A Arte de não fazer nada

2 de abril de 2009

Tenho um amigo que possui uma profissão única e invejável: fiscal da natureza. Ou seja, se dedica à sublime e difícil arte de não fazer nada. Há décadas começa o dia fazendo sempre a mesma coisa. Acorda, lê os matutinos, toma café e, ainda bubuiando, no fundo de uma rede, inicia os telefonemas para se atualizar, pôr em dia as novidades. Almoça cedinho (onze horas). Depois, liga a tevê e assiste aos canais de notícia. Esgotado, tira uma sesta até as quatro. Afinal de contas, ninguém é de ferro. Acorda, toma banho e vai à cata dos amigos. E são justamente as amizades seu maior paradoxo. Explico. Como não tem com o que se preocupar, se dedica de corpo e alma aos amigos. E olha que eles são muitos. Dorme, e no outro dia faz tudo sempre igual (como na letra de Chico Buarque). Vocês acham que é tarefa fácil? Então tentem.

Todo esse preâmbulo porque, na segunda, uma gripe (agora é virose) violentíssima me pegou de jeito. O corpo todo doía. Suei frio, uma tosse intermitente, uma febre terçã tomou conta do meu ser. Quando retirei o termômetro, não acreditei: 40.6 graus. Uau! Se botassem um ovo no meu sovaco, ficaria no ponto em poucos minutos. Tomei uma overdose de anti-térmicos, outra de antitussígenos, toneladas de vitamina C e me enfurnei no quentinho do meu edredon. Mas como apregoa o pessimista Murphy, muita coisa ainda estava por acontecer. A noite caiu e nada da família chegar. Tem coisa pior do que ficar doente e não ter ninguém pra cuidar da gente? Apesar do gosto de guarda-chuva velho na boca, a total falta de apetite, eu precisava me alimentar. O pior é que com a chegada da gripe, meus dois mais aguçados sentidos (olfato e paladar) foram totalmente anulados. Preparei um suquinho de laranja, abri um pacote de bolachas creme craker, lambuzei manteiga e enfiei goela abaixo. Para arrematar, um copinho de geléia de mocotó. Tirando a gripe – tem coisa melhor? Adormeci, tentando em vão ler um livro. Só acordei com os pingos da tempestade entrando sem pedir licença, janela adentro. Pai d´égua. Gripadíssimo, caindo pelas tabelas, e ainda pego chuva da madrugada.

No dia seguinte acordei pior, bem pior. Chegou-se a pensar em dengue, tal a quantidade de calafrios que acometiam meu corpo. Impossibilitado de me locomover, tratei de chamar o Laboratório Paulo Sergio Azevedo, em casa. Chegaram rapidola e me subtraíram hectolitros de sangue. Precisa tirar tanto sangue pra fazer uns examezinhos?

Passei o resto do dia razoavelmente bem, cheguei até a aventar a hipótese de mexer nas panelas no Baú Bistrô. Mas quando anoiteceu… Começou tudo de novo. Calafrios, febre, tosse… Mais uma noite gemendo. Calma lá! Apreendi como meu velho pai: quando algo dói, gema. Seja dor do corpo ou da alma. Incomoda quem está ao teu lado. Contudo, enquanto estiveres gemendo, não sentirás dor. Experimentem.

Como no dia anterior, fiquei jogado no fundo da rede, esperando a danada da gripe me largar de mão. E ela lá, renitente, a me perseguir como cães em filme de terror. Outra noite insone, mais uma noite passando mal. Quando esse suplício irá acabar?

Na quinta – como num passe de mágica – acordei sem febre, quase zerado. Eis aí a ligação entre eu e meu amigo do começo da crônica – aquele que não faz nada. Como ele consegue? Eu fiquei ilhado em casa por quatro longos e intermináveis dias e quase pirei. Repito: Como é que ele…?

cronista9@hotmail.com

O pão nosso de cada dia

2 de abril de 2009

“Felicidade é um hóspede discreto do qual só nos damos conta de que ele existe quando está de partida” (Theodor Adorno – filósofo alemão)

Era uma manhã radiosa, colorida, tais como as telas que o mestre Benedicto Mello sobejamente pintava. Minha fubica deslizava macia pelas ruas arborizadas da cidade. A verdade é que eu estava de bem com a vida. Banho tomado, camiseta de algodão, bermuda, chinela confortável. Meu primeiro destino matinal foi o Pão de Santo Antônio, à caça de antigos alfarrábios.

Quem me recebe – sorriso de piano estampado no rosto – é Armínia, simpática e competente, bota competente nisso, administradora do asilo. Confesso que nunca tinha entrado lá. Minto. Salvo uma ou outra incursão pela refrigerada Capela. Como toda boa anfitriã, Armínia ciceroneou-me pelas dependências do antigo e bem conservado casarão.

Fiquei impressionado com o que vi. Ao contrário da maioria dos asilos, o Pão de Santo Antonio é um primor. Nem parece um asilo. Está mais para um pensionato de luxo. Piscina, salão de jogos, salão de festas, assoalho reluzente, quartos e enfermarias bem ventiladas, banheiros, roupas de cama impecavelmente limpas, cinco refeições por dia (depois falarei sobre a cozinha) e uma equipe de prestimosos funcionários zela pelo bem estar dos velhinhos que lá residem. Ao passar pela secretaria, reencontro Cleide Acatauassu, cara amiga, e uma das mais fiéis colaboradoras do Pão de Santo Antônio.

Retorno ao meu inesquecível tour pelas incontáveis dependências do casarão. Enquanto me mostra tudo, minha anfitriã distribui sorrisos e afagos, uma palavra de conforto por onde passa. E acreditem: sabe de cor e salteado o nome de todos os velhinhos. Como vai, Bené? E você, Maria José, melhorou da gripe? Como vão os bisnetos, dona Antônia? Que dia lindo, seu Hamilton! Aliás. Por que será que a grande maioria dos que lá estão é de mulheres? Reparei também que todos os cômodos têm móveis, eletrodomésticos doados por abnegados e anônimos colaboradores.

Como não podia deixar de ser, fiz questão de conhecer a cozinha – e que cozinha! Para minha surpresa, encontro Patrícia Freire, nutricionista do pedaço. O que mais me impressionou na cozinha, além do número de refeições servidas diariamente – cerca de setecentas – foi o formidável fogão industrial – doado décadas atrás pelo Rômulo Maiorana. Enfim cheguei aos chalés. Mini-suítes com todo conforto possível. Sala, quarto refrigerado, cozinha, banheiro, varanda florida… Lá, casais de idosos vivem a vida que pediram a Deus. Têm segurança, companhia, assistência médica, lazer… E o principal: amor!

Fiquei surpreso ao saber como as voluntárias conseguem manter e prover digna e confortavelmente todos os velhinhos e ainda fazer novas obras no casarão. A resposta estava bem na minha frente: um adorável brechó coalhado de roupas, adereços, móveis… Essas e outras doações recebidas vão para o bazar, onde são vendidas regularmente pela melhor oferta recebida.

Faço uma pequena pausa, enquanto sorvo um copo de água geladérrima. Absorto, caminho com vagar pelos corredores centenários. Num dos quartos, uma simpática senhora me espreita pela nesga da porta entreaberta. Cumprimento-a com alegria e ela me indaga, os olhos rútilos, fixos em minhas madeixas grisalhas:

– Quando o senhor vem morar aqui?

Acho que estou ficando velho.

Só aí me lembrei o motivo da visita: os livros. Cadê os livros?

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