O outro lado da meia noite

5 de março de 2009

“O tempo, velho trapeiro da eternidade” (Machado de Assis)

De uma maneira ou outra, os livros nos fazem parar e pensar sobre nossas atitudes, sobre a vida que estamos levando. Sei muito bem o que é isso. Afinal de contas, desde que me entendo, eles me dão lições, me ensinam coisas que jamais aprenderia em outro lugar. Foi assim na semana passada, quando uma cliente ligou, oferecendo o acervo que havia pertencido ao pai. É sempre assim. O marido, o pai, o avô se vai e a família faz uma faxina geral nos pertences do finado. Os bens de valor, (imóveis, jóias, obras de arte, carros…) quase sempre, são disputados a tapa pelos herdeiros. Já o rebotalho…

Mas voltemos ao mote da crônica. Ao saber do meu interesse pelo acervo paterno, não se fez de rogada. Em minutos apareceu na livraria, o porta-malas do carro abarrotado de livros. Como de costume, separei os de mais serventia, descartando aqueles que os exércitos de traiçoeiras traças, divisões de vorazes cupins haviam engolido letras, palavras, lombadas, capas, capítulos inteiros. Para ela, pouco importava. Apressada, contou as notas do butim, enfiou o dinheiro na bolsa e tirou o time. No outro dia, tratei de separar o joio do trigo. Sidney Sheldon, Paulo Coelho, Morris West para um lado; Machado de Assis, Tolstoi, Eça, Monteiro Lobato, Pessoa, Pound, (apenas para citar alguns) pro outro. E foi justamente num exemplar carcomido de Sheldon – “O Outro lado da meia noite” – que encontrei a carta amarelada pelo tempo. Ela dizia mais ou menos assim:

“Amada filha. Apesar da distância que nos separa, em nenhum momento, deixei de te amar. Em nenhum instante, deixei de lembrar das fugazes ocasiões em que fomos, tentamos ser, uma família feliz. De quem é a culpa, quem tinha razão? Agora, de nada, pouco importa. Naquela época, seu velho pai era um jovem idealista, sonhador. Não estava preparado para o casamento, muito menos para ser pai – seu pai. Sua mãe me deixou levando você pra bem longe. Errei, erramos. Contudo, nunca é tarde para dar o braço a torcer, reconhecer que errei. Como você não responde minhas ligações, decidi fazer uso dessa para, humildemente lhe pedir desculpas. Quero, preciso recuperar o tempo perdido. Se você permitir, conhecer minha neta. Colocá-la no colo, embalá-la, contar as historias que contei pra ti. Lembra? Se você concordar, por favor, responda essa carta. Um beijo arrependido do pai que nunca deixou de te amar.”

Emocionado, conclui a leitura, colocando a missiva de volta no envelope. Será que ela sabia, será que a carta tinha chegado ao remetente? Como saber, o que fazer… Incontinenti, liguei para a filha.

– O senhor quer desfazer o negócio?

– Não é nada disso. Encontrei num dos livros que você me vendeu, algo que lhe pertence, que não tem preço.

– Já estou indo.

Quando ela chegou, estendi-lhe a carta que de direito, lhe pertencia. Enquanto lia a missiva paterna, seu semblante se transmutou. As mãos tremiam. Num improvável esgar, os lábios cerrados se entreabriram. Os olhos frios se encheram de lágrimas.

– Eu não sabia… Papai morreu subitamente, antes de postá-la para mim.

Fui tomado por um sentimento, uma tristeza danada. O orgulho, a destemperança, a insensatez, feridas insepultas, mágoas guardadas por anos a fio macularam, separaram inapelavelmente pai e filha. Uma família que tinha tudo para ser feliz.

cronista9@hotmail.com

Você já foi a Tracuateua?

5 de março de 2009

Fujo do carnaval como o diabo foge da cruz. Todo ano procuramos passar a quadra momesca num lugar tranqüilo. Esse ano escolhemos Tracuateua. O nome é complicado, esdrúxulo, cheio de vogais. O caminho é tortuoso, meio escondido, mas vale à pena chegar lá para conhecer e curtir as maravilhas que a natureza reservou para o local. Após duas horas de viagem, enfim chegamos à paradisíaca “Fazenda Vitória” município de Tracuateua – Região Bragantina.

A Fazenda (fundada no final do seculo XIX) tem de tudo um pouco. Lagos piscosos, onde todo final de tarde manadas de búfalos bubuiam, retornando a terra firme após pastar nas margens alagadas banhadas pelo Rio Caetés. Pela manhã, faça chuva ou faça sol, (mais chuva do que sol), revoadas de garças, maritacas, tetéus, papagaios barulhentos saem dos seus ninhos à cata de comida. O lugar é um convite explícito ao ócio. A começar pelas redes coloridas armadas por toda a varanda. E o que dizer das refeições? Começando pelo portentoso desjejum. Leite e coalhada de búfala, tapioquinha, mingal de milho, queijo de coalho derretido, pão feito na hora, sucos de todas as matizes, frutas de todas as cores e sabores… O almoço não fica atrás. Carneiro assado, carne de sol, galinha ao molho pardo, feijão tropeiro, pirão de leite, banana frita, tucunaré na manteiga… Chega? Depois desse pantagruélico banquete, só uma severa caminhada pelas redondezas a fim de fazer a digestão.

Mas o que mais me encantou foi conviver com as crianças hospedadas na fazenda. Fazia tempo que não acontecia isso. No quarto ao lado, um casal de gêmeos aprontava todo tipo de estripulia. Tinha também o Gabriel, o irmão mais velho, curtindo de montão a companhia do pai. Tinha a Samantha, um doce de menina. E tinha o Yude, um japonesinho adorável, só que muito esperto. Depois de muita insistência, ele me convenceu a jogar uma partida de xadrez. Pra quê… Foi eu vacilar e ele assoprou meu bispo. Argumentei dizendo que no xadrez isso não existe. Só se assopra quando jogamos damas. Sabe como é tio. Se colar colou – respondeu ele. O jogo terminou quando ele reinventou mais uma regra – torre andando em ziguezague. Aí já é demais. A verdade é que cada uma daquelas crianças me fez sentir uma enorme saudade dos tempos em que meus filhos eram pequenos. Por isso, ouso desdizer o poeta: Filhos – melhor tê-los.

Não bastasse tudo isso, ainda tem passeio de chalana, caiaque, búfalo mansinho, cavalo trotador, carneiro comedor de manga. Tem também o Didi, o coringa da fazenda. Didi faz de tudo um pouco. Ora pilotando a chalana e contando “causos”. Num piscar de olhos lá está ele em cima de um búfalo, cuidando dos cães… A noitinha se transmuta em garçom, somelier… Grande Didi.

Não poderia esquecer dos Martins. Mãe, pai e o filho Robson. Como todo empresário, poderiam se manter distantes, frios, profissionais. Não foi o que aconteceu. Desde o instante que colocamos o pé na fazenda, eles se desdobraram para nos proporcionar, fazer o possível e o impossível para tornar nossa estadia inesquecível.

Desperto de minha catarse com o badalar do sino avisando que nossa última refeição está servida. Me quedo ensimesmado, triste. Nosso tempo se esgotou, é hora de partir.  No coração, uma certeza. Se o paraíso existe, um pedacinho dele, está aqui.

cronista9@hotmail.com

Quando os chefes se encontram

5 de março de 2009

Seria mais um sábado chuvoso como outro qualquer. Seria… Como de costume, acordo cedo, deixo a modorra de lado e parto para a labuta. No finalzinho da manhã caiu a ficha. Tinha me esquecido do convite para almoçar na casa de um dileto amigo.

Tomei uma chuveirada, e ¼ de hora depois, lá estava eu. Ao chegar ao apartamento do Miuqaoj (o nome dele é assim mesmo), fui surpreendido pela moderna e bem montada cozinha. Pra falar a verdade, nunca vi nada igual. Coisa de primeiro mundo. Cumprimento os convidados, que já bebericavam uns uisquinhos, reunidos em torno do reluzente fogão Rollissroiciano.

Afio com vagar a faca, visto o avental, enfio o chapéu na cabeça e me preparo para iniciar os trabalhos. Quem disse! Um outro amigo, dono de restaurante e metido a cozinheiro, tinha furado a fila. Fiquei fulo da vida. Quem manda chegar atrasado. Não há de ser nada: o fogão tem oito bocas – dá pra todos. Enquanto ele finalizava um razoável bacalhau, tratei de preparar meu primeiro prato. Joelho de porco caramelado com chucrute de repolho roxo. É obvio que o prato dele ficou pronto primeiro. Mesmo assim, minutos depois, o fenomenal joelho estava servido. A sorte estava lançada. Em poucos minutos, os pratos foram devorados pela turba esfomeada.

No segundo tempo, tratei de tomar a dianteira. Bandei duas dúzias de lagostinhas, temperei-as com sal e limão, untei-as com manteiga de ervas e colquei-as no forno. Quase me dei mal. Não sabia eu que a temperatura do bruto era medida em graus Farenheit – por pouco, muito pouco mesmo – meu prato não levou o farelo. Nesse ínterim, meu oponente já tinha fritado deliciosos bolinhos de bacalhau. Achei estranho. Como ele tinha preparado a massa em tão pouco tempo? Enquanto os convivas elogiavam o acepipe, olhei de soslaio para a lata de lixo que jazia entreaberta. Só aí descobri o milagre. Duas bandejas vazias de bolinhos congelados. Mas assim…

Como vocês podem ver, a disputa estava acirradíssima e só seria decidida por uma diferença mínima. Pescoço, cabeça – quem sabe até no fotochat. Fizemos um intervalo para jogar conversa fora, molhar o bico, ouvir uma música. Foi nessa hora que eu quase tive um troço. Um dos meus amigos me chamou, dizendo:

– Vais assistir o melhor cantor do mundo!

Aí me deu medo. Pensei com meus botões. Lá vem um Nat King Cole, Sinatra… Aboletei-me num confortável sofá e me preparei para o show. Vocês não vão acreditar. Sabem quem surgiu na tela? José Augusto. Fala sério! Que mau gosto… Sou mais o Wakdick Soriano. E o pior é que ele me obrigou a ouvi-lo até a ultima faixa. Gosto não se discute – mau gosto também.

Tá na hora de voltar ao batente. Chamei meu amigo gourmet e de comum acordo decidimos fazer um risoto a quatro mãos. Enquanto isso, nosso anfitrião se desdobrava para atender seus convidados. Um licorzinho aqui, um vinhozinho ali, um uisquinho acolá… Tudo de bom. Nem precisa falar que o risoto foi nosso melhor prato. Comida não tem mistério. Ingredientes de qualidade, panela boa e o principal: competência e carinho de quem prepara. Não tem como dar errado.

Ao ver o preguiçoso Lorran, (gato de estimação de Miuqaoj) não resisti a tentação e, à socapa, dei uma lagostinha pro bichano. Acostumado com ração, ele se fartou com o saboroso crustáceo. Mais um vacilo de minha parte: o título da crônica deveria ser “Quando os amigos se encontram”.

cronista9@hotmail.com