Ensaio sobre a pobreza.

23 de julho de 2009

Quando pobre come frango, um dos dois está doente”. (Barão de Itararé)

Uma vez por semana vou a Ceasa – ossos do oficio. A maioria das vezes, no final da manhã. Pra quem compra no atacado, os preços são bastante convidativos. Uma saca de limão sai por oito reais. A caixa de tomates vale vinte pilas. Um paneiro abarrotado de maracujás, quinze reais. E por aí vai. Mas a crônica de hoje não versa sobre os preços dos hortifrutigranjeiros.

No final da semana passada, estava eu pechinchando com os atacadistas, quando um sujeito mal ajambrado solicitou minha atenção. “O senhor poderia me dar uns trocados?” Meu primeiro impulso foi fazer olhos e ouvidos de mercador. Enquanto pensava o que dizer, observei-o com vagar. Deveria andar pela casa dos cinqüenta. Negro – nigérrimo – magro, ainda assim, elegante. As roupas, apesar de rôtas, estavam limpas. Ao seu lado, um carrinho de mão enferrujado. O olhar era triste, macambúzio. Um Príncipe de Ébano sem trono. Mais um dos milhões de brasileiros desempregados, sem perspectiva nenhuma de vida. Enquanto isso, um copeiro do Senado Federal ganha dez mil reais para servir cafezinho. Mais, bem mais que um médico que ralou dez anos. Um dos netos do Ribamar sangrava do erário doze mil pilas por mês. Sabem onde ele “trabalhava”? Em Barcelona. Empregados domésticos na folha de pagamento do Congresso, ganhando mais de dois dígitos. E por aí vai. Parafraseando Boris Casoy: isso é uma vergonha! Mas voltemos ao personagem da crônica. Tenho certeza absoluta que num passado remoto, distante, ele vivia satisfeito, vendia saúde, era altivo, orgulhoso, feliz… E agora, alquebrado, acometido por espasmos silicóticos, é obrigado a se humilhar pedindo esmolas. A contradição o atormenta, dilacera suas entranhas. A montanha-russa em que vive, o torna íntimo do abismo.

Desperto de minha catarse, ao receber o troco do feirante. Olho pro lado a procura dele e assisto uma cena triste, dantesca. Junto a outros desafortunados, ele recolhia alimentos esparramados pelo chão. Em pouco tempo o carrinho estava abarrotado de frutas, legumes e verduras descartados pelos feirantes. Alfaces murchas, repolhos com as folhas manchadas, bananas batidas, tomates furados, batatas brocadas… Meu Deus – quanta miséria! Um grito silencioso de Eros contra as vilanias de Tanatos.

A vida continua. Dei-lhe cinco pilas, comprando momentaneamente minha consciência cheia de culpas. Pego o carro e sigo em frente. Baratinado, acabei esquecendo de comprar as laranjas. Lá vou eu de novo pra Ceasa. Na volta, a me perseguir, o esmoler acocorado à beira da estrada. Desgraça só quer começo – já dizia Gonçalo Duarte. O pneu do carrinho de mão tinha estourado. Como ele iria carregar toda aquela comida até a sua casa? Abro o porta-malas e ajudo-o a colocar seus bregueços.

Em poucos minutos chegamos. Para minha surpresa, apesar de humilde, a casa era um mimo. Uma varandinha florida, sala, dois quartos, banheiro, uma cozinha pequenina, um quintal bem cuidado. No portão, a família e dois vira-latas famintos o esperam. Depois de retirar seus pertences do carro ele agradece e pergunta: “o doutor almoça com a gente?” Olho pro relógio – onze e meia. É…

Uma hora depois, o banquete estava servido. Um cozidão pra chefe nenhum botar defeito. Batatas, repolho, cebolas, bananas, couve, cenoura, meia dúzia de ossos de tutano, farinha baguda, pimentinha de cheiro amassada na hora…

Tem coisa melhor?

cronista9@hotmail.com

Chegou o verão

23 de julho de 2009

E chegou novamente o modorrento mês de julho. Mês em que Belém, tal qual um grande balão cadente, se esvazia, fica tranqüila. As famílias vão para Mosqueiro, Salinas. As mais abonadas, Rio, America do Sul, Europa… A verdade é que nos últimos dez anos, não fui um só fim de semana para Salinas. Não me queixo. Em compensação, me quedo satisfeito na metrópole vazia, latifundiário todo poderoso, tomo conta da cidade como ela fosse só minha.

Acordo cedo, abro a janela, e respiro a brisa morna da manhã que promete ser das mais belas. O céu está azul, a lua cheia some aos poucos no horizonte se preparando enfim para dormir. As praças, as padarias estão às moscas. No meu prédio, poucos carros jazem na garagem sombria. Como moro no último andar, aproveito para perscrutar com mais vagar a cidade adormecida. A vista cansada ainda consegue alcançar o telhado do Theatro da Paz, o cume do coreto Do Largo da Pólvora e suas árvores centenárias. No apartamento em frente, uma senhora gordíssima derrama o busto enorme no parapeito da sacada. Ao lado, toalhas e peças íntimas dão um colorido bizarro, aleatoriamente pendurados no varal improvisado. Na janela do apartamento ao lado, um morador anônimo parece possuir o dom supremo da ubiqüidade. Fala ao celular, pita um cigarro, afaga o gato preguiçoso, enquanto observa o vai e vem dos carros. Que vida boa!

Chega de moleza – o dever me chama. Mas um dia, ainda hei de seguir à risca, a máxima de Ginsberg, que dizia que nunca é tarde para não fazer nada. Mas por enquanto, vou seguindo as premissas do filósofo Kushida Sensei: “Não se queixe do trabalho. Você terá tempo de sobra para descansar quando estiver morto”. Então… Vamos ao trabalho!

Pego o carro e rumo para o Ver-ô-Pêso. Até ele está diferente. Estacionamento à vontade, barracas vazias, fartura de verduras, frutas, carnes e peixes. Bom, bonito, mas nada barato. Resolvo comprar dois quilos de patas de caranguejo, cheiro verde, cebolinha, pimenta de cheiro e tomates. Na Ocidental do Mercado, peço pra dona Vanda moer dois reais de pimenta e cominho e um tantinho assim de colorau. Quando chegar em casa, retirarei as interseções das patas do saboroso marisco e refogarei a massa em azeite e condimentos. Pra acompanhar, feijão preto, arroz soltinho e farofa de cebola dourada. É bom demais!

Ao contrário das grandes cidades, Belém (em alguns aspectos) mais parece uma aldeia de muro baixo. Distante, bem distante, diferente, bem diferente de metrópoles como São Paulo, em que vizinhos do mesmo prédio mal se conhecem, mal se falam. Onde as pessoas ficam juntas sozinhas – Uma selva de pedra, um zoológico humano, uma grande cidade, uma grande solidão. Belém, graças a Deus, ainda não!

Ando até o final da feira pra comprar açaí. Peço pra embalar dois litros do grosso, um tanto de farinha de tapioca e sigo cantarolando “aquela” canção do Roberto. À minha frente, abarrotada de compras, uma jovem mãe empurra diligente um carrinho de bebê. Ao lado, agarrada a bainha da saia materna, a filha sussurra baixinho:

– Mamãe, você gosta de mim?

– Gosto.

– Muito?

– Muito!

A cena pungente fez meu combalido coração se contorcer. O suor porejar pelo corpo, latejar as têmporas, o peito doeu-me todo. Lembrei-me de minha filha Juliana. Por quê será que os filhos crescem? Há quanto tempo ela não me pergunta isso?

cronista9@hotmail.com

De volta ao paraíso

23 de julho de 2009

Semana passada, fui peremptório: durante as férias, prefiro ficar em Belém. Contudo, toda regra tem exceção. Na quinta, um casal de amigos nos convidou (ou eu me convidei?) para passar o fim de semana em sua aprazível residência, na praia do Maraú.

Na sexta, arrumei meus bregueços e partimos pra bucólica. Por incrível que pareça, o trânsito estava tranqüilo. Talvez por isso, resolvi seguir viagem direto, sem escalas. Resisti aos camarões, às frutas oferecidas aos montes à beira da estrada. Só dei uma paradinha numa biboca em Santa Barbara, a fim de comprar uma irresistível carne de sol. Já na ilha, me rendi aos saborosos pastéis do Oliveira.

Chegamos ao Maraú cerca de uma hora e meia depois. Os anfitriões nos esperavam com tapete vermelho estendido na porta. A casa é tudo de bom. Grandiosa e ao mesmo tempo aconchegante. Aceitei sem pestanejar uma dose generosa de puro malte, oferecido pelo meu amigo Charles, e me enfurnei na cozinha, território da Dona Val, e seu sorriso de piano. A quatro mãos, tratamos de preparar alguns acepipes para a turma. Escondidinho de bacalhau, carne de sol acebolada e outras milongas mais. De repente, não mais que de repente uma romaria de barcos cortou as águas tranqüilas da enseada. Eram dez, vinte, trinta barcos… Perdi a conta, em comboio rumo à pescaria.

Passamos horas agradabilíssimas, bebericando, petiscando, conversando. Quando me dei conta, já era noite. Tomei um banho rejuvenescedor e jantamos. Depois da sobremesa, cada casal se aboletou num sofá para assistir o show do Rei – Roberto Carlos. Como era de se esperar, dormimos cedo. No outro dia, caminhamos pela praia deserta. A maré estava vazando. A paisagem, luxuriante. Ilhéus operosos, recolhiam camarões nos matapis abarrotados. Namorados trocavam beijos à sombra de uma arvore. Garças ciscavam nos lagos formados pela maré vasante. Crianças espanavam a água…

Bem a nossa frente, um barquinho solitário retornou da pescaria. No fundo do casco, um filhote pesando uns seis quilos. Pechincha daqui e dali, e almoço está garantido. Seccionei o rabo e a cabeçorra do bruto pra fazer o caldo da moqueca, retirei com cuidado a gordíssima ventrecha e temperei, temperamos (eu e a diligente Val) o resto da carcaça. Nesse ínterim, outros amigos chegaram. Beber, comer, jogar conversa fora e viver. Tem coisa melhor? A farra foi até altas horas. Charles dando atenção a todos; Alberto e sua guitarra imaginária; Carlos Eduardo e sua alegria de viver… Com eles aprendi muitas coisas, dentre elas, que a vida é curta, efêmera, passageira. Então, pra quê acrescentar dias em nossa vida; em vez de vida em nossos dias? Vitorio Gassman tinha razão: O único erro de Deus foi não ter nos dado duas vidas: uma para ensaiar os erros. E outra para atuar, viver. Feliz aquele que antes de partir, amealhou amigos, riu muitas vezes, chorou sem pudor, falou a verdade, e amou – muito. Acho que bebi demais…

No domingo o dia amanheceu lindo. Aproveitei para ir até a ponte do Cajueiro, à cata de O Liberal. Na volta, dona Val me aguardava com um pratarraz de macaxeira fumegante. Espalhei manteiga à beça e mandei ver. De quebra, uma coca bem gelada. Arrumamos a tralha, e a contragosto, fomos embora. Os filhos nos esperavam ansiosos para o almoço domingueiro.

Na volta, vim matutando. Ainda vou comprar uma posse no Maraú. Quem sabe um dia, eu construa uma casinha por lá.

cronista9@hotmail.com

VOCE CONHECE BALTIMORE?

10 de julho de 2009

Ate ontem,o cronista tambem nao conhecia. Mas, gracas as atividades profissionais de minha mulher,  ca estou eu aqui.  A viagem ate Nova York foi longa e cansativa. Sem contar as cinco horas dirigindo ate chegarmos a Baltimore.Dormimos o sono dos justos. A bem da verdade – apagamos. No outro dia, fui acordado por um barulhento despertador. Esqueci que a mulher tinha coffee-break as seis da matina. Quem mandou casar com medica…

Enquanto ela e amiga iam para o batente, tratei de conhecer a cidade. A cote, meu amigo e parceiro de inumeras e inesqueciveis viagens – o boa praca Armando Chermont. Situada a 230 milhas de Nova York, Baltimore e uma cidade deveras interessante. Aparentemente, parece ser acanhada, pequena. Ledo engano. Ela possui todos os requesitos de uma metropole. Cerca de 20 museus, 7 galerias de arte, 9 teatros, tres estadios (basquete, soccer e beisebol), aquario marinho, centenas de restaurantes, pracas arborizadas, e um modernissimo Centro de Convencoes – de fazer inveja no Riocentro.

Os meios de transportes sao excelentes. Trem, onibus, metro… Ainda assim , e mais negocio andar de taxi. Nessa epoca, faz frio e chove muito. As distancias sao pequenas e  o preco da corrida sai por uma bagatela.  Isso se voce ficar de olho nos taxistas. Andam que nem loucos,  o cellular eternamente ligado, e se voce nao prestar atencao,  nem ligam o taximetro. Ai babau, ja era.  Macaco velho do rabo pelado, ja sabia de cor e salteado o preco das  corridas. Quando eles chutavam o preco la pra cima , eu ja estava do lado de for a do carro,  a grana na mao.  Jacare que nao se cuida vira bolsa de madame.

Mesmo tomando todos os cuidados, passamos inumeros apertos.  Na noite de sabado, resolvemos voltar a pe para o hotel. Foi um Deus nos acuda. Esquecemos o mapa, e ninguem queria nos dar informacao. Nos perdemos em meio a um bairro barra pesada. E nada de passar um taxi. Gente mal encarada, fumadores de crack, proxenetas, cafetoes, mulheres de vida facil… Ate que uma alma caridosa (ao ver nosso desespero), disse:

–          Where are you going?

–          Tremont Plaza Hotel.

–          Follow-me!

Em poucos minutos estavamos saos e salvos. Ufa!

Todo dia era a mesma coisa. Acordar cedo, preparar o café das meninas, deixa-las no onibus do congresso, voltar a  dormir ate as nove.  Depois, pernas pra que te quero.  Numas dessas saidas, quase pirei ao entrar na – Barnes& Nobles – Egua da livraria!  Tres andares, cerca de trezentos mil livros de todos os tipos.  Passei a manha inteirinha la. So sai (quase a forca) para almocar.

E por falar em comida – nesse dia tudo deu certo. Fomos a um restaurante sensacional! “Cheesecake”  Factory” . Que como diz o nome, comecou como uma modesta venda de tortas, e hoje, tornou-se uma rede de restaurantes em todo o pais. Os pratos, alem de saborosos, dao de sobra para duas pessoas. Sabem aquele trinomio (bom, bonito e barato) praticamente impossivel? No “ Cheesecake acontece .  A verdade e que os americanos comem muito e comem mal. Talvez por isso existam tantos obesos por aqui.

No derradeiro dia , andarilhando pelo centro da cidade, mais uma descoberta: uma loja especializada em artigos culinarios.  Facas alemas,  forninhos, centrifugas, processadores, dezenas de cortadores de temperos diferentes, uma cafeteria para preparar café expresso por modicos 95 dolares (no Brasil custa 700 pilas),panelas de cobre temperado e outras cositas mais.

Tudo que e bom dura pouco. O trem nos aguarda. Na proxima cronica, as aventuras em Nova York.

cronista9@hotmail.com

Esqueceram de mim

10 de julho de 2009

Catatônico, avisto um jurássico carro de raspa-raspa, sequioso e saudoso, estaciono rapidola o carro no meio fio. Que sabor escolher: Côco ou maracujá? Acabei optando pela perfumada graviola. Esparramo-me no banco do automóvel e me delicio com a guloseima. Há quanto tempo eu não tomava um raspa-raspa? No mínimo um cinco anos. Antigamente, em cada esquina da cidade esbarrávamos num carrinho desses. Entretido, só então reparei que havia estacionado bem em frente a uma escola. E o pior: bem na hora da saída dos alunos.  Em poucos minutos, o copo estava vazio. Saio do carro e peço um repeteco pro ambulante. Quando me preparava para tirar o time, avistei um pinguinho de gente sentado na escadaria.

Mochila aos pés, as mãozinhas apoiadas nos joelhos, o olhar ansioso, perdido. A maioria dos colegas já haviam se retirado, levados pelos pais e babás. Vez em quando ele olhava para a rua, pro relógio do celular. Fiquei a matutar: o que estaria passando pela sua cabecinha? Resolvi tirar minhas dúvidas puxando conversa com o pirralho.

– Cadê sua mãe?

– Já deve estar chegando. Ela me disse para não conversar com estranhos.

Menino esperto. Macaco velho do rabo pelado, resolvi pegar um atalho, introduzindo na conversa uma terceira pessoa – Seu Vianna – o sorridente vigia da escola. Falamos sobre a floresta, o meio ambiente, animais… Quando relaxou, me contou as estripulias do “Pingo” seu cãozinho de estimação. Foram momentos de raro prazer. Sem querer voltei no tempo, relembrando a vez que esqueceram de mim.

Eu morava no Rio e devia ter meus dez anos. Todo mês de julho, meu pai me levava para uma colônia de férias da ACM (Associação Cristã dos Moços), localizada na Serra das Araras. Menino criado em apartamento, me esbaldava escalando as encostas pedregosas, mergulhando nas cachoeiras geladas, me enfurnando nas noites sem fim ã beira da fogueira, ouvindo escabrosas estórias de terror.

Apesar do regime militar imposto pelos monitores: todo santo dia, tínhamos que arrumar as camas, hastear o pavilhão nacional, cantar os Hinos do Brasil da Bandeira “Salve lindo pendão da esperança / salve símbolo augusto da paz/ tua nobre presença é a lembrança que a pátria nos trás…” Que lindo né? Depois, era só lazer. Jogos, competições, gincanas… E o almoço – é claro. Como esquecer os tomates, o agrião, a alface, a couve, tudo fresquinho, colhidos na horta da fazendola. E o que dizer do aipim com carne assada, o arroz com aletria, o feijãozinho fumegante…  Os caquis sumarentos, as dulcíssimas frutas do-conde, o cheiro do café torrado na hora… Eram tempos de bonança. Um mês inteiro pra vadiar. Sem nenhum tipo de preocupação. Comer, brincar e viver.

Tudo que é bom dura pouco. De repente, não mais que de repente, o dia da partida chegou.  Arrumei minha tralha e fiquei à espera do velho. Uma hora, duas, e nada dele chegar. Todos meus colegas partiram, e eu lá, ansioso, preocupado, o que teria acontecido? Dormiram demais, um acidente… Nem pensar! Todas essas coisas passavam em minha mente, enquanto o olhar percorria a estrada sem fim.  Lá pelas tantas, ouvi o inconfundível som da Rural-Willys do velho.  Açodado, corri como um louco pela ponte ao encontro do meu pai. Estava tão feliz, tão aliviado, que nem notei que minha mão sangrava abundantemente. No afã de encontrá-lo, rasguei a palma da mão no corrimão da ponte de madeira. Lá se vão quase cinqüenta anos.

Desperto da minha catarse com a chegada do pai do garoto. Seu olhar era igualzinho ao meu. Assim como ele, eu também já passei por isso. Esqueceram de mim.

cronista9@hotmail.com

Faltou assunto.

9 de julho de 2009

Volta e meia acontece isso comigo. Papel e lápis na mão e nadica de inspiração, nada a escrever. Acreditem, no tempo dos chips minúsculos, pen-drivers de 20 gigas, da mais alta informática, o cronista ainda se encontra no tempo da pedra lascada. Só consegue escrever à mão. Escrevinha a crônica no papel e só depois (se conseguir decifrar a própria letra) é que passa a limpo no computador.O branco, o apagão total, teima em acontecer sempre que estou prestes a viajar.

Já apontei o lápis “ene” vezes, a cachola latejando, e nada de assunto. O papel limpo ulula à minha frente. O que fazer! Ao meu lado, o jornal do dia prestes a virar papel de embrulho. Macambúzio, folheio com vagar as manchetes do matutino. “Comissão de Ética arquiva o processo contra a vereadora”. Novidade.Era de se esperar. Todo mundo com o rabo preso… Pelo menos deveriam ter a decência de devolver o vultoso salário que indevidamente receberam as custas da domestica, que virou laranja.

No planalto, a mesma coisa. Quando o presidente da Câmara, Michel Temer (ele não é a cara daqueles mordomos de filme de terror antigos), resolve colocar um pouco de ordem no pedaço, seus pares se voltam contra ele. Tinha deputado que viajava pro exterior com o meu, o seu, o nosso dinheiro. Um cara de pau nordestino usou como argumento a seu favor, que não podia deixar a mulher sozinha em casa, sob pena de desestabilizar o casamento. Outro levou a amante e agregados para um tour pelas Ilhas Gregas. Até o Gabeira entrou nessa. E o que dizer das milhagens. Tinha assessor de deputado vendendo as milhas no mercado negro. Acho que vocês não sabem do pior. Os campeões dessas mutretas são os deputados mais abonados. Como diria o Boris Casoy: é uma vergonha!

Quando trabalhava no serviço publico (nunca mais), solicitei com antecedência, uma passagem para a Bienal do Livro. Passaram semanas, meses e nada das passagens. Teve gente que viajou no mesmo período pra mais de cinco vezes. Quando vi que daquele mato não iria sair nada, comprei do próprio bolso. Quem manda não entrar no esquema. Mas não tenho do que me queixar. Melhor assim. Ninguém poderá dizer que eu prevariquei.

Uma manchete que dói no bolso. “Petróleo baixa 40 % – mas o preço da gasolina continua o mesmo”. O governo apregoa aos quatro ventos que somos auto-suficientes no quesito petróleo. Todo mês se descobrem novas reservas. Então por que não baixar o preço nas bombas. Na seqüência, outra noticia aparentemente aziaga. , mas, pensando bem, nem tanto.

Vi as imagens da teve e fui lá conferir, com meu jornalismo (de vez em quando) investigativo: a big-enchente de Belém na segunda-feira. As pessoas que andavam pelas ruas ficaram ilhadas, sem possibilidade de socorro. Os carros tiveram que parar porque avançar, além do risco de naufragar, podia significar a destruição do motor. Em 15 minutos de águas de fazer Noé embevecer, a cidade afundou. Parecia São Paulo. Pelo menos em matéria de cheia, já não temos mais motivo para invejar a terra dos bandeirantes.

Mas a pior de todas as noticias, (pelo menos para mim) ficou para o final. Da leitura e da crônica. “Gripe Suína se alastra pelo continente. México, Estados Unidos e Canadá são os que têm o maior numero de casos.” A propósito: quando vocês estiverem lendo essas linhas, o cronista estará a caminho dos Estates. Mas não se preocupem. Já me vacinei contra a gripe (a nossa), comprei uma dúzia de mascaras cirúrgicas e tratarei de lavar bem as mãos… E seja o que Deus quiser!

Na próxima crônica voltarei a ser razoável.

cronista9@hotmail.com