Coisas de casal

23 de outubro de 2008

“Amar é mudar a alma de casa” (Mario Quintana)

Um sábado desses fui a um casamento. Diga-se de passagem, um senhor casamento. Igreja lotada, recepção do arromba. Casamentos pictóricos são pra família, pros convidados. Quem casa quer sossego, lua de mel. Ao vê-los no altar, trêmulos, enlevados, sonhadores, voltei no tempo. Casar é bom, muito bom. Sobretudo quando estamos apaixonados.

Como de costume, o sacerdote dissertou sobre fidelidade, compreensão, amor, renuncia… Na prática, a teoria é diferente. Com o passar dos anos, a relação se deteriora, as coisas mudam de figura… Mas não sejamos pessimistas.

E pensar que um dia desses eles brincavam de roda. O tempo passa. Semana passada fiquei sabendo que eles andam às turras, estão prestes a se separar. O que deu errado? De quem é culpa? Tem gente que se casa para não ficar sozinho. Poucos, muito poucos, estão preparados para conviver debaixo do mesmo teto. E olha que hoje é muito fácil. TV a cabo em cada cômodo, controle remoto. Cada um tem seu carro, closet, computador, celular… Os mais abonados, quartos, banheiros, vidas separadas.

A verdade é que não existe fórmula pra ser feliz. Casamento é loteria. Tem gente que casa por conveniência. Como tergiversou Leon Tolstoi “As famílias felizes são todas iguais. As infelizes; são infelizes cada uma à sua maneira”. Quem sabe ele prevaricou, labutou em demasia, varou noites jogando bilhar, bebericando com os amigos, não deu à devida atenção a mulher amada. Quiçá ela tenha assistido novelas, banhado-se horas e horas a fio, dando trela as intrigas das amigas, devorado livros de auto-ajuda, navegado pela Internet… E nada dele chegar. Como saber?

Mas voltemos ao mote da crônica de hoje. O destino colocou no meu caminho o moço em questão. Em meio a uma roda animada, tal qual pinto no lixo, exultava, esbanjava a fugaz solteirice. Pensei com meus botões: nessas horas, ninguém nos convida para um programa salutar: uma missa, uma livraria, uma exposição… Por que será? Ao me ver chegar, abriu os braços e disse em tom de chacota: ‘Eis aqui um ser em extinção. Casado há séculos!Que conselho você me dá?”

Macaco velho do rabo pelado, me fechei em copas. Naquele instante, qualquer coisa que eu dissesse seria em vão. Eu já vi – vocês também – o trailer desse filme. Sorvi meu malte com vagar e fiquei na minha. Vez ou outra ele olhava dissimulado pro relógio, pro celular (cacoete típico de homem casado) a espera de um milagre. Lá pelas tantas, capitulou. “Estou sem carro, você poderia me levar pra casa?” Na frente do boteco, ululante, um ponto de táxi. Tava na cara que ele não tava a fim de condução, queria um ombro amigo. No meio do caminho, entregou os pontos. A mulher não para em casa, não atende minhas ligações, não ta nem aí pra mim… “ Chorou, como chorou. Chorar faz bem.

Cansado da esbórnia, da comida de restaurante, saudoso da costela da mulher, do aconchego dos filhos. Vai pra casa Padilha! “Mas se ela não me receber?” Se restar uma centelha do amor contido no olhar no dia em que vocês se casaram… De qualquer maneira, vou esperar cinco minutos. Se você não retornar é sinal que deu tudo certo. E deu!

Casamento que não resiste a uma desavença, a uma rusga, às amizades contraídas anteriormente está inapelavelmente fadado ao infortúnio. E tem mais: quem não sabe curtir a solidão, quem não aceita as idiossincrasias do outro – que trate de ficar solteiro.

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Balanço eleitoral

18 de outubro de 2008

O eleitor, obrigatoriamente, tem que ser qualificado. O candidato, não.” (Max Nunes)

Em meados do ano passado, manifestei minha intenção em concorrer à vereança. Cabreiro, escrevinhei uma crônica a fim de sondar minhas chances. Baseado nos inúmeros e-mails recebidos obtive um simulacro sobre minhas reais possibilidades. Fiz minhas contas e achei por bem abdicar. Como disse o vetusto Ulisses Guimarães – “sou velho, mas não sou velhaco”. Mas o que mais pesou em minha decisão, foi a opinião dos amigos – os de verdade – e os “mui amigos”.

Agora, passado a ressaca eleitoral, posso revelar o que aprendi sobre os bastidores da política. Neófito, sondei raposas felpudas. Um deles (batido fragorosamente no pleito anterior) foi incisivo:

– Não conte com meu apoio, nem com meu voto. Estou fazendo campanha pro fulano. Não te mete!

Uau!

Um outro saiu pela tangente:

– Sacumé. Tu és muito velho, não tens posses, traquejo, jogo de cintura…

Como diria o menestrel Fabio Junior – Brigadooo!

Um empresário buiado, também me desestimulou. Mas Denis, vais precisar de muita grana… Posso te emprestar duduca. “Emprestar, duduca?” Pera lá! Isso não dá nem pro santinho. Um outro (após muitas doses no boteco) me propôs uma cabotinagem. “Também sou candidato. Teu curral eleitoral é o mesmo que o meu. Meu candidato a prefeito tá nas cabeceiras. Já tenho perto de seis mil votos. Vai escrever que é tua praia. Quando eu tomar posse te garanto um DAS polpudo.

Tá cheiroso…

Minha derradeira desdita aconteceu num convescote social. Um amigão (do peito) desdenhou minha candidatura dizendo:

– Sou cabo eleitoral de um senhor vereador. Tu não tens nenhuma chance. Ele se reelegerá com os dois pés nas costas. (adoro o verbo empregado no futuro)

Vocês hão de convir – amáveis leitores – no jargão turfístico, o cronista era um pangaré, um temerário azarão concorrendo contra puros-sangues. Pensem bem. Quinze segundos no radio e na teve pra dizer que faria o possível para estimular a leitura, a cultura, a educação. Passou pela minha cabeça copiar o finado Enéas e urrar: Meu nome é Denis!

O mundo dá muitas voltas. Todos os candidatos acima citados gastaram ô que tinham e não tinham, e entraram (literalmente) pelo cano. O “quase” eleito teve menos de trezentos votos. O favoritíssimo à reeleição, nem na suplência ficou. Em janeiro, meu “mui amigo” e sua trupe de asponeis (assessores de porcaria nenhuma), estarão desempregados. Quanto mais um sujeito se acha importante, mais fácil tomar o seu lugar. Os candidatos apoiados pelo big-shot (aquele que me ofereceu uma merreca) tiveram a mesma sorte.

Deus escreve certo por linhas tortas. Contudo, toda regra tem excessão. Vejam só o caso do Vereador- Cobrador. Sem grana, sem experiência, foi eleito. Tomara que não entre no esquema.

As derrotas nos fazem aprender. Entre nós, Lula bateu na trave quatro vezes. Mitterrand idem. Desculpem as elucubrações de um contumaz perdedor. Apesar de fragorosamente batidos, todos eles estavam certíssimos. Minha praia não é essa.

As favas o salário, as benesses, os assessores que os Edis belenenses têm direito.

Não tô nem aí. Ou como disse o bardo Valéry – “Les événements m’ennuient”. Os acontecimentos me entediam. Pra sair do tédio, ouço My Sueet Lord enquanto dou os últimos retoques na janta da família. Feito isso, me aboletarei na rede e lerei as memórias do Aurélio do Carmo.

No segundo turno, vou votar no Gabeira.

Um programa diferente.

9 de outubro de 2008

Semana passada minha fubica resolveu me deixar na mão. E olha que ele havia acabado de sair de uma minuciosa revisão. Pneus calibrados, velas, pastilhas de freio, filtros, óleos, fluidos trocados. Vá se entender. E o pior de tudo: chovia a cântaros e eu estava longe, bem longe de casa. Sem seguro, sem reboque, sem celular (furtado no mesmíssimo dia). Estacionei no meio fio e procurei em vão um táxi. Neca-neca. Nessas horas sou obrigado a acreditar nas premissas pessimistas da Lei de Murphy. Ando meia quadra e encontro um providencial ponto de ônibus.

Desorientado, indago a um ambulante qual me levará próximo de casa. Momentos depois ele chega. Lotadéssimo. Fazer o que… Enfio o relógio no bolso, a carteira debaixo da camisa e embarco em meio à turba ensandecida. Lá pelas tantas, um lugar se apresenta. Ao me acomodar me lembrei de uma frase lapidar de Gogol – “O trem é o melhor lugar para meditarmos” Quem não tem trem, caça de ônibus. Diante de mim, através da janela embaçada, a tarde esmaecia.

Abro a bolsa e retiro caneta e uma folha de papel. Quem sabe esse passeio forçado não fornece material para uma crônica? À minha frente, uma mulher mastiga uma bolacha. Ao meu lado, um escolar envia uma mensagem pelo celular. O cobrador conta a féria. Açodado, o motorista porfia com sua sombra. Ninguém me nota – sou mais um na multidão.

Esqueci de contar: era uma sexta-feira, a mulher viajando, os filhos curtindo a deles e eu enfurnada num ônibus. Elocubrava essas e outras quando dois sujeitos sentam ao lado. Égua da algazarra. Desnecessário dizer que não escrevi uma linha sequer. Impossível não escutar o que eles diziam:

– A cerveja, a carne de sol, a caranga nos espera.

E eu salivando. A inveja é uma droga!

Nesse ínterim, o veiculo engasga e para de súbito. Acreditem. Tal qual minha fubica, o ônibus também deu prego. Foi aquele escarcéu, um Deus nos acuda. Sai todo mundo a espera do substituto. Ao contrario de quase todos os ocupantes (inclusive eu), meus colegas de infortúnio não estavam nem aí.

– Vamos rachar uma Van!

Falaram isso olhando pra mim. Peguei corda e topei rapidola. É bom que se diga que estávamos no meio da Duque de Caxias. Numa das vicinais da Avenida, eles me fizeram um convite irrecusável:

– E aí velho. Vamo tomar uma no “Dedão”?

Mas rapaz… E ainda tem gente que duvida das coisas que acontecem comigo. E o pior é que acontecem mesmo! Será que tenho imaginação Julioverniana?

Entramos no “Dedão” (um pé sujo de responsa) e mandamos ver. Como abomino cerveja e não havia minha bebida predileta, mandei ver uma cuba esperta. Gente simples é outra coisa. Trataram-me como um irmão. E haja tira-gosto: charque acebolado, peixe frito, carne de sol, caranguejo, pimenta… Só aí fiquei sabendo o porquê do nome do boteco – Dedão. É que o garçom levava os acepipes com o dedão enfiado no prato.

Após ene Cubas, me despedi e tirei o time. Há muito tempo o cronista não fazia um programa diferente. Corajoso, pensei com meus botões: pra que fazer somente o que os outros esperam de nós?

Molhado até os ossos, ligeiramente cossado, enfim cheguei em casa. O porteiro demora a me reconhecer. Entro no elevador afrouxando o cinto, desabotoando a camisa, tirando o cadarço da chulipa, torcendo para não encontrar ninguém. Quem disse?

Ao abrir a porta do elevador, dou de cara com um vizinho vestido de Nike da cabeça aos pés.

– E aí Denis – vamos malhar?

Pra quem gosta de ler

3 de outubro de 2008

Quem me conhece, sabe que aguardo ansioso, conto os meses, os dias para a chegada do terceiro evento literário do Brasil: a Feira Pan-Amazônica do Livro. Amo de paixão o burburinho, os estandes repletos de livros, os corredores congestionados, as palestras, os colóquios, a vinda de escritores renomados, a garotada ululante, tomando de roldão o Hangar, sequiosa de novidades, sedenta de conhecimento que só os livros podem proporcionar.

Este ano não foi diferente. Apesar da concorrência desleal da globalização, da Net, do Google e seu imediatismo, os livros (graças a Deus!) teimam em permanecer atualíssimos. A prova cabal do que vos digo é afluência maciça dos visitantes. Apesar dos pessimistas de plantão, dos secadores, das aves agourentas, no domingo passado mais de 35.000 pessoas passaram pelas catracas do Hangar. Graças ao evento, pude reencontrar meu amigo e confrade Pedro Roumié. Conhecer, trocar idéias com o notável e mordaz escritor ludovicense Joaquim Campelo, radicado há tempos em Brasília. Como disse o filosofo Rousseau: ‘o livro é e sempre será nosso melhor companheiro’ Ouso acrescentar: bibliotecas, livrarias e eventos dessa natureza, também. Afinal de contas, em que lugar o leitor anônimo tem a oportunidade de se deleitar, ver de perto, ouvir, debater com ícones da magnitude de Walcyr Monteiro, Nélida Piñon (a primeira mulher a presidir a ABL), Marina Colasanti, Affonso Romano de Sant’Anna e Ariano Suassuna, um dos personagens da crônica de hoje.

E foi ele, sem saber, que me proporcionou momentos inolvidáveis numa segunda modorrenta, insossa, sem perspectivas. Após dois longos anos, reencontrei o mestre. Não mudou nada. Sorridente, esbanjando saúde, solícito, atencioso. Detentor de uma memória privilegiada. Como eu sei? Olhou pro meu crachá, (que estava virado) e disse: ‘Denis Cavalcante, o cicerone dos escritores que aqui aportam. Luís Fernando Veríssimo e Zuenir Ventura falaram de ti’. Tem coisa melhor?

Nos aboletamos no sofá e haja conversa. Fiquei surpreso ao saber que ele estudou (quase na mesma época) no mesmo local que meu velho pai – Colégio Americano Batista de Recife. Torceram pelo mesmo time, quiçá bateram pernas pelos mesmos corredores soturnos… A vida é cheia de coincidências. Junto a nós, sua mulher, Bela Josef e Bob Menezes. Vez em quando, éramos interrompidos pela tietagem explícita dos fãs, à cata de autógrafos, fotos, afagos. Impávido, ele atendeu a todos. De repente, não mais que de repente, meu tempo se esgotou. Era chegada a hora da palestra. Apalermado, procurei um lugar no auditório repleto – me ferrei! Paciência. Encostei meu corpo cansado numa das paredes e sorvi com sofreguidão suas pertinazes colocações, a verve inconteste, as tiradas impagáveis, a fina ironia…

Tudo que é bom dura pouco. Quando me dei conta, a palestra havia acabado. Enquanto esperava a turba ensandecida se dissolver, fiquei matutando. Qual o segredo desse homem? Amante inconteste dos livros, defensor ferrenho de nossa soberania, solitário cavaleiro a vergastar os corruptos, os poderosos, as injustiças? Quisera eu saber…

Despertei de minha catarse, ao vê-lo desaparecer pela porta entreaberta. Ficou a lembrança do sutil roçar de suas mãos calejadas, o olhar perscrutador, a conversa inteligente, a mente ágil. Sobretudo, o amor pelo Brasil, pela leitura, pela vida.