Inútil Paisagem 30/7/13

11 de janeiro de 2014

Inútil Paisagem

Mal abria a porta e você dava de cara com o tilintar suave dos sinetes, um espelho em forma de sol e um azulejo azul e branco na parede com a frase singela: “Aqui mora uma pessoa feliz”. Coisas, objetos simplórios que davam gosto e graça a sua vida quase espartana. Do contrário, a existência seria um enfado. Sua personalidade era controversa. Contudo, era incapaz de falsas simulações de apreço e de afeto. Quando gostava de uma pessoa era para toda vida. Mas também quando não gostava… Sai de baixo!
Nunca conheci uma pessoa tão solitária que mantivesse a porta tão escancarada. A primeira vista, ou de longe, mantinha solene distancia. Na verdade ela apenas se resguardava, avaliando e antevendo os problemas. Aparentemente reservada, tinha um montão de amigas do antigo I.A.P.I, com as quais mantinha estreito contato. Lembro-me de ouvi-la várias vezes ao telefone: “como vai Zuleiquinha (uma das amigas mais próximas), vamos almoçar no centro da cidade? Ou os passeios intermináveis pela praia de Botafogo com a vizinha e amiga Maria Helena – recentemente falecida. Dona Dalza gostava desse clima de intimidade que cria laços de confiança e amizade para sempre.
Ainda assim, em alguns momentos se fechava em copas, teimando em se enfurnar em si mesma tal qual a abelha rainha fabricando diligente o seu próprio mel. Quando necessário, manejava com maestria o humor e a ironia em doses homeopáticas. Dizia as verdades sem circunlóquios e os possíveis alvos não se davam conta ou não tinham como rebater.
Enquanto esteve saudável, dedicava pouquíssimo tempo aos afazeres domésticos. Sua casa era a rua. Sempre a questionei: “Como é que uma aposentada passa o dia inteiro na rua? No que ele respondia: “Um dia você vai entender meu filho… Quando estava em em casa, seu cômodo preferido era o meu quarto e a vista luxuriante do morro Novo Mundo. Passava horas admirando a paisagem verdejante daqueles poucos metros quadrados de mata atlântica restantes, os micos e tucanos saltando de galho em galho, a revoada barulhenta dos periquitos, o olhar altivo e prescrutador do gavião prestes a dor o bote em sua presa. Por ironia do destino, quando se quedou doente, o alemão embotando sua mente, minha irmã sabiamente transferiu seus bregueços para o meu quarto, posicionando a cabeceira da cama diretamente para o morro. Foi lá, o olhar fixo no horizonte, alternando momentos de confusão mental e lucidez que ela passou os últimos anos até falecer.
Retorno ao Rio para uma missão necessária e delicada. Cremar seus ossinhos, e espalhar suas cinzas ao vento no lugar que muito lhe aprazia – o Jardim Botânico. Gostaria de voltar no tempo daquele verão em que “Eu só quero um xodó”, na voz malemolente de Gilberto Gil, tocava em todas as radios e vitrolas do Rio de Janeiro e do Brasil. Num final de tarde, ela colocou o disco na vitrola e me tirou para dançar. Pouca afeita a gestos desnecessários de carinho – a não ser com os netos – beijou-me as faces, me abraçou forte enquanto rodopiava murmurando a canção. Por alguns instantes imaginei levitar. Naquele tempo, a vida pulsava forte em seu coração. Naquele tempo, eu ainda acreditava que a morte só chegava para as outras pessoas, e que a felicidade jamais terminaria.
Existem pessoas que levam anos, décadas para serem desvendadas. Como o original de um livro que nunca saiu da gaveta do autor ou não convenceram um editor de sua publicação. Minha mãe era, é um ser dessa estirpe.
cronista9@hotmail.com

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