Chegou o verão

23 23UTC julho 23UTC 2009

E chegou novamente o modorrento mês de julho. Mês em que Belém, tal qual um grande balão cadente, se esvazia, fica tranqüila. As famílias vão para Mosqueiro, Salinas. As mais abonadas, Rio, America do Sul, Europa… A verdade é que nos últimos dez anos, não fui um só fim de semana para Salinas. Não me queixo. Em compensação, me quedo satisfeito na metrópole vazia, latifundiário todo poderoso, tomo conta da cidade como ela fosse só minha.

Acordo cedo, abro a janela, e respiro a brisa morna da manhã que promete ser das mais belas. O céu está azul, a lua cheia some aos poucos no horizonte se preparando enfim para dormir. As praças, as padarias estão às moscas. No meu prédio, poucos carros jazem na garagem sombria. Como moro no último andar, aproveito para perscrutar com mais vagar a cidade adormecida. A vista cansada ainda consegue alcançar o telhado do Theatro da Paz, o cume do coreto Do Largo da Pólvora e suas árvores centenárias. No apartamento em frente, uma senhora gordíssima derrama o busto enorme no parapeito da sacada. Ao lado, toalhas e peças íntimas dão um colorido bizarro, aleatoriamente pendurados no varal improvisado. Na janela do apartamento ao lado, um morador anônimo parece possuir o dom supremo da ubiqüidade. Fala ao celular, pita um cigarro, afaga o gato preguiçoso, enquanto observa o vai e vem dos carros. Que vida boa!

Chega de moleza – o dever me chama. Mas um dia, ainda hei de seguir à risca, a máxima de Ginsberg, que dizia que nunca é tarde para não fazer nada. Mas por enquanto, vou seguindo as premissas do filósofo Kushida Sensei: “Não se queixe do trabalho. Você terá tempo de sobra para descansar quando estiver morto”. Então… Vamos ao trabalho!

Pego o carro e rumo para o Ver-ô-Pêso. Até ele está diferente. Estacionamento à vontade, barracas vazias, fartura de verduras, frutas, carnes e peixes. Bom, bonito, mas nada barato. Resolvo comprar dois quilos de patas de caranguejo, cheiro verde, cebolinha, pimenta de cheiro e tomates. Na Ocidental do Mercado, peço pra dona Vanda moer dois reais de pimenta e cominho e um tantinho assim de colorau. Quando chegar em casa, retirarei as interseções das patas do saboroso marisco e refogarei a massa em azeite e condimentos. Pra acompanhar, feijão preto, arroz soltinho e farofa de cebola dourada. É bom demais!

Ao contrário das grandes cidades, Belém (em alguns aspectos) mais parece uma aldeia de muro baixo. Distante, bem distante, diferente, bem diferente de metrópoles como São Paulo, em que vizinhos do mesmo prédio mal se conhecem, mal se falam. Onde as pessoas ficam juntas sozinhas – Uma selva de pedra, um zoológico humano, uma grande cidade, uma grande solidão. Belém, graças a Deus, ainda não!

Ando até o final da feira pra comprar açaí. Peço pra embalar dois litros do grosso, um tanto de farinha de tapioca e sigo cantarolando “aquela” canção do Roberto. À minha frente, abarrotada de compras, uma jovem mãe empurra diligente um carrinho de bebê. Ao lado, agarrada a bainha da saia materna, a filha sussurra baixinho:

- Mamãe, você gosta de mim?

- Gosto.

- Muito?

- Muito!

A cena pungente fez meu combalido coração se contorcer. O suor porejar pelo corpo, latejar as têmporas, o peito doeu-me todo. Lembrei-me de minha filha Juliana. Por quê será que os filhos crescem? Há quanto tempo ela não me pergunta isso?

cronista9@hotmail.com

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