De volta ao paraíso

23 23UTC julho 23UTC 2009

Semana passada, fui peremptório: durante as férias, prefiro ficar em Belém. Contudo, toda regra tem exceção. Na quinta, um casal de amigos nos convidou (ou eu me convidei?) para passar o fim de semana em sua aprazível residência, na praia do Maraú.

Na sexta, arrumei meus bregueços e partimos pra bucólica. Por incrível que pareça, o trânsito estava tranqüilo. Talvez por isso, resolvi seguir viagem direto, sem escalas. Resisti aos camarões, às frutas oferecidas aos montes à beira da estrada. Só dei uma paradinha numa biboca em Santa Barbara, a fim de comprar uma irresistível carne de sol. Já na ilha, me rendi aos saborosos pastéis do Oliveira.

Chegamos ao Maraú cerca de uma hora e meia depois. Os anfitriões nos esperavam com tapete vermelho estendido na porta. A casa é tudo de bom. Grandiosa e ao mesmo tempo aconchegante. Aceitei sem pestanejar uma dose generosa de puro malte, oferecido pelo meu amigo Charles, e me enfurnei na cozinha, território da Dona Val, e seu sorriso de piano. A quatro mãos, tratamos de preparar alguns acepipes para a turma. Escondidinho de bacalhau, carne de sol acebolada e outras milongas mais. De repente, não mais que de repente uma romaria de barcos cortou as águas tranqüilas da enseada. Eram dez, vinte, trinta barcos… Perdi a conta, em comboio rumo à pescaria.

Passamos horas agradabilíssimas, bebericando, petiscando, conversando. Quando me dei conta, já era noite. Tomei um banho rejuvenescedor e jantamos. Depois da sobremesa, cada casal se aboletou num sofá para assistir o show do Rei – Roberto Carlos. Como era de se esperar, dormimos cedo. No outro dia, caminhamos pela praia deserta. A maré estava vazando. A paisagem, luxuriante. Ilhéus operosos, recolhiam camarões nos matapis abarrotados. Namorados trocavam beijos à sombra de uma arvore. Garças ciscavam nos lagos formados pela maré vasante. Crianças espanavam a água…

Bem a nossa frente, um barquinho solitário retornou da pescaria. No fundo do casco, um filhote pesando uns seis quilos. Pechincha daqui e dali, e almoço está garantido. Seccionei o rabo e a cabeçorra do bruto pra fazer o caldo da moqueca, retirei com cuidado a gordíssima ventrecha e temperei, temperamos (eu e a diligente Val) o resto da carcaça. Nesse ínterim, outros amigos chegaram. Beber, comer, jogar conversa fora e viver. Tem coisa melhor? A farra foi até altas horas. Charles dando atenção a todos; Alberto e sua guitarra imaginária; Carlos Eduardo e sua alegria de viver… Com eles aprendi muitas coisas, dentre elas, que a vida é curta, efêmera, passageira. Então, pra quê acrescentar dias em nossa vida; em vez de vida em nossos dias? Vitorio Gassman tinha razão: O único erro de Deus foi não ter nos dado duas vidas: uma para ensaiar os erros. E outra para atuar, viver. Feliz aquele que antes de partir, amealhou amigos, riu muitas vezes, chorou sem pudor, falou a verdade, e amou – muito. Acho que bebi demais…

No domingo o dia amanheceu lindo. Aproveitei para ir até a ponte do Cajueiro, à cata de O Liberal. Na volta, dona Val me aguardava com um pratarraz de macaxeira fumegante. Espalhei manteiga à beça e mandei ver. De quebra, uma coca bem gelada. Arrumamos a tralha, e a contragosto, fomos embora. Os filhos nos esperavam ansiosos para o almoço domingueiro.

Na volta, vim matutando. Ainda vou comprar uma posse no Maraú. Quem sabe um dia, eu construa uma casinha por lá.

cronista9@hotmail.com

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