Belém que já se foi

16 de fevereiro de 2009

Leitora assídua envia um mail virulento, cobrando uma crônica sobre o aniversario de Belém. Cara leitora, não escrevi porque pouco temos a comemorar. A Belém de hoje, (tu hás de concordar) em nada se assemelha à de outrora. Arranha-céus por todos os lados, moradores atrás de grades. Assaltos, violência, insegurança… Melhor, bem melhor, a Belém de antanho.

Alguns me rotulam de nostálgico, saudosista. Sou, e daí? Quero ver alguém desdizer as próximas linhas. A Belém de hoje não é mais a minha. As pessoas andam sobressaltadas, não dão bom dia. Os automóveis nos perseguem como as aves hitikokianas. Trtagado pelos shopings, o Comércio agoniza. Os cinemas idem. Os celulares proliferam como ervas daninhas. Ninguém deseja feliz aniversário, natal, ano novo… Vez em quando recebo mensagens lacônicas, frias… Telegramas, missivas – nem pensar.

A contragosto, moro em apartamento. Por ser mais seguro. Porque a família assim decidiu. Fui voto vencido. Meus melhores momentos aconteceram quando morei em casas. Na João Balbi, dormia de janela aberta, os raios da lua invadindo a escuridão do meu quarto. Toda manhã era acordado pelo badalar dos sinos da Basílica, pela lambida molhada de minha saudosa cadela Diana. Até hoje sou apaixonado por casas. De preferência, com porões úmidos, sótãos soturnos, escadas rangentes, sons, cheiros, sombras, segredos que só elas possuem. E os quintais? Todos criavam suas galinhas, engordavam seus patos para o Círio. Hoje, as aves vêm do Maranhão. Grande parte do populacho se contenta com perus, chesters congelados, marrecos insossos…

E o que dizer dos sabores? Sou do tempo da sopa de entulho, da roupa velha, da fritada de camarão, da farinha baguda, Guará-Suco, fiambre, pão massa fina, banana branca, raspa-raspa… E por falar em raspa-raspa, qual foi a ultima vez que vocês, amáveis e saudosos leitores, saborearam um?

Sinto saudades do tempo em que podíamos sentar na calçada e jogar conversa fora. Em que os moleques podiam bater bola na rua, pegar manga na chuva, jogar peteca, empinar papagaio (desafio que jovem de hoje sabem encerar uma linha) escolher um filme nos cinemas no Largo de Nazaré. Moderno, Iracema, Nazaré, Ópera… Todos se foram. Perdoem meu pessimismo, mas repito: não temos muito que comemorar. Alguns hão de dizer que o cronista vive num mundo surreal. Pode ser. Melhor assim.

Vez em quando, perambulo pelas ruas da cidade e me quedo pensando. Nessas horas, descubro que ando melhor sem o automóvel. Mesmo emparedado pelos prédios que sobem mais rápido que o pé de feijão da fábula, mesmo amedrontado toda vez que uma bicicleta cruza meu caminho, que um adolescente me aborda, pedindo um troco. Ainda assim, sigo sonhando. Sinto falta das ruas empoeiradas, dos sobrados centenários, dos moradores se embalando em cadeiras de palhinha. Do meu filho descalço colhendo mangas na chuva, balando pipiras inexistentes, trocando figurinhas com o filho do vizinho, dos vira-latas revirando o lixo, do medico da familia, das lavadeiras trazendo a roupa limpinha, do sacerdote de roupa preta, dos vendedores de mussuã, de marreca salgada, de camarão vivo no paneiro…

Desperto de minha catarse com o muvuco de um sonoro pega-ladrão. Amável, leitora. Com atraso, aí vai a crônica pedida. Mil desculpas pelo atraso. Parabéns, Belém. Apesar de tudo – te quero muitíssimo bem!

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Gurijuba ou Pescada Amarela?

12 de fevereiro de 2009

Os secadores de plantão têm que dar a mão à palmatória: o Fórum Social Mundial trouxe benefícios inestimáveis a nossa cidade. Durante uma semana, Belém tornou-se vitrine nacional e internacional. Pessoas de todas as etnias aqui vieram, com o intuito de debater, decidir políticas públicas para o bem da Amazônia, do Planeta. Concomitantemente, queiramos ou não, auferimos dividendos. A segurança melhorou 1000%. O turismo idem. Vias foram asfaltadas. O comércio vendeu como se estivéssemos no Natal. Pelas beiradas, mesmo sem estar oficialmente incluído no roteiro dos visitantes, o cronista também se beneficiou (e como!) com o evento.

Minha livraria e meu Restô – literalmente – bombaram! Teve noites em que fui obrigado a recusar clientes. Numa memorável incursão gastronômica, a filha de Che Guevara detonou meu estoque de unhas de caranguejo. Uma troupe de Panamenhos fez o mesmo com a Tequila. Finda a Tequila, passaram a tomar rum. Americanos e Canadenses esvaziaram hectolitros de Bourbon. Assim foi com os pastéis, os bolinhos de bacalhau, os sanduíches de rosbife, o chope, as cervejas… Quase tudo se esgotou, graças ao voraz apetite dos visitantes. Mas nem tudo foi um mar de rosas.

Na terça, um grupo de nativos chegou esfomeado: Tem macaco torrado?

Acho que eles tavam a fim de horrorizar. Macaco velho do rabo pelado, não me fiz de rogado.

– Me perdoem. O macaco torrado, o guisado de preguiça e o ensopadinho de jacaré acabaram agorinha. Se vocês tivessem chegado mais cedo… Mas ainda temos filé, picanha, frango, camarão, peixe, bacalhau…

Comeram, beberam e se fartaram, Na hora da dolorosa, a tentativa do aplique.

– Não temos grana. Somos índios. Somos inimputáveis.

– Não sei o que é isso. Mas vocês vão pagar! Ah vão!

– Brincadeirinha…

Pagaram em euro. De quebra, deram uma polpuda gorjeta pros garçons. É mole!

De outra feita, um grupo de franceses pediu o cardápio e perguntou o que era farofa. Vai um beócio como eu traduzir farofa. Meu francês é cametaense. Já me vu. Merci bocu… Sou ignorante, mas não sou burro. Fui à cozinha e retornei com um prato da dita cuja. Eles adoraram!

Mas o melhor (ou pior) depende do ponto de vista, estava por vir. Lá pelas tantas, me aparece um sujeitinho pra lá de circunspeto. Como pouco ou nada falou, era humanamente impossível definir sua origem. Podia ser português, italiano, espanhol, argentino… Como saber? Sentou no balcão e pediu uma Devassa geladéssima. Calma! Trata-se de uma espetacular cerveja. Beberica a loura com vagar, mordisca uma nigérrima e suculenta azeitona, enquanto espalha uma porção generosa de gorgonzola no crostine. Momentaneamente, deixo de lado o solitário e enigmático cliente. O dever me chama. Paulo Lazera e seu séqüito chegam a fim de uma mesa. Edson Salame idem. Os pedidos se avolumam na cozinha. Bacalhau à lagareira, Escalopinho à Mauro Guimarães, penne com camarões, arroz de pato…

Mesmo sem possuir o dom da ubiqüidade, me desdobro para atender a todos. Esgotado após a maratona culinária, tiro o avental e me quedo exausto no quintal. Nem deu tempo de relaxar o esqueleto. Sabem aquele cliente? Pois é.

– O senhor tem pescada amarela? Só aí descobri que o cara não era turista, era daqui.

– Temos sim!

– Manda uma na chapa. Purê de batatas e arroz.

Retorno pra cozinha e capricho no prato. Como todo gourmet, fico à espreita, esperando a reação do cliente. Acho que ele gostou. Afinal, raspou o prato e pediu um sorvete. Só então eu me cheguei. Como estava a pescada?

– Aquilo não era pescada, era gurijuba. Mas o sorvete de açaí estava divino. De onde é?

– É do Bode.

O cliente sempre tem razão.

cronista9@hotmail.com

Cadê meus óculos?

12 de fevereiro de 2009

O leitor vai se rir de mim, quando souber que por pouco, pouco mesmo, a crônica de hoje não foi escrita. O motivo? O sumiço do meu óculos. Na verdade, dos meus óculos. Explico. Se tem coisa que abomino, que me tira do serio, é não encontrar meus bregueços no lugar. O aparelho de barbear surripiado pelo filho, pela filha, pela mulher. O jornal de domingo desmembrado. A garrafa de água, as cubas de gelo vazias. E o que dizer da tesourinha de unha, do fio dental, das chaves do carro, o livro, a revista semanal? O controle remoto, que teima em desaparecer, quando mais precisamos dele? Ia me esquecendo da secretária, que teima em deixar o garrafão de água, a fruteira vazia. Será que essas coisas só acontecem comigo? Até entendo o sumiço dos cigarros, dos isqueiros. A família pensa na minha saúde. Mas e o resto?

Nessas horas me dá vontade de largar tudo e ir morar numa ilha deserta. Mas  o pior de tudo é que por mais que eu implore, reze, esses objetos sem valor continuam a desaparecer. Só fui ao oftalmologista, quando não enxergava um palmo à frente do nariz. Por sorte, ele era, é, meu amigo Luis Fernando Cruz. Cioso, me examinou e receitou um óculos pra vista cansada. No outro dia, lá estava eu em frente ao espelho duma ótica, experimentando uma armação que combinasse com meu rosto vincado. Contrariado, paguei uma nota preta. Dias depois, ele desapareceu.  Que o fisco não me ouça: a partir desse dia, passei a ser o maior comprador de óculos genéricos do planeta! Se for pra perder, melhor comprar barato. Adquiro-os em quantidades industriais. Sou íntimo dos camelôs da Praça da Bandeira, da Presidente Vargas. No Rio de Janeiro, faço a festa na Rua Uruguaiana. Quando o camelô me viu comprando óculos como se fossem bananas, foi logo  aventando a hipótese de eu estar comprando para revender.

Só sossegou quando eu revelei meu infortúnio. Semana passada, comprei uma dúzia e distribui aleatoriamente pela casa. No banheiro, na sala, nas gavetas do criado-mudo, no porta-luvas do carro, nas prateleiras da biblioteca. Acreditem. Em pouco tempo. Um a um, eles desapareceram. Como em casa não tem cães, gatos, crianças, idosos, muito menos espíritos, cheguei a pensar que estou pirando. Meu apartamento não “apertamento”. Ainda assim, existem poucos lugares onde esconder ou perder, uma dúzia de óculos. Quem sabe o dia em que eu me mudar, ache todos eles?  Após vasculhar a exaustão todos os meus esconderijos, me resignei, entreguei os pontos: sem óculos, não tenho condições de escrever a crônica dessa sexta. Paciência.

Resignado, abro a geladeira à cata de comida. Imaginem quem eu encontrei em cima do pote de geléia de mocotó?

cronista9@hotmail.com

Ter razão ou ser feliz?

12 de fevereiro de 2009

Era um domingo pra lá de modorrento. Pego um livro e tento ler. Tudo em vão. Resolvo ligar a teve e para minha surpresa, pego ainda no começo uma entrevista com o bardo Ferreira Gullar. Lá pelas tantas, o repórter pergunta-lhe qual era sua opinião sobre o conflito Palestino- Israelense. Ele pensa e responde: que importa quem tem razão? Enquanto os lados discutem, se digladiam, lançam bombas, medem forças… Milhares de inocentes são mortos. Por fim arrematou: há muito tempo eu deixei de querer impor minhas opiniões pros outros. O que eu ganhei com isso? Nada, nadica. Muito pelo contrário. Perdi amigos, amores… Por fim, do alto dos seus setenta e tantos anos de experiência, a frase lapidar: Não quero ter razão! Quero mais é ser feliz!

Aquela frase me tocou profundamente. Quantas vezes, eu, vocês, todos nós enfiamos goela abaixo, vontades, opiniões. Quem não concordar que atire a primeira pedra. Quantas vezes magoamos e somos magoados procedendo dessa maneira? Uma rusga que se inicia pequenina e se transforma numa gigantesca briga. E o pior de tudo é que não temos humildade para reconhecer o erro, perdoar, deixar por menos. Eu tenho razão! A culpa é dele!

Desliguei a televisão, cerrei os olhos. Sei lá por que cargas d’água me veio à mente a imagem de um velho amigo. Como nossa amizade se esvaiu por um motivo torpe, fútil. Me lembro como se fosse hoje. Como de costume, ele apareceu lá em casa para bater um papo. Naquele tempo eu não tinha a livraria. Nossa amizade era tão estreita, que ele aparecia em casa sem se anunciar. Simplesmente apertava a campainha e ia entrando. Se eu soubesse que nossa amizade iria se acabar nessa visita, não teria deixado ele entrar.

Mesmo sabendo do ciúme doentio que nutria e ainda nutro pelos meus livros, ele me implorou para que eu emprestasse um dos tomos de Mitologia Grega, escrita e autografada pelo mestre Junito Brandão. Depois de muita insistência, cedi-lhe o exemplar. Passaram-se dias, semanas, meses, e nada dele devolver o livro. Deixou de atender meus telefonemas. Cansado de suas evasivas, resolvi fazer-lhe uma visita. Para minha surpresa, a casa em que residia estava à venda. Soube pela vizinha as más noticias. Eles tinham se separado. A mulher ficou com a casa. Ele foi morar com os pais. Preocupado, rumei pra lá. Ao me ver, soltou meia dúzia de impropérios, e antes mesmo que eu dissesse alguma coisa, mandou ver: sabe aquele teu livro? Minha mulher queimou junto com minhas roupas. Já era!

– Mas eu queria saber de ti…

– Uma pinóia! Me esquece!

Destemperado, pavio curto, mandei-o pros quintos dos infernos. Só não chegamos as vias de fato, graças à providencial interferência do seu pai.

Foi a ultima vez que o vi. Anos depois soube que estava morando em Porto Alegre. Vejam só: uma amizade perdida por um livro. Deixei-o de lado e tratei de tocar a vida. Na minha estante ainda está faltando o volume II do Junito. No coração, a lembrança dos tempos em que éramos amigos.

Hoje, teria agido diferente. Não emprestaria, ou, se emprestasse, não me importaria se ele devolvesse ou não. Lá se vão vinte e tantos anos. Não sei onde mora, se está vivo…

Dias depois, sou abordado na fila de uma casa bancaria. Eu sou o pai do Tadeu (o nome é fictício) ele está em Belém. Deixei de lado o orgulho e pedi seu celular.

Incontinenti liguei. Tadeu, é o Denis. Marcamos um encontro. Cheguei primeiro e esperei. Logo depois ele chegou. Abraçamo-nos, tentando mitigar as cicatrizes, apagar as marcas do passado.

– Ainda magoado com o livro?

– Livro? Que livro?

cronista9@hotmail.com