Ao Mestre com carinho

18 de setembro de 2008

“Quem ensina, mas não pratica o que apreendeu; se parece com quem semeia, mas nunca colheu.”

Lá se vão sabem-se lá quantos anos… Não importa. A verdade é que, durante todo esse tempo, nunca me esqueci, me desvinculei dele. Quando cheguei a Belém, meu pai me matriculou no Colégio Moderno. Dentre todos os notáveis mestres, (a competente Marlene, Josefina e seus logaritmos, Geraldo e seu aplomb, Serra e suas fórmulas), foram as suas aulas que mais me encantaram. Eram libelos, obras primas de retórica. Suas armas eram simplórias, espartanas: um livro, um toco de giz, a lousa limpa, a didática, perspicácia e conhecimento. Naquele tempo, não havia data-show, slides, caneta laser, apostilas…

Ao contrário da maioria, se impunha pela sobriedade, pela sutileza, pela simpatia… Graças a sua notável metodologia, toda uma geração aprendeu (sem decorar) os principais eventos da historia do Brasil e do mundo. Capitanias Hereditárias, Governos Gerais, Independência, Império, Republica. Acaso tivesse feito vestibular para História, passaria com folga.

Tal qual um relógio suíço, entrava na sala, efetuava a chamada, desabotoava o paletó e fazia o que tinha que ser feito: ensinava. E como! Não tenho certeza, mas acho que ele nutria alguma estima por mim. Durante os três anos em que estive sob sua batuta, era eu que lia o ponto. Quiçá por sentar na frente, quem sabe pela voz baritonal… Como saber? Fato é que, as melhores notas do meu modesto currículo escolar, aconteceram em sua cátedra. Ate hoje não sei se ele era um magistrado que lecionava, ou um professor que magistrava.

Anos depois, o destino nos uniu novamente. Batendo pernas pelo Rio, reencontrei-o na “Barata Ribeiro”. Trocamos endereços, telefones, seguimos nosso caminho. Mais adiante, tornei-me colega de faculdade de sua filha. O mundo é cheio de coincidências.

Larguei a faculdade, me casei, me fiz livreiro. Um belo dia recebi uma ligação. Alguém estava interessado em vender antigos alfarrábios. Ao chegar a aprazível residência fiquei sabendo o motivo: de muda para o Rio, o proprietário se viu obrigado a se desfazer de parte de seu valioso acervo. Adivinhem que era?

Tempos depois, nos esbarramos na Feira Pan-Amazônica do Livro. Mais uma surpresa. O juiz, pai, esposo, leitor, professor dedicado, ainda arrumou tempo para escrever, historiar. Depois disso, tornamo-nos unha e carne. Sempre que vinha a Belém, ele me ligava e fazia um pitstop no Baú.

Essa semana, na surdina, ele reapareceu. Como eu não estava presente, achou por bem garimpar as prateleiras. Concomitantemente, esbarrou numa igual, que também procurava um raro e importante exemplar: “A chave da felicidade”. Segundo ela, esse livro deu outro sentido a sua existência. Uma estranha simbiose os uniu. Enquanto caçavam o livro, ela contou sua historia.

– Quando eu era adolescente, sofri uma perda irreparável, com a súbita morte de meu pai. Estressada, meu corpo foi tomado por chagas horrendas. Tal qual uma leprosa, todos se afastaram de mim. Era vitiligo. Poucos, muito poucos, me trataram com carinho, me acolheram sem preconceito. Dentre eles, um jovem professor de História, do qual não me recordo o nome.

Quarenta e tantos anos depois, ele revelou:

– Aquele jovem idealista sou eu. Muito prazer. Carlos Mendonça a seu dispor.

Hoje não é o dia do Professor. Mas antes que esse fato esmaeça, passe em brancas nuvens, senti-me obrigado a contá-la. Carlos Mendonça é um ser em extinção. Seu lema? Mestre não é quem ensina, mas aquele que de repente, apreende.

PS* Hoje começa a XII Feira Pan-Amazônica do Livro – vamos todos pro Hangar!

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Eduardo e Mônica

18 de setembro de 2008

Aconteceu num final de tarde qualquer. Como de costume, amesendei-me no boteco. Mordisco um amendoim, beberico com vagar o malte, ouço os acordes do Cássio, rumino prazeroso minha solidão. Tem coisa melhor?

De repente, não mais que de repente, um rapagaz adentra no boteco. Aboleta-se no balcão e pede um chope. Acende um cigarro, pega o celular e liga insistente. Do outro lado da linha, ninguém atende. Agoniado, confere as horas. Penso com meus botões: já vi isso antes.

Após ligações infrutíferas, ele se vira para mim e puxa assunto: ‘O senhor vem sempre aqui? Marquei com uma garota e ela não apareceu até agora. Posso lhe fazer companhia?’ Dito isso, pegou a caneca de chope e se aboletou na minha mesa. Verborrágico, revelou que a garota esperada era louca por ele, assediava-o dia e noite… Essas coisas. Quem freqüenta com alguma assiduidade mesas de bar, está acostumado a ouvir todo tipo de revelações, confidências… Mentiras também. Quem duvidar que indague ao Antonio – discreto e perspicaz barman do Cosanostra.

Seis ou sete chopes, outro tanto de cigarros, um pratarraz de amendoim, ele perde a paciência: ‘Vou-me embora; ela não me merece!’ Dito isso, sem que nem por que, indaga pelo meu estado civil. Ao saber que o cronista estava algemado há três décadas, resolveu dar uma de machão. E o pior, dar-me lição de moral: ‘Faça como eu: mulher a gente traz com rédea curta.’

Em outra época, concordaria em gênero, número e grau. Mas agora, sabendo tudo que sei, passando tudo por que passei… Afinal de contas, quem já não perdeu o senso esperando um telefonema que nunca aconteceu? Quem nunca perdeu noites e madrugadas intermináveis, aguardando a mulher amada? Veio-me à mente uma frase lapidar: ‘Conquistar é surpreender sem assustar’. E haja chope, cigarros, lamentos.

Lá pelas seis, apesar dos meus esforços, ele perdeu o tino. ‘Se ela aparecer, vou deixá-la falando sozinha, fingirei que não a conheço! Nunca mais quero vê-la!’ Foi ele proferir essas e outras promessas incumpríveis e a gazela desgarrada aparece. Senhora de si, vestido estampado, óculos nos cabelos nigérrimos, perfumadíssima, covinha no rosto, sorriso de piano… Uau! Desconcertado, ele levanta, oscula-lhe uma das faces, oferece a cadeira e me apresenta: ‘Esse senhor é o seu Denis. Acabei de chegar. Como ele estava sozinho, resolvi lhe fazer companhia.’ Que boa bisca!

Como estava na minha hora, achei por bem aquiescer. Apesar de jovem, a pequena era ladina. Quando o namorado foi ao banheiro, ela mandou ver.

– Já que o senhor parece saber quase tudo, então digue lá: Tá na hora da gente se casar?

– Sei lá! Acabei de conhecer vocês! Mas se vocês se amam de verdade, joguem tudo pra cima, deixem de lado as diferenças, as dúvidas, embarquem, entreguem-se sem reservas. O amanhã, o depois, são outros quinhentos. Mas por favor, em momento algum fiquem juntos por imposições familiares, pecuniárias, conveniências. Relações que iniciam assim estão inexoravelmente fadadas ao infortúnio.

– Pecuniárias, fadadas, infortúnio, inexoravelmente? O senhor fala difícil…

Fui embora e nunca mais os vi.

Um dia desses – ao chegar em casa, o porteiro me entregou um convite. Confiro o nome e endereço dos nubentes, dos pais… E não consigo atinar de onde os conheço. Grampeado no envelope, uma singela e reveladora mensagem. ‘Fazemos questão de sua presença. Aquele final de tarde no boteco foi um divisor de águas. Quando o senhor saiu, ele me pediu em casamento. Obrigado por tudo, padrinho. Um beijo carinhoso da Mônica, e do Eduardo também.’

Conta Comigo

5 de setembro de 2008

‘O melhor momento das pessoas é quando elas estão descendo. No topo, todos são iguais’ (Jorge Guinle)

Quem não me conhece, talvez ache que o cronista vive no mundo da lua. Quiçá venda a imagem de alguém alienado, despreocupado… Não é bem assim. Às vezes fico pê da vida por não ter nascido em berço esplêndido, não ter herdado fortunas, não ter me locupletado durante minha apoteótica passagem pela vida pública. Paciência. Apenas deixei a vida me levar.

Hoje, a caminho da terceira idade, me vi numa situação inusitada. Cronista circunstancial, livreiro e leitor por opção, hedonista por convicção, quis o destino levar-me a imortalidade. Ao ingressar na APL (Academia Paraense de Letras), vesti a camisa. Como nossa confraria não dispõe de numerário suficiente para sustentar-se, eventualmente, (quase sempre) somos obrigados a passar o prato, pedir favores, esmolas… É um absurdo!

Sendo um dos mais novos acadêmicos, coube a mim a difícil tarefa de amealhar fundos. Tudo bem. Fui à luta. Procurei empresários, mecenas, pessoas que, no anonimato têm prazer em ajudar sem exigir nada em troco. Esgotada a fonte, procurei órgãos públicos, políticos. Foi aí que descobri o lado ruim da coisa.

Ingênuo, imaginei que todos teriam prazer em doar. Ledo e abominável engano. Esqueci que vivemos no Brasil. Aqui, os políticos destinam suas emendas beneficiando ONGS, Fundações fantasmas. Os milionários morrem e são enterrados com seus bens, suas fortunas, mesmo sabendo que deixarão todos os herdeiros insatisfeitos com o quinhão recebido. Melhor na Europa, na América. Lá, os biliardários deixam tostões pra família. Os bilhões, as obras de arte vão para fundações, museus, beneficências. Tergiversei. O assunto era, é a arrecadação de fundos para a APL.

Se a primeira etapa foi um sufoco, imaginem o que veio depois. Cheio de boas intenções, procurei um velho conhecido, coincidentemente, filho de um apeado ao poder. A duras penas, consegui o celular da autoridade e liguei incontinenti. Quem disse que ele atendeu? Retornei insistentemente até que um anônimo disse que ele só atendia número binado. ‘Então liga do teu’. Ele ligou.

– Bom Dia! Sou o fulano, amigo do teu pai, te coloquei no colo. Gostaria de trocar umas idéias sobre educação, cultura…

Nem deu tempo de concluir meu raciocínio.

– Faz o seguinte. Vem aqui amanhã a tarde.

Na hora combinada, lá estava eu. Fui recebido por um assessor que me avaliou de cima abaixo. Conferiu o pisante, a calça sem marca, a camisa comprada na Makel, o cabelo grisalho… Pau mandado é mil vezes pior que o superior. Explica-se. O cara quer, precisa mostrar serviço, têm a obrigação de triar as pessoas que procuram seu chefe.

– Qual é o assunto que o traz aqui, quem é o senhor, seu partido é coligado, ele lhe conhece?

– Na verdade, ele estudou comigo…

– O senhor não tem audiência marcada? Então aguarde

Manda que não sabe, obedece quem não tem juízo. Tomei um chá de cadeira infernal! Nem o bíblico Jó, suportaria tal provação. Após ingerir uma dúzia de copos de água, outro tanto de cafeína, perdi a paciência e tirei o time.

Tudo que sobe desce. Tempos depois, reencontrei meu algoz. Que diferença. Humilde, solícito e desempregado. Desapeado do poder, DAS zerado…

– Meu poeta, tudo em cima? Leio tua coluna todo domingo. Conto com teu voto. Quando nosso guia for eleito, liberaremos a verba pra Academia.

Porque será que eles adoram se expressar no plural?

Pensei mas não disse. Não sou poeta. Não tenho coluna. Nunca escrevi aos domingos, jamais votarei em ti…