Cartagena das Índias 12/9/13

11 de janeiro de 2014

Ao contrário da úmida e fria Bogotá, Cartagena é luminosa, ensolarada, seu povo é ternamente caloroso, acolhedor. Fundada em 1513, Cartagena parece ter parado no tempo. A grande maioria dos sobrados e casarões são do século 17 e se encontram em excelente estado de conservação – bem diferente da nossa Belém – pois não? Cartagena era exatamente o que eu imaginava ao ler os romances de Gabriel Garcia Márquez, sobretudo, “Amor nos tempos do Cólera”. Sabem aquelas cidades barulhentas e agitadas a qualquer dia e hora da semana? Cartagena é assim. Uma cidade tirada de um conto de fadas -ou melhor – de um filme de piratas.
O clima caribenho tomou conta de mim e tratei de trocar as roupas formais por bermudas e sandálias havaianas. A denominação “La Heroica”, como também é conhecida Cartagena, se deve a valorosa resistência ao cerco implacável imposto pela Espanha em 1815. A cidade antiga é circundada por 11 km de muralhas fortemente armadas e intransponíveis. Atualmente é um sítio turístico com cerca de 60 hotéis luxuosos e mais de trezentos habitações populares. Suas águas são cálidas
, variando do verde-claro até o verde-esmeralda. Uma cidade de gente amável e trabalhadora, mas, sobre tudo, um pequeno paraíso onde reside a essência do realismo mágico. Assim como o mundo fala do Rio de Janeiro de Machado de Assis, da Londres soturna de Dickens, o Marajó de Dalcídio, da Paris de Victor Hugo, fala também da Cartagena de Garcia Márquez.
Através de suas ruas estreitas, casas coloridas, balcões e igrejas coloniais, Florentino Ariza se enamorou perdidamente por Firmina Daza. No antigo Convento de Santa Clara, uma outra personagem também sofreu os males do amor, deixando os cabelos crescerem até atingirem a incrível marca de 22 metros e 11 cm.
Mas nem só de história e literatura vive o homem. Cartagena é um excepcional sítio gastronômico. Pratos regionais como “Luxúria del mar, pescados, arroz de lombo palenquero…”são vendidos em centenas de restaurantes a preços módicos, acompanhados de patacones (uma banana desconhecida) amassada e frita em azeite fervente. Os mariscos e pescados são um capítulo a parte.
Numa das caminhadas matinais fomos testemunhas disso, ao topar com uma turma de ilhéus puxando uma enorme rede. Como não estava fazendo nada, me prontifiquei a ajudar. Após um quarto de hora, a rede fervilhante de peixes estava na praia. Imaginem só, famintos leitores, sardas, sardinhas, tainhas, camarões, robalos (o mesmo que o nosso saboroso camurim)sendo despescados. Até um solitário e incauto tubarão que tocaiava o cardume de tainhas se enredou nas malhas traiçoeiras!
Por um preço módico, um dos pescadores se prontificou a escamar e moquear o peixe ali mesmo. Tempero? Uma folha de bananeira, limão galego, a brisa e o sal do mar. Tem coisa melhor?
Foi lá que descobri e fiquei fã de carteirinha dos incríveis e misteriosos sabores da rica cozinha peruana. O arroz chaufa (um amalgama perfeito de especiarias mesclados com pedaços de frango, porco, camarões, e salsa chifera despertou em mim sensações incríveis. E ainda tinha mais! Cevices, tacu-tacu,chupe de camarões… Só não tive coragem de provar um dos pratos mais icônicos – o cuy – parente próximo do nosso preá.
Como num trecho de “Viver para contar”, romance emblemático de Garcia Márquez ” Me bastou dar um passo para dentro das muralhas e ver em toda sua grandeza a luz malva das seis da tarde para que eu pudesse experimentar o sentimento de haver voltado a nascer de novo…”

Inútil Paisagem 30/7/13

11 de janeiro de 2014

Inútil Paisagem

Mal abria a porta e você dava de cara com o tilintar suave dos sinetes, um espelho em forma de sol e um azulejo azul e branco na parede com a frase singela: “Aqui mora uma pessoa feliz”. Coisas, objetos simplórios que davam gosto e graça a sua vida quase espartana. Do contrário, a existência seria um enfado. Sua personalidade era controversa. Contudo, era incapaz de falsas simulações de apreço e de afeto. Quando gostava de uma pessoa era para toda vida. Mas também quando não gostava… Sai de baixo!
Nunca conheci uma pessoa tão solitária que mantivesse a porta tão escancarada. A primeira vista, ou de longe, mantinha solene distancia. Na verdade ela apenas se resguardava, avaliando e antevendo os problemas. Aparentemente reservada, tinha um montão de amigas do antigo I.A.P.I, com as quais mantinha estreito contato. Lembro-me de ouvi-la várias vezes ao telefone: “como vai Zuleiquinha (uma das amigas mais próximas), vamos almoçar no centro da cidade? Ou os passeios intermináveis pela praia de Botafogo com a vizinha e amiga Maria Helena – recentemente falecida. Dona Dalza gostava desse clima de intimidade que cria laços de confiança e amizade para sempre.
Ainda assim, em alguns momentos se fechava em copas, teimando em se enfurnar em si mesma tal qual a abelha rainha fabricando diligente o seu próprio mel. Quando necessário, manejava com maestria o humor e a ironia em doses homeopáticas. Dizia as verdades sem circunlóquios e os possíveis alvos não se davam conta ou não tinham como rebater.
Enquanto esteve saudável, dedicava pouquíssimo tempo aos afazeres domésticos. Sua casa era a rua. Sempre a questionei: “Como é que uma aposentada passa o dia inteiro na rua? No que ele respondia: “Um dia você vai entender meu filho… Quando estava em em casa, seu cômodo preferido era o meu quarto e a vista luxuriante do morro Novo Mundo. Passava horas admirando a paisagem verdejante daqueles poucos metros quadrados de mata atlântica restantes, os micos e tucanos saltando de galho em galho, a revoada barulhenta dos periquitos, o olhar altivo e prescrutador do gavião prestes a dor o bote em sua presa. Por ironia do destino, quando se quedou doente, o alemão embotando sua mente, minha irmã sabiamente transferiu seus bregueços para o meu quarto, posicionando a cabeceira da cama diretamente para o morro. Foi lá, o olhar fixo no horizonte, alternando momentos de confusão mental e lucidez que ela passou os últimos anos até falecer.
Retorno ao Rio para uma missão necessária e delicada. Cremar seus ossinhos, e espalhar suas cinzas ao vento no lugar que muito lhe aprazia – o Jardim Botânico. Gostaria de voltar no tempo daquele verão em que “Eu só quero um xodó”, na voz malemolente de Gilberto Gil, tocava em todas as radios e vitrolas do Rio de Janeiro e do Brasil. Num final de tarde, ela colocou o disco na vitrola e me tirou para dançar. Pouca afeita a gestos desnecessários de carinho – a não ser com os netos – beijou-me as faces, me abraçou forte enquanto rodopiava murmurando a canção. Por alguns instantes imaginei levitar. Naquele tempo, a vida pulsava forte em seu coração. Naquele tempo, eu ainda acreditava que a morte só chegava para as outras pessoas, e que a felicidade jamais terminaria.
Existem pessoas que levam anos, décadas para serem desvendadas. Como o original de um livro que nunca saiu da gaveta do autor ou não convenceram um editor de sua publicação. Minha mãe era, é um ser dessa estirpe.
cronista9@hotmail.com

Lembranças do Gustavo 1/8/13

11 de janeiro de 2014

Lembranças do Gustavo

Conheço-o desde criança, quando costumávamos colocar armadilhas para pegar passarinho nas matas do morro Novo Mundo. Não sabia ler nem escrever e tinha dificuldades com os números até para usar o telefone. O relógio era apenas objeto de decoração para o pulso de ébano. Nunca esteve fora do Estado do Rio, votou pela primeira vez em Leonel Brizola, por quem nutria verdadeira adoração. Como não lia jornal – e naquele tempo não existia televisão, não tomava conhecimento do que acontecia no país. Vivia lite
no mundo da lua. Mas era um dos homens mais honestos e decentes que conheci até hoje. Além dessas qualidades, era botafoguense doente e dotado de uma alegria contagiante. Seu sorriso era literalmente de piano! Mas quando era necessário, tornava-se um bastião de coragem e destemor. Jamais consegui superar o impacto ao vê-lo partir imperturbável pra cima de um sujeito com o dobro do seu tamanho, que havia lhe alcunhado de “crioulo nojento”. Acreditem: ele nem precisou da minha ajuda – encheu o meganha de pancada.
Nos separamos quando vim para Belém. Quando retornei encontrei-o sisudo, tomando conta da portaria do prédio da minha mãe. Veio com uma conversa meio torta me chamando de doutor. “doutor uma ova”. A partir daí, todas as vezes que eu ia ao Rio, nos encontrávamos relembrando os velhos tempos. Gustavo morava num quarto modesto, num prédio ao pegado onde também tomava conta. Não sei como arrumava tempo para dois empregos em tempo integral. Perdi a conta das vezes que o acordei quando chegava altas horas da esbornia. Nas horas vagas, se arrumava todo. O pescoço vergado pelo peso de grossas correntes de prata, as calças vincadas com capricho pendiam soltas de sua cintura esguia, sem qualquer tipo de barriga e ia pra samba, a bordo dum velho Opala verde que comprara, sabe-se lá de quantas mãos. Eta crioulo elegante!
Quando eu chegava de táxi la estava ele à porta fazendo algazarra: “O Denis chegou. Ninguém dorme na Marques de Olinda!” Pegava minhas tralhas e arrastava para o elevador social. Nos domingos, quando coincidia, íamos juntos ao Maracanã, assistir o Glorioso jogar. Nunca o vi de cara amarrada – pra ele não tinha tempo ruim – a vida era sempre uma grande festa. Todos na rua o conheciam e ele conhecia a todos. As crianças adoravam seu jeito. Meu filho em especial, nutria um enorme carinho por ele. Nos últimos tempos andava amuado, magérrimo, a traiçoeira úlcera roendo-lhe lentamente as entranhas. Ainda assim não se deixou abater, como se a morte que se avizinhava fosse algo natural.
Um belo dia ele interfonou me convidando para almoçar no Manolo. Não entendi nada – ele vivia duro. Assim mesmo desci para ouvir de viva voz o milagre. “Não te mete! Ganhei no bicho. Deu pavão na cabeça! Esse fim de semana não tem crioulo pobre”. Dito isso atravessamos a rua e nos aboletamos no restaurante. Ele pediu seu prato predileto: frango à passarinho, intercalada com generosas talagadas de Caracu, pra quem não sabe uma encorpada cerveja preta.
Tirei uma copia de uma cronica perdida no tempo publicada em “O Liberal”, em que narrei algumas de suas diatribes. Ele plastificou-a e mostrava com orgulho pela rua dizendo: “eu sou famoso, até sai no jornal!” Mas tudo que é bom dura pouco. Quem convivia há décadas com uma úlcera e bebia e fumava como ele, tinha o futuro igual ao de uma vela fixada sobre a superfície de um fogão aceso. Gustavo vivia em eterno estado de êxtase, pena que não tenha conseguido escapar do abismo para poder continuar louvando a beleza ou o estapafúrdio da vida.

Botafogo, Aerosol e Clarice 6/8/13

11 de janeiro de 2014

Botafogo, Aerosol e Clarice Lispector.

Não era um domingo qualquer. Tantas coisas boas a fazer, mas o tempo era exíguo. Cinema, Maracanã, Jóquei Clube, Teatro… Como não tenho o dom supremo da ubiquidade tinha que escolher. Apartei o cinema – o filme estava em cartaz há uma semana e podia esperar. Mas o Grande Prêmio Brasil e o Maracanã recém-inaugurado eram eventos imperdíveis que aconteciam quase na mesma hora e em lugares diametralmente opostos. Fiz as contas e achei que ia dar. Peguei o ônibus na Praia de Botafogo e em alguns minutos, chegava às sociais do Jóquei. O sexto páreo havia acabado de correr, os cavalos esgotados e suados retornando as baias. De posse da programação, iniciei a difícil tarefa de avaliar os concorrentes e escolher dentre vinte e seis puro sangue, o vitorioso. O retrospecto de Ibrahimovic não era dos melhores, mas ele era conduzido pela única joqueta inscrita – Josiane Goulart. O fato de ser um azarão, poderia dar uma polpuda pule. Dentre os favoritos, Aerosol, vindo de um excelente retrospecto, era um palpite a ser avaliado. Joguei 50 pilas em Aerosol e outros 50 no placê de Ibrahimovic e subi para assistir à carreira.

A tribuna social estava lotada de mulheres elegantes em seus vestidos e chapéus de grife. Os homens, impecáveis em terno e gravata, relembravam os tempos áureos de glória do mais importante prova do turfe brasileiro. Com direito á presença de artistas globais como suave Mariana Ruy Barbosa, a “Nicole” da novela das nove, “Amor à Vida”. O curioso é que o glamour tem tudo a ver com o universo da personagem, que é de uma família aristocrática. Quem também estava a trajando um conjuntinho de linho bege, era a atriz Priscila Fantin. Com tanta gente bonita, nem me dei conta que o páreo já estava correndo. À frente, Aerosol abria três corpos e no grupo intermediário, o imprevisível Ibrahimovic. Eis que os concorrentes terminam a curva e entram pela reta final. Segundo o locutor oficial, Aerosol não perde mais. Ibrahimovic chegou em quarto. Fiz as contas e verifiquei que a “Lucrécia Bórgia” havia sido satisfatória. Beleza.

Hora do clássico Botafogo x Vasco. Assustei-me ao entrar no outrora maior do mundo. Apesar de totalmente reformado, ele havia encolhido. Em vez dos 200.000 lugares, agora reduzidos para aproximadamente 70.000. Um improvável déjà vu passou pela mente. Quantos domingos assisti ao glorioso Botafogo pelear e sair vitorioso. Nesse domingo não foi diferente. Como nos velhos tempos, ele massacrou o Vasco. E continua líder absoluto do Campeonato Brasileiro, com direito a show de bola de Seedorf e Rafael Marques, autor de dois belos gols.

Por último, mas não menos importante, chego ao teatro a tempo de assistir o monólogo “Clarice Lispector”, magistralmente interpretado por Beth Goulart, que realiza a proeza de vivificar em cena a maior escritora brasileira do século XX. A atriz mergulha nos silêncios e emoções da escritora e encontra sua essência. Impressiona a semelhança física, o sotaque, o jeito de tragar o cigarro, os trejeitos com a personagem. Através de sua literatura, percorremos num périplo inesquecível em direção à primeira pessoa, ao texto confessional. Como diria o ensaísta Harold Bloom: “Não existe literatura, só autobiografia.” Em pouco mais de uma hora, é possível traçar um perfil de Clarice Lispector. Uma autora e seus personagens dialogando sobre a vida e morte, criação, Deus, cotidiano, solidão, entrega, entendimento…Não foi à toa que Beth Goulart papou todos os prêmios do ano, levando ao teatro mais de 700.000 espectadores! Saí de lá com a alma lavada, a sensação do dever cumprido. Afinal de contas, eu estou no Rio!

Tempos de crise 16/8/13

11 de janeiro de 2014

Tempos de crise
Quando os desmandos, a omissão do governo, os voos de lazer de políticos em aviões da FAB, o governador Sérgio Cabral fazendo lotação do helicóptero oficial, levando pra lá e pra cá amigos dos filhos, babás, o cachorro de estimação. Quando os protestos e a crise que se avizinha nos convidam ao pessimismo ou até mesmo a depressão – está na hora de ler. Poesia, prosa ou até mesmo uma simplória revista em quadrinhos. Eu prefiro a releitura. Reler, sobretudo, aquilo que nunca se leu. Essas e outras confidenciei a um conhecido pouco chegado a leitura. Foi tiro e queda! Só que em vez de seguir meus conselhos e ler “Amor nos tempos de Cólera” ou se deliciar com a poesia direta e suave de Quintana, ele preferiu mergulhar de cabeça nas profundezas abissais do ardiloso Saramago e acabou se perdendo no hermetismo contido no relato de “Ensaio sobre a Cegueira”. Segundo ele: “um livro para doido varrido nenhum botar defeito”. Pode ser.
Um sujeito batuta, às vezes, um verdadeiro sábio, assim era o meu amigo Luis Roberto Meira. Enquanto viveu, teve uma relação direta e sem atalhos com a vida. Entre nós, não havia intermediação intelectual. Detentor de inúmeras qualidades, que repartia sem pedir nada em troca. Houvesse o que houvesse, sempre reservava uma palavra de consolo, um gesto de afeto para aqueles felizardos que comungavam de sua amizade. Trazia no coração uma medida de equilíbrio que era um dom de nascença, quem sabe herdado do velho Cécil. Equilíbrio que ele esbanjava para os outros, mas que lhe faltou no final da vida. E assim ele viveu até o último suspiro.
Em dado momento de nossas vidas, nos encontramos propositalmente numa das Bienais de Livro da vida. Entramos no Riocentro e nos despedimos, marcando encontro no final da tarde em frente ao estande da Nova Fronteira. À hora combinada, lá estávamos nós, carregados de sacolas cheias de livros. Vocês hão de perguntar por que nos separamos: é que um não queria influenciar o outro. Mas no final veio a surpresa. Ao conferirmos nossas aquisições, descobrimos que a maioria dos livros comprados eram os mesmos.
A crise do governo Collor corria célere. Desgoverno, escândalos, corrupção… O País ameaçava incendiar-se, os jovens caras pintadas saíram a rua para protestar pedindo a renúncia do Presidente, a imprensa pressionava os políticos com discursos moralizadores, e o Luis Roberto não estava nem aí pra crise. Sua preocupação era chegar em casa, guardar os livros e escolher onde íamos jantar. Horas depois, estávamos na Marques de Abrantes, aboletados numa mesa do “Lhamas”, estraçalhando um monumental filé à francesa. Montanhas de petit pois, batata palha, presunto fatiado e cebolas douradas. Enquanto o País ameaçava desmoronar, o horizonte andava borrascoso, meu amigo olhava distraído para as nuvens cinzentas, mas não mantinha o olhar fixo no pé-direito da crise. Muito pelo contrário! Baixava o olhar ao rodapé, pois o Brasil também estava no rés-do-chão.
No outro dia, passamos em revista os sebos do centro da cidade. E haja livros. Calados, porém vorazes, cumprimos a risca o ritual. Apartar o que interessa, avaliar bem a compra e depois pechinchar a exaustão. Lembro-me que ele adquiriu a preço de banana, as obras completas de Virgínia Wolf. Pegamos o metrô e retornamos a Zona Sul. Apesar do tempo nebuloso, foi um dia perfeito, como tantos outros haveriam de ser.
Hoje, a crise bate a porta novamente e me lembrei com carinho do inesquecível amigo. Se ele estivesse vivo, iríamos enfrentá-la de frente, conversas intermináveis, acepipes, e é claro – livros – muitos livros. Por que não?
cronista9@hotmail.com

Medo de avião

11 de janeiro de 2014

Historias de avião.

Não é de hoje que morro de medo de avião. Basta ele decolar, e o suplício começa. Não tenho nenhum problema em confessar: se puder evitar, vou a pé, de ônibus. Se não nasci com asas, pra que arriscar? Já viajei pelas asas da Panair, da Cruzeiro do Sul, da Paraense. Os Electra da ponte aérea. Tempos depois, Sadia, Transbrasil, Vasp, Varig, Taba… Agora a TAM, Gol, Azul… Foram tantas companhias, tantos aviões, que até perdi a conta. Desnecessário falar sobre a crise aérea que tomou de roldão o País. Filas quilométricas, esperas inevitáveis. E a duvida cruel: Quando, como, de que maneira chegaremos?
A primeira vez que me dei conta do risco de viajar de avião, foi na década de 60, quando um Hirondelle da Paraense despencou na Baia de Guajará. Conhecido meu, apenas o Coronel Ludugero – personagem folclórico da época. Muito tempo depois, o fatídico 727 da Varig, aquele do Comandante Garcez, que caiu nas matas do Mato Grosso. Dentre os doze mortos: Graça, uma vizinha do Ismênia, Zé Luis, um colega do colégio, e o irmão do meu amigo Nagib Mutran.
A mais inusitada experiência aérea aconteceu há uns 15 anos, ao embarcar um voo para Macapá. Embarquei cedinho, com o intuito de tentar receber uma divida antiga. Cheguei à casa do caloteiro lá pelas 7 da matina. Bati na porta, e a mãe dele me recebeu desconfiada.
– O Matheus se encontra?
– Pera lá, vou ver.
– Filho. Um tal de Denis quer falar contigo.
– Diz pra ele que eu estou dormindo.
Mal sabia ele que eu não estava no telefone.
Pego no contrapé ele aparece.
– Oi, tudo bem! Vamos entrando.
Algo me dizia que eu entraria numa fria.
Vestiu-se às pressas, e me levou pra conhecer a cidade. Malandro é florida!
– Macapá está crescendo. O Sarney está investindo na cidade, até Zona Franca já tem. Tua mulher gosta de perfume? – Quem não gosta.
Levou-me na casa de um catrepeiro – que segundo ele – lhe devia uma nota preta. Adoçou minha boca com um vidro de “Kenzo” e três cheques pré-datados voadores. Feito isso, serviu-me um almoço de rei. Ao cair da tarde, me despejou no Aeroporto. Trambiqueiro é tudo igual.
Alegre como pinto no lixo, fui fazer meu chek-in. Quem disse? A atendente comunicou que Belém não tinha teto. Para piorar a situação, eu não tinha levado roupa, escova de dentes. Enquanto matutava o que faria, avisto o Lazera, que, assim com eu, também estava lá pelo mesmíssimo motivo: tentar receber uma divida.
Vindo do nada, aparece um sujeito com cara de cobrador sugerindo: – Quem quiser ir pra Belém, a hora é agora! – Mas rapaz… Pela metade do preço, topamos todos. Eu, o Lazera, José do Carmo, Paulo Lima, uma mulher grávida e um deputado – não me perguntem o nome. Pra resumir: topamos! Na hora do embarque, a verdade. O avião era um jurássico Bandeirantes, a serviço dos Correios, abarrotado de malotes. O cobrador, na verdade, era o piloto. Sem saber, Quinze anos antes, fizemos o que a Ministra preconizou: relaxa e goza.
Foram os piores momentos que passei no ar. As únicas poltronas disponíveis eram as do piloto e a da grávida. Nós, pobres mortais, fomos “acomodados” em cima dos malotes. Levantar, nem pensar. O interior da aeronave foi feito pra anão. Nem parecia que estávamos num avião. Cigarro na boca, camisa arregaçada, braço pra fora, o piloto avisou: “se segurem, vamos decolar. Rezem pra chegarmos antes da tempestade” – Pai d´egua…
Não recebemos a divida, mas chegamos sãos e salvos. Comemoramos nosso memorável voo no saudoso Corujão.
Nélson Rodrigues estava coberto de razão: é preciso sorte até para chupar um picolé. Vai que a gente se entala com o palito.
cronista9@hotmail.com

Quero ser gerente 1/12/13

11 de janeiro de 2014

Quero ser gerente!

Sempre votei em Brizola. Uma questão de coerência, creio eu. Será que se o velho caudilho tivesse sido eleito, o mensalão e todas essas falcatruas cometidas pelos mensaleiros teriam acontecido? Brizola era como Ulisses Guimarães – “sou velho mas não sou velhaco”! Após anos de adiamentos e recursos, finalmente a cúpula da quadrilha foi pra a cadeia. José Genoíno, petista histórico, está em prisão domiciliar na casa da filha, usufruindo de todo conforto possível – só porque sofreu de um piripaqui no cuore. Segundo o despacho do juiz, ele não poderá dar entrevistas, ingerir bebida alcoólica e outras cositas más. Mas quem vai conferir? O deputado está de licença médica e continua recebendo regularmente R$ 26.7 mil de proventos. Por que ele é melhor dos que os outros presos? O tesoureiro Delúbio Soares também foi encarcerado, mas, pelo andar da carruagem, logo estará solto.
Para surpresa de todos, José Dirceu anuncia que quer ser gerente de hotel. Reclama da falta de celular e do desconforto do catre. Segundo petição encaminhada ao presidente do Supremo, Joaquim Barbosa, o comandante em chefe do mensalão, pleiteia gerenciar o Hotel St Peter, na conceituada Asa Sul de Brasília – com direito a salário de 20 mil, uma suíte presidencial e outras benesses. Fico a imaginar como foi a entrevista para o emprego e como ele preencheu os requisitos. Não sei também como ele já está com a carteira de trabalho assinada e carimbada pelo empregador. Ainda não vi os sucessivos governos petistas fazerem nada, além de aumentar impostos, subsidiar combustíveis, dar dinheiro aos ricos, comida aos pobres, corromper parlamentares e varrer a sujeira para debaixo dos tapetes palacianos. No mais, ele se omite e esperneia. “A culpa é das elites!” Que eu saiba, Marina Silva, Heloísa Helena, jamais pertenceram a elite. Elas são a voz do povo.
Um estrangeiro que aqui chegasse, sem conhecer a trinca dinâmica Dirceu, Genoíno e Lula, diria que se tratava de Robespierre, Danton e Marat, vociferando contra Luís XVI. Não bastasse isso, o ex-presidente Lula insiste em declarar que se orgulha de ter frequentado a escola apenas até o quarto ano primário. Isso é um péssimo exemplo para a juventude. Quando um jovem é informado de que o Presidente da Republica para chegar ao Palácio do Planalto, não precisou estudar, qual sua reação natural diante das obrigações escolares? Ora, se o Lula não precisou fazer o dever de casa, se em vez de comparecer às salas de aula saiu pelo mundo fazendo greve e se deu bem, porque o mesmo não acontecerá com outros?
O nefasto José Dirceu, agora se volta contra seu chefe, cobrando-lhe uma posição mais firme em defesa dos colegas presidiários. Isso é o que dá meter a mão numa cumbuca cheia de víboras. Comparado a eles, Collor não passa de um reles punguista.
Agora vamos a nós, pobres mortais. Acaso cometêssemos algum ato ilícito, iríamos sem dó nem piedade direto pro xilindró! Iriamos… A jurisprudência está firmada. Como estou praticamente na terceira idade, sofro de doença crônica e tomo remédios de uso continuo, caso eu prevarique, já tenho direito a tudo que esses salafrários conseguiram através das brechas legais e abissais da justiça.
E ao apagar das luzes, mais uma bomba! Máfia de fiscais desviou cerca de 500 milhões de reais da Prefeitura de São Paulo. Em entrevista exclusiva para o Fantástico, um dos acusados afirmou que havia estourado milhões de propina com garotas de programa, viagens e iates. Se fosse eu…
E você, honesto e tentado leitor – gastaria em quê?
cronista9@hotmail.com

Ophir Cavalcante & Brandão 9/12/13

11 de janeiro de 2014

OFHIR CAVALCANTE – ANTONIO CARLOS BRANDÃO.

No começo de 2014, no breve interregno de duas horas, perdi dois entes queridos. O primeiro, Tio Carlos. Horas depois, meu primo Ophir Cavalcante. Apesar dos laços sanguíneos paralelos (Tio Carlos era casado com a irmã da minha mãe e o Ophir era um dos filhos do Tio Níger, irmão do meu pai). Que eu saiba, eles jamais se encontraram durante o tempo que estiveram na terra. Quis o destino que partissem quase que ao mesmo tempo.
Brandão, como era mais conhecido, era um sujeito iluminado. Semanas antes de ser internado, 90 anos completos, trabalhava todo santo dia. Parece mentira, mas é a mais pura e cristalina verdade. Saía de casa em Copacabana em direção ao centro da cidade e só retornava no final da tarde. Aos sábados, frequentava assiduamente a missa na Igreja N.S. de Copacabana, na Hilário de Gouveia. Comungava, comprava o lanche e ia a pé pra casa, na Av. Barata Ribeiro esquina com a Prado Júnior – 9 longos e intermináveis quarteirões. Tio Carlos era um exímio violonista, durante parte de sua existência, levava uma vida dúbia: de dia trabalhava no SENAI, e nas noites, tocava violão. Foi parceiro de Hermínio Belo de Carvalho, Zé Kéti, João Roberto Kely, o gaitista Maurício Einhorn….Sabem aquele sujeito que você começa a papear e não quer parar? Assim era o Brandão. Antes de se mudar para a Zona Sul, Morou décadas na Rua Cândido Mendes, ao pegado a “Casa da Suíça”, point de inúmeras gerações de boêmios cariocas.
Perdi a conta das vezes em que ficávamos papeando, bebericando e ouvindo ele dedilhar com maestria o pinho sempre afinado. Depois, uma ida ao Capela, um boteco pé sujo porreta, traçar uma língua ao molho madeira, iscas de fígado acebolado, um filé à francesa – meu acepipe predileto. Em maio de 2013, a família se reuniu e lá estava ele – sorridente e fagueiro, olhos azulados de Sampaku – como no “Sétimo Selo” – jogando xadrez com a morte. Foi a derradeira vez que o vi.
Conheci meu primo Ophir nos anos 60, quando cheguei a Belém. A família Cavalcante sempre foi festeira, e apesar da diferença etária, o afeto logo nos uniu. Tenho guardada com carinho uma foto perdida no tempo. Tio Adiel, Tia Ruth, Tio Níger, Eliel – meu pai. E a segunda geração: Ana Maria, Dia, Ophir, Antônio Maria e eu – o primo caçula recém-chegado.
Não vou perder tempo falando sobre a trajetória vitoriosa do Ophir (os periódicos de todo o Brasil já o fizeram). Trajetória culminada com a até então improvável Presidência Nacional da OAB, onde poucos se lembram – foi ele que assinou a petição pedindo o impeachment de Collor. Parece pouco? Então tentem. Não bastasse isso, seu filho Ophir Cavalcante Júnior, seguiu a risca suas premissas e repetiu a façanha do pai.
Prefiro lembrar do Ophir pai, avô, irmão, esposo… E por falar em esposo, impossível falar do Ophir, sem citar, com respeito e admiração, sua alma gêmea e grande amor, desses que atravessam encarnações: Célia Medina Cavalcante.
Apesar de vivermos em um mundo interligado pela modernidade da informação, somente um dia desses fiquei sabendo que a doença que o levou era antiga. Vejam só quanto altruísmo! Para não incomodar a família e os amigos, ele guardou o segredo a sete chaves e só quando o desfecho era eminente, finalmente foi revelado. Um homem público que, até o último sopro de vida, soube honrar o povo do Pará. Um demiurgo que vivia em eterno plantão cívico, ardente de paraensismo, e, paradoxalmente, adorava reunir a família e colecionar amigos. Mas todos nós temos a nossa hora. Apesar de toda a luta, tinha chegado a sua vez.

cronista9@hotmail.com

Bom dia, me desculpe, por favor, obrigado!

A madrugada se esvaía quando entrei no supermercado. Acreditem: é a melhor hora para se fazer compras. Os corredores estão vazios, as prateleiras repletas, o balcão de frios não tem viv´alma. O único inconveniente são as verduras e legumes frescos que ainda não foram repostos nas prateleiras. Era o último dia do ano e eu dava tratos a bola a fim de elaborar um prato simples na virada do ano. Com os filhos, genro, nora e neto ausentes, achamos por bem ficar em casa. Nada de bebedeiras, comilanças, trânsito, barulho… Esse ano resolvemos fazer um programa diferente – ficar em casa e admirar os fogos na Teve e na Estação das Docas.
Após colocar no carrinho os gêneros que faltavam na dispensa, me dirigi a atendente que dormitava no caixa rápido – até 10 volumes. Desejei-lhe um Bom Dia e comecei a descarregar as compras. Ela me olhou com cara de peixe e me ignorou solenemente. Segundo ela, eu não poderia passar os produtos pois eles ultrapassavam o número permitido. Olhei para trás e não vi nenhum cliente – custava ela me atender? Contei até mil e achei melhor relevar. Era o último dia do ano e eu não iria me aborrecer só por causa de uma funcionaria destrambelhada e um panetone a mais ou a menos não faria a menor diferença. Apartei o item da discórdia, paguei a conta, ensaquei as compras e abri um pacote de “sonho de valsa”, chocolate que remete e tem odor de infância. Retirei um bombom e lhe entreguei: Isso é para adoçar o resto da madrugada. Feliz Ano Novo”. O olhar de surpresa que ela me dirigiu, não tem preço. Tem gente que vive de mal com o mundo e transfere suas neuras e problemas para o primeiro que aparece. Então, se a vida lhe dá um limão – faça uma limonada!
Já faz algum tempo que venho me dedicando a leitura do Budismo e suas premissas. Talvez isso tenha acalmado minha psique açodada, meu gênio indômito. Agora mesmo estou lendo um livro que recomendo a todos que desejam evoluir espiritualmente: “A arte cavalheiresca do arqueiro zen”. Trata-se de um libelo da milenar sabedoria oriental. Mas nem sempre foi assim. Eu fui, ou era, um cara esquentado, pavio curtíssimo, daqueles que não leva desaforo pra casa. O que eu ganhei com isso?
Agora, o outro lado da moeda. Lá pelas onze, resolvo tomar um sorvete. Ao meu lado um sujeito pra lá de mal-educado, um desses pulhas que suprimiram do vocabulário as palavras “por favor desculpe”, até um simples “obrigado”, vocifera: “me dá um isopor de açaí”. Assustada com tamanha ignorância, a atendente ainda tenta contemporizar, desejando-lhe um sonoro bom dia. Sem pestanejar o quadrúpede responde: “Só se for para você. Me dá logo esse sorvete que estou com pressa”. Quem não é parte da solução é parte do problema. Quando eu me preparava para liberar meus demônios adormecidos, meus instintos mais primitivos, eis que surge do nada um rapazola destemido. Disse e poucos e boas para o biltre, que caiu na real e baixou a bola.
No prédio em que morei durante mais de uma década havia uma vizinha que também vivia de mal com o mundo. Tanto fez que perdeu tudo. Marido, família e os poucos amigos que ainda restaram acabaram se afastando. Sua frase predileta? “Odeio pessoas felizes”. Deve ter passado o réveillon trocando ideias com seu enorme ego. E você, amável e educado leitor, conhece alguém assim? Tratar bem o semelhante é como andar de bicicleta. Quando não se pratica desde pequeno, mais tarde fica difícil aprender.
PS* Li em “O Liberal” uma notícia alvissareira. Um Café parisiense anuncia preço diferenciado para os produtos expostos. Se o cliente iniciar o pedido com a palavra mágica – “Por Favor” – paga só a metade. Se a moda pega…

Ensaio sobre a pobreza.

23 de julho de 2009

Quando pobre come frango, um dos dois está doente”. (Barão de Itararé)

Uma vez por semana vou a Ceasa – ossos do oficio. A maioria das vezes, no final da manhã. Pra quem compra no atacado, os preços são bastante convidativos. Uma saca de limão sai por oito reais. A caixa de tomates vale vinte pilas. Um paneiro abarrotado de maracujás, quinze reais. E por aí vai. Mas a crônica de hoje não versa sobre os preços dos hortifrutigranjeiros.

No final da semana passada, estava eu pechinchando com os atacadistas, quando um sujeito mal ajambrado solicitou minha atenção. “O senhor poderia me dar uns trocados?” Meu primeiro impulso foi fazer olhos e ouvidos de mercador. Enquanto pensava o que dizer, observei-o com vagar. Deveria andar pela casa dos cinqüenta. Negro – nigérrimo – magro, ainda assim, elegante. As roupas, apesar de rôtas, estavam limpas. Ao seu lado, um carrinho de mão enferrujado. O olhar era triste, macambúzio. Um Príncipe de Ébano sem trono. Mais um dos milhões de brasileiros desempregados, sem perspectiva nenhuma de vida. Enquanto isso, um copeiro do Senado Federal ganha dez mil reais para servir cafezinho. Mais, bem mais que um médico que ralou dez anos. Um dos netos do Ribamar sangrava do erário doze mil pilas por mês. Sabem onde ele “trabalhava”? Em Barcelona. Empregados domésticos na folha de pagamento do Congresso, ganhando mais de dois dígitos. E por aí vai. Parafraseando Boris Casoy: isso é uma vergonha! Mas voltemos ao personagem da crônica. Tenho certeza absoluta que num passado remoto, distante, ele vivia satisfeito, vendia saúde, era altivo, orgulhoso, feliz… E agora, alquebrado, acometido por espasmos silicóticos, é obrigado a se humilhar pedindo esmolas. A contradição o atormenta, dilacera suas entranhas. A montanha-russa em que vive, o torna íntimo do abismo.

Desperto de minha catarse, ao receber o troco do feirante. Olho pro lado a procura dele e assisto uma cena triste, dantesca. Junto a outros desafortunados, ele recolhia alimentos esparramados pelo chão. Em pouco tempo o carrinho estava abarrotado de frutas, legumes e verduras descartados pelos feirantes. Alfaces murchas, repolhos com as folhas manchadas, bananas batidas, tomates furados, batatas brocadas… Meu Deus – quanta miséria! Um grito silencioso de Eros contra as vilanias de Tanatos.

A vida continua. Dei-lhe cinco pilas, comprando momentaneamente minha consciência cheia de culpas. Pego o carro e sigo em frente. Baratinado, acabei esquecendo de comprar as laranjas. Lá vou eu de novo pra Ceasa. Na volta, a me perseguir, o esmoler acocorado à beira da estrada. Desgraça só quer começo – já dizia Gonçalo Duarte. O pneu do carrinho de mão tinha estourado. Como ele iria carregar toda aquela comida até a sua casa? Abro o porta-malas e ajudo-o a colocar seus bregueços.

Em poucos minutos chegamos. Para minha surpresa, apesar de humilde, a casa era um mimo. Uma varandinha florida, sala, dois quartos, banheiro, uma cozinha pequenina, um quintal bem cuidado. No portão, a família e dois vira-latas famintos o esperam. Depois de retirar seus pertences do carro ele agradece e pergunta: “o doutor almoça com a gente?” Olho pro relógio – onze e meia. É…

Uma hora depois, o banquete estava servido. Um cozidão pra chefe nenhum botar defeito. Batatas, repolho, cebolas, bananas, couve, cenoura, meia dúzia de ossos de tutano, farinha baguda, pimentinha de cheiro amassada na hora…

Tem coisa melhor?

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