Ensaio sobre a amizade.

8 de julho de 2008

Uma madrugada dessas, acordei tomado de amores e saudades pelo Babalu. A grande maioria dos leitores não sabe e nem tem obrigação de saber de quem se trata. Babalu, ou melhor, Luis Roberto Coelho de Souza Meira, foi, é, e sempre será, um dos meus mais diletos amigos. Éramos tão dispares, que até hoje não sei como nos tornamos amigos.

Ele era Tricolor, eu Alvinegro. Ele curtia os Beatles, eu, os Rolings Stones. Ele era centrado, linear, contido. Eu açodado, pirado, intempestivo. Opostos que se atraiam,“O Gordo e o Magro, Pepe Legal e Babalu”… Alcunha carinhosa dada pelo Toninho Klautau.

Luis Roberto era tudo de bom. Por vezes angustiado, quase sempre brilhante, iluminado. Acima de tudo amigo. Desde a mais tenra idade, foi cobrado por tudo e por todos. Pela avó opressora, pela família, pelos mestres, pelos colegas…

Foi ele que avalizou minha primeira duplicata. Foi ele que me apresentou ao Abade, “Papai Chuí”, Cabral e as pescarias. Foi ele que quando me aperreei, me emprestou uma pequena fortuna (sem pedir garantia alguma). Foi ele que me amparou quando claudiquei. Foi ele que me consolou quando meu pai partiu. Foi ele que insistiu para criarmos o Baú – nosso alfarrábio. Foi ele que alicerçou a amizade com a Rose – sua companheira, amiga e confidente. Grande Rose. Foi ele, (sem saber) que inspirou minha primeira crônica – na tarde chuvosa e tristonha após seu sepultamento. O titulo? “Meu amigo de fé, meu irmão camarada.”

Foi ele também que atiçou minha paixão pela leitura. Estávamos na Bienal do Livro. Chegamos cheios de expectativas. Ingênuo, sugeri que compartilhássemos os livros a serem comprados. Lembro como se fosse hoje, sua réplica rascante. “Livro, revolver e mulher, não se reparte. Vamos marcar hora e local para nos encontrarmos” E assim foi.

Além da paixão pela literatura, muitas coisas nos uniam. O gosto pela aventura, a esbornia, a culinária, a família, os amigos, o Rio. E foi no Rio que curtimos inolvidáveis momentos. No Amarelinho, no Caneco 70, Lord Jim. Garimpando alfarrábios insepultos pelos sebos do centro da cidade.

Vivíamos numa eterna e saudável disputa. Se eu lhe apresentei os acepipes do “Manolo”, ele me levou ao “Adegão Português” – onde saboreei o melhor bacalhau da minha vida. Se eu lhe levei a Livraria Argumento, ele rebatia me levando a Timbre. Eu vinha de Cony,  Rubem Braga. Ele mandava Camus, Nelson Rodrigues. Não tinha, nunca teve combate.

Pra falar a verdade, jamais quis ou tentei supera-lo. Até porque era missão impossível. Nos derradeiros meses em que desfrutei de sua companhia, a saúde combalida, ia a sua casa nos finais de tarde tentando acalentar sua mente inquieta.

Não sei se foi o destino, se foi o acaso. Mas meu amigo deu seu ultimo suspiro nos meus braços. Numa segunda-feira modorrenta, encontrei seu corpo esparramado no sofá. Na mão direita, um livro entreaberto. Na esquerda, um cigarro apagado. Catatônico, deitei-o no chão frio, esmurrei seu coração inerte. Pus meus lábios trêmulos sob os seus, numa ultima e desesperada tentativa de trazê-lo de volta a vida. Tudo em vão. Deus já o tinha levado.

Hoje, é sexta-feira da paixão. Como nos velhos tempos, esperá-lo-ei na barraca do Zacarias. Aboletado em nossa mesa cativa. Pedirei uma cerveja, ½ dúzias de unhas, outro tanto de pasteis. Quem sabe um milagre acontece e ele aparece?

Se nada disso der certo, mergulharei nas águas mornas da Praia do Farol. Quem sabe elas levem pra bem longe a saudade, a dor que há dentro de mim.

Uma abençoada Páscoa.

A Repartição

8 de julho de 2008

“Repartição pública é como uma tela de Renoir. Exuberante de longe; pavorosa, quando se vê de perto.”

Um dia desses esbarrei com uma ex-colega de trabalho. Pouca gente sabe; mas o cronista já foi funcionário público. Adorei de montão receber meu primeiro salário, sala, cadeira, armário, 13? … Mas alegria de pobre dura pouco. Como tudo na vida, o emprego passageiro deixou boas e más recordações. A parte boa foi conhecer, me relacionar, fazer novos amigos, tentando entender os meandros da “burrocracia” governamental. Antes, as coisas eram mais fáceis. Depois, tudo ficou difícil. Até para apontar o lápis precisava autorização. – Égua! Tu és doido! Acabou o papel da impressora, o copo descartável. O que fazer? Uma requisição para adquirir o mesmo. O tempo? No mínimo uma semana. Como todo brasileiro, dava meu “jeitinho” pedindo emprestado na sala ao lado. Pra tudo na vida existe uma saída. Até em repartição.
Até que um dia caí doente. Um misto de virose, gota, pavor, de dar de cara com a bruxa que habita toda repartição. Sorte que ela ia quando queria, geralmente á tarde, quando eu já estava bem longe. Não fosse isso, já teria torcido o pescoço da mocréia. Se Moisés tivesse conhecido a megera que me perseguia não teria escrito um dos mandamentos: não matarás! Mas voltando a virose, acordei baleado, e na impossibilidade de ir ao trabalho, liguei para meu superior hierárquico e avisei:
 – Hoje não tenho condições de trabalhar.
 – Você vai se ausentar quantos dias?
– Sei lá! Quem pode mensurar uma virose?
– Se passar de cinco dias, você vai precisar de atestado médico.
Precavido, procurei um médico que depois de me examinar, deu-me quinze dias. No final da semana melhorei e segunda retornei serelepe ao trabalho. Pra quê…
 – O que você está fazendo aqui? Ainda faltam dez dias, vai pra casa! Assim é uma repartição.
É bom que se diga que diante das circunstâncias, fui um recordista. No meu setor teve gente que implorou para sair, teve crise nervosa… Como não puxei saco, nem aceitei cabresto, até que durei muito. Foi difícil assimilar que em repartição poucos dão “bom dia”, “muito obrigado”então… Apesar de avisado por experientes raposas felpudas, ainda no primeiro mês bati de frente com a manda-chuva do pedaço e sua puxa-saco mor. Foi um horror! Aí começou minha derrocada. Tenho todos os defeitos do mundo. Só não levo desaforo pra casa.  Deu no que deu.
Durante minha breve estadia no batente procurei dar o melhor de mim. Acordava cedo e na maioria das vezes era o primeiro a chegar. O problema era o inicio, e o final da manhã. Uma de minhas colegas de trabalho vivia, vive, de mal com o mundo, (mas para alívio geral dos que lá ainda penam, está para se aposentar). Sacam aquelas pessoas que estão sempre com TPM? Achou de pegar no meu pé. Até a respiração dela incomodava. Isso para não falar no arrastar dos pés e a voz de taquara rachada. Ligava no começo da manhã “a cobrar”, e vociferava:
– Pede para a fulana mandar meu carro. Acreditem! Além de não ter horário ainda possuía motorista privativo. É por isso que o país não vai pra frente. E eu:

 – Me larga de mão! Pega o Pedreira-Nazaré, e salta aqui na frente. Os colegas vibraram quando depois de muito penar, mandei-a pros quintos dos infernos. Foi o começo do fim. O óleo da fritura já estava pelando, como era de esperar, levei cartão vermelho. Não culpo meu algoz. Em seu lugar faria o mesmo. Entre uma puxa-saco submissa e um doidivanas pavio curto: quem escolher?
Hoje, sinto falta do salário, do cafezinho no meio do horário, e do bolão acumulado da repartição, que ainda espero vencer.
A aposta? Quando é que ela irá sorrir?

 – Me larga de mão! Pega o Pedreira-Nazaré, e salta aqui na frente. Os colegas vibraram quando depois de muito penar, mandei-a pros quintos dos infernos. Foi o começo do fim. O óleo da fritura já estava pelando, como era de esperar, levei cartão vermelho. Não culpo meu algoz. Em seu lugar faria o mesmo. Entre uma puxa-saco submissa e um doidivanas pavio curto: quem escolher?
Hoje, sinto falta do salário, do cafezinho no meio do horário, e do bolão acumulado da repartição, que ainda espero vencer.
A aposta? Quando é que ela irá sorrir?