloseima. Há quanto tempo eu não tomava um raspa-raspa? No mínimo um cinco anos. Antigamente, em cada esquina da cidade esbarrávamos num carrinho desses. Entretido, só então reparei que havia estacionado bem em frente a uma escola. E o pior: bem na hora da saída dos alunos.  Em poucos minutos, o copo estava vazio. Saio do carro e peço um repeteco pro ambulante. Quando me preparava para tirar o time, avistei um pinguinho de gente sentado na escadaria.

Mochila aos pés, as mãozinhas apoiadas nos joelhos, o olhar ansioso, perdido. A maioria dos colegas já haviam se retirado, levados pelos pais e babás. Vez em quando ele olhava para a rua, pro relógio do celular. Fiquei a matutar: o que estaria passando pela sua cabecinha? Resolvi tirar minhas dúvidas puxando conversa com o pirralho.

- Cadê sua mãe?

- Já deve estar chegando. Ela me disse para não conversar com estranhos.

Menino esperto. Macaco velho do rabo pelado, resolvi pegar um atalho, introduzindo na conversa uma terceira pessoa – Seu Vianna – o sorridente vigia da escola. Falamos sobre a floresta, o meio ambiente, animais… Quando relaxou, me contou as estripulias do “Pingo” seu cãozinho de estimação. Foram momentos de raro prazer. Sem querer voltei no tempo, relembrando a vez que esqueceram de mim.

Eu morava no Rio e devia ter meus dez anos. Todo mês de julho, meu pai me levava para uma colônia de férias da ACM (Associação Cristã dos Moços), localizada na Serra das Araras. Menino criado em apartamento, me esbaldava escalando as encostas pedregosas, mergulhando nas cachoeiras geladas, me enfurnando nas noites sem fim ã beira da fogueira, ouvindo escabrosas estórias de terror.

Apesar do regime militar imposto pelos monitores: todo santo dia, tínhamos que arrumar as camas, hastear o pavilhão nacional, cantar os Hinos do Brasil da Bandeira “Salve lindo pendão da esperança / salve símbolo augusto da paz/ tua nobre presença é a lembrança que a pátria nos trás…” Que lindo né? Depois, era só lazer. Jogos, competições, gincanas… E o almoço – é claro. Como esquecer os tomates, o agrião, a alface, a couve, tudo fresquinho, colhidos na horta da fazendola. E o que dizer do aipim com carne assada, o arroz com aletria, o feijãozinho fumegante…  Os caquis sumarentos, as dulcíssimas frutas do-conde, o cheiro do café torrado na hora… Eram tempos de bonança. Um mês inteiro pra vadiar. Sem nenhum tipo de preocupação. Comer, brincar e viver.

Tudo que é bom dura pouco. De repente, não mais que de repente, o dia da partida chegou.  Arrumei minha tralha e fiquei à espera do velho. Uma hora, duas, e nada dele chegar. Todos meus colegas partiram, e eu lá, ansioso, preocupado, o que teria acontecido? Dormiram demais, um acidente… Nem pensar! Todas essas coisas passavam em minha mente, enquanto o olhar percorria a estrada sem fim.  Lá pelas tantas, ouvi o inconfundível som da Rural-Willys do velho.  Açodado, corri como um louco pela ponte ao encontro do meu pai. Estava tão feliz, tão aliviado, que nem notei que minha mão sangrava abundantemente. No afã de encontrá-lo, rasguei a palma da mão no corrimão da ponte de madeira. Lá se vão quase cinqüenta anos.

Desperto da minha catarse com a chegada do pai do garoto. Seu olhar era igualzinho ao meu. Assim como ele, eu também já passei por isso. Esqueceram de mim.

cronista9@hotmail.com

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