Quarta-feira 13.

29 de agosto de 2008

Existem dias que deviam ser descartados, não servem pra nada. Sabe aqueles dias em que nada de bom acontece? Dias em que o time joga tudo, mete quatro bolas na trave e perde com um gol de mão aos 48 do segundo tempo. Dias em que você chega do trabalho, caindo pelas tabelas, e a mulher, nos píncaros da TPM, cisma em te aporrinhar. A filha briga com o namorado e desconta na gente. Sabe aqueles dias em que você procura os óculos, a chave do carro, a chinela, o aparelho de barbear, e não encontra? Dias em que você acorda feliz da vida e é obrigado aturar o inimigo figadal, ouvir as falácias sibilinas do genro, as potocas e chatices de um bebum anônimo Dias em que cortam nossa luz, o cheque polpudo volta, o médico faz forfait…  Pois é.

Foi num desses dias sombrios, aziagos, em que nada dá certo, que o cronista apreendeu a valorizar os pequenos prazeres da vida, aceitar as mazelas que sempre irão acontecer. Ao chegar à livraria, uma leva de más noticias: o ar refrigerado pifou, a internet não entra, a privada entupiu, Emily, minha dileta secretaria deixou um bilhete, dizendo que passou no concurso da Caixa (implícito que não volta). Não bastasse tudo isso – acreditem – um passarinho Kamicase, deu uma rasante e batizou minha cabeça com um torpedo fenomenal. Égua da momó!

Aporrinhado, invejei o Mashico (para quem, aliás, o amigo João Carlos Pereira já escreveu uma crônica. Trata-se de um pirado que perambula, acendendo fósforos pela cidade). Segundo ele, a vida é fácil. Somos nós que a complicamos. Conferi o relógio: 8h30. Quarta-feira, 13.  O dia mal começou e os pepinos se acumulam. O que mais há de acontecer? 

Apesar de nunca ter cultivado superstições, sou obrigado a acreditar nas premissas pessimistas da Lei de Murphy (querendo ou não, quando a torrada cair no chão é quase certo que o lado é o da manteiga) Pensem nisso. Conformado, resolvi esfriar a cabeça. Primeiramente, fui ao caixa eletrônico verificar o saldo. Ufa! Ainda bem. Tudo nos trinques. Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca termine. Ao lado, um desconhecido gesticulava aborrecido. “Meu saldo está negativo”. E eu com isso. Próxima parada – Extrafarma. Remédios. Fazer o quê? Pra rinite, colesterol, coração. Quando engatei a primeira marcha, ouvi um estrondo. Um motora desavisado abalroou a traseira de outro veículo. Minha fubica estava a centímetros dele. Por pouco muito pouco mesmo, não fui atingido.  Pensei com meus botões: a bruxa está solta.

Desliguei o celular, descartei o relógio. O que iria acontecer? A família, os amigos, os funcionários, os credores sentirão minha ausência? Sejam pacientes – a resposta vos aguarda no final da crônica.

Entrei no carro e saí sem rumo. Entrei numa locadora e aluguei “A Felicidade não se compra”. Feito isso, entrei numa igreja e orei por mim, por todos nós. Travestido de turista, admirei as obras do Museu do Estado, de Arte Sacra, as obras inacabadas da Igreja da Sé, as ruínas do Instituto Histórico e Geográfico. Aborrecido, cara de poucos amigos, fiz um providencial pitstop numa barraquinha, onde sorvi sequioso um coco gelado, troquei dois dedos de prosa com seu Juvenal (simpático vendedor) que me fez um breve relato de sua vida. Sem chorumes (apesar da vista turva, das mazelas que o destino lhe reservou) sem saber, deu-me inequívoca lição.

– Veja bem, doutor.Todos os dias, as cinco em ponto estou de pé. Minha mulher tirou o time. Meu filho caçula enveredou pelo crime e deixou três bacuris pra eu criar. Depois disso, larguei a bebida e continuo lutando. E o senhor: tá mofino por quê?

 

cronista9@hotmail.com

Viajar é preciso.

21 de agosto de 2008

Ao apagar das luzes do mês de julho, me vi obrigado a engolir um mala sem alça. Sabem aquele sujeito que se apraz, aporrinhando seu semelhante? Pois é. Imprensado na fila de um supermercado, não tive como escapar. Puxando assunto, ele perguntou:
– Você não vai viajar?
– Não. Aproveitarei para ler, escrever, arrumar minhas tralhas.
– Que programa insosso. Estou indo pra China.
Me deu vontade de mandá-lo pra Cochabamba. China, na antevéspera de uma Olimpíada? Que eu saiba, ele mal fala o português. Mandarim, então, nem pensar… Será que ele sabe o que lhe espera do outro lado do planeta? Carne de cachorro, macaco guisado, gafanhoto torrado? Fechei os olhos e visualizei a cena. Ele e uma leva ensandecida de turistas, à bordo de uma excursão mambembe, galgando as íngremes e tortuosas muralhas chinesas. Vai que é tua, Taffarel.
Ao contrário da maioria, prefiro viajar sem lenço e sem documento. Tal qual meu velho e amado pai. Belém-Brasília sem asfalto, à bordo de uma Vemaguete três cilindros. Hospedarias desestreladas, quarto comunitário, prato feito, banheiro no quintal. Querem saber a verdade? Apesar dos pesares, foi o maior barato! Do mesmo jeito e maneira conheci o Nordeste, o litoral paulista, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul. Que saudade de Bento Gonçalves, Caxias do Sul, a festa da uva, os chocolates de Gramado, Canela.
Bom mesmo é botar o pé na estrada, trocar pneu, comer numa espelunca, dormir numa biboca, conhecer vilarejos, trocar idéias com os moradores. Qual é a graça de viajar na viagem dos outros? Acreditem: tem um montão de gente que só viaja desse jeito.
Quando vejo as colunas sociais anunciando os périplos dos novos-ricos, fico penalizado. Depois não sabem por que o fisco cai de pau em cima deles. Queriam o quê? Fulano comprou uma lancha de 200 pés, uma Mercedes de 12 cilindros, passou o “revèillon” em Monte Carlo (olha o Caciolla). Será que nunca ouviram falar sobre sinais aparentes de riqueza? Milionário que se preza não faz isso. Vocês já viram alguém noticiar a viagem de Antonio Ermírio de Morais, Eike Batista, Bené Mutran? Novo rico é flórida! Adora aparecer.
Um dia desses, li no jornal uma nota hilária. Como é que existem pessoas que têm a cara de pau de pagar pra serem notícia? “Fulano de tal foi convidado (e aceitou) participar de um Congresso em Bali.” Desde quando alguém é convidado pra congresso? Que eu saiba, só doutores, ex-ministros são convidados a ministrar palestras pelo Brasil e o exterior. A arraia miúda paga a inscrição, parcela a passagem, a hospedagem, assiste à palestra inicial. Como pinto no lixo, se esbalda, saca fotos, recebe o certificado (depois emoldura), compra souvenir, volta pra casa devendo os tubos e não apreende lhufas.
No instante em que botam o pé em Belém, reúnem a patuléia, distribuem a larga brindes de 1.99, contam vantagens. “Bali é sensacional!”. Como a maioria dos puxa-sacos nunca ouviu falar, nem imagina onde fica, aplaude e engole as potocas. Vocês conhecem alguém assim?
Para aqueles que almejam seus quinze minutos de fama, uma dica de suma importância: escolham um local inóspito, tipo Cazaquistão, Alasca, Madagascar… E não esqueçam: Antes de viajar, contratem um assessor de imprensa sedento de chem. Pra quem não sabe, chem é sinônimo de propina, ponta. Mas uma coisa. Tirem fotos. Feito isso, é só aguardar.
Por essas e por outras, prefiro ficar na minha. Quando o sufoco passar, quando a patuléia retornar, (da China, Mikonos, e coisa tal) sigo na contramão e vou pro sal. Cerveja gelada, peixe barato, caranguejo graúdo, estrada, praia vazia. Sem algazarra, bafômetro…
cronista9@hotmail.com

Ensaio sobre o passado

14 de agosto de 2008

O retrato que eu te dei / Se ainda tens não sei/ Mas se tiver, devolva-me…” (Leno e Lílian)

 

 Se um Oficial de Justiça quiser me intimar, se um credor quiser me cobrar, se um desafeto quiser tirar satisfação, não encontrarão a menor dificuldade. Faça chuva ou faça sol, todos os finais de tarde, tal qual um pássaro migrante, o cronista retorna pro aconchego do ninho. Como de costume, toma uma chuveirada gelada, veste a bermuda surrada, prepara uma generosa dose de malte, um tira-gosto esperto, coloca um vinil na vitrola. Feito isso – dá uma de Bilac – perde o senso, ouvindo estrelas.

Anteontem, sem que nem porque, quebrou a rotina ao amesendar-me com o leptop. Pra quê?

 Ao abrir a caixa de mensagens, foi surpreendido pela missiva duma antiga colega do Colégio “Andrews” (tempo em que o cronista morava no Rio). Dizia mais ou menos assim: “Li uma crônica hilária (Um Durango na Daslu), replicada à exaustão na Internet. O autor era tal de Denis Cavalcante. É aquele mesmo Denis? Eu sou a Sheila. Estudamos Latim, Literatura, Geografia na sua casa, na “Marquês de Olinda”. Você foi pro norte né?  Lembra de mim?” 

Apesar das décadas passadas, minha memória permanece intacta. É lógico que eu lembro da Sheila. Como esquecê-la? Cabelos encaracolados, lábios carnudos, coxas roliças, mãos de fada, colo farto, voluntariosa. Rosto de menina, corpo de mulher. Uma mina, um pitéu. Era assim que se nominavam as gatas naquele tempo. Me deu uma saudade… Saudade dos folguedos, das brincadeiras, das escapadas até a Sears – o primeiro shoping, a primeira escada rolante do Rio de Janeiro. Como esquecer os voleios, as fintas durante as aulas de Botânica, ministradas no Parque Laje, no Jardim Botânico? O rala-e-rola sob os caramanchões floridos, a queda desastrada, o joelho ralado, a monitora passando o ardido merthiolate, e Sheila assoprando, tentando minimizar minha dor.

 Foi com ela que curti o primeiro por do sol na Enseada de Botafogo. Foi com ela que contei as estrelas do céu, foi com ela a primeira rusga no recreio – o motivo? Já nem sei. Foi  ela que me concedeu o primeiro beijo, furtado no banco da Praia Vermelha. Foi com ela que assisti, uma pá de vezes, (no escurinho do cinema Azteca) ao “Menino de Engenho”. Inocente, contrito, apaixonado, tal qual o protagonista da película. Foi com ela que arquitetei planos impossíveis. Fugir de casa, seqüestrá-la para Teresópolis. E agora, quando a memória esmaecia, Sheila reaparece, desenterrando fantasmas insepultos.

Relembrei a dor do namoro que nunca existiu, que só aconteceu nas minhas fantasias. E o pior de tudo: quando a flagrei debaixo da escada, flertando com um anônimo. Naquele dia, meu mundo caiu. É – cara, colega – revelo-te agora em primeiríssima mão. Eras, fostes tudo, ou quase tudo, pra mim. Orgulhoso, magoado, engoli o choro. Tal qual um Mustang, galopei pra casa. Só aí entreguei os pontos.

– Mãe! Quero morrer!

Tudo isso me veio à mente, ao ler a mensagem da Sheila. Será que ela sabia disso? Creio que não. Garotas sempre fizeram, sempre farão gato e sapato conosco. Contudo, o tempo é cruel, crudelíssimo. Hoje, minha musa jaz solitária, remoendo saudades, confinada em seu exíguo apê, em Laranjeiras, é refém da matilha preguiçosa de siameses, do controle remoto, dos netos, das recordações.

Por todos os motivos acima citados, achei por bem não estender nosso papo virtual. Pra quê? Sheila faz parte de um passado irretornável. Melhor guardá-lo numa caixa hermeticamente fechada. Após tanto tempo, eu, ela, todos nós, jamais seremos os mesmos. O que passou, passou.

cronista9@hotmail.com