Lembranças do Gustavo 1/8/13

11 de janeiro de 2014

Lembranças do Gustavo

Conheço-o desde criança, quando costumávamos colocar armadilhas para pegar passarinho nas matas do morro Novo Mundo. Não sabia ler nem escrever e tinha dificuldades com os números até para usar o telefone. O relógio era apenas objeto de decoração para o pulso de ébano. Nunca esteve fora do Estado do Rio, votou pela primeira vez em Leonel Brizola, por quem nutria verdadeira adoração. Como não lia jornal – e naquele tempo não existia televisão, não tomava conhecimento do que acontecia no país. Vivia lite
no mundo da lua. Mas era um dos homens mais honestos e decentes que conheci até hoje. Além dessas qualidades, era botafoguense doente e dotado de uma alegria contagiante. Seu sorriso era literalmente de piano! Mas quando era necessário, tornava-se um bastião de coragem e destemor. Jamais consegui superar o impacto ao vê-lo partir imperturbável pra cima de um sujeito com o dobro do seu tamanho, que havia lhe alcunhado de “crioulo nojento”. Acreditem: ele nem precisou da minha ajuda – encheu o meganha de pancada.
Nos separamos quando vim para Belém. Quando retornei encontrei-o sisudo, tomando conta da portaria do prédio da minha mãe. Veio com uma conversa meio torta me chamando de doutor. “doutor uma ova”. A partir daí, todas as vezes que eu ia ao Rio, nos encontrávamos relembrando os velhos tempos. Gustavo morava num quarto modesto, num prédio ao pegado onde também tomava conta. Não sei como arrumava tempo para dois empregos em tempo integral. Perdi a conta das vezes que o acordei quando chegava altas horas da esbornia. Nas horas vagas, se arrumava todo. O pescoço vergado pelo peso de grossas correntes de prata, as calças vincadas com capricho pendiam soltas de sua cintura esguia, sem qualquer tipo de barriga e ia pra samba, a bordo dum velho Opala verde que comprara, sabe-se lá de quantas mãos. Eta crioulo elegante!
Quando eu chegava de táxi la estava ele à porta fazendo algazarra: “O Denis chegou. Ninguém dorme na Marques de Olinda!” Pegava minhas tralhas e arrastava para o elevador social. Nos domingos, quando coincidia, íamos juntos ao Maracanã, assistir o Glorioso jogar. Nunca o vi de cara amarrada – pra ele não tinha tempo ruim – a vida era sempre uma grande festa. Todos na rua o conheciam e ele conhecia a todos. As crianças adoravam seu jeito. Meu filho em especial, nutria um enorme carinho por ele. Nos últimos tempos andava amuado, magérrimo, a traiçoeira úlcera roendo-lhe lentamente as entranhas. Ainda assim não se deixou abater, como se a morte que se avizinhava fosse algo natural.
Um belo dia ele interfonou me convidando para almoçar no Manolo. Não entendi nada – ele vivia duro. Assim mesmo desci para ouvir de viva voz o milagre. “Não te mete! Ganhei no bicho. Deu pavão na cabeça! Esse fim de semana não tem crioulo pobre”. Dito isso atravessamos a rua e nos aboletamos no restaurante. Ele pediu seu prato predileto: frango à passarinho, intercalada com generosas talagadas de Caracu, pra quem não sabe uma encorpada cerveja preta.
Tirei uma copia de uma cronica perdida no tempo publicada em “O Liberal”, em que narrei algumas de suas diatribes. Ele plastificou-a e mostrava com orgulho pela rua dizendo: “eu sou famoso, até sai no jornal!” Mas tudo que é bom dura pouco. Quem convivia há décadas com uma úlcera e bebia e fumava como ele, tinha o futuro igual ao de uma vela fixada sobre a superfície de um fogão aceso. Gustavo vivia em eterno estado de êxtase, pena que não tenha conseguido escapar do abismo para poder continuar louvando a beleza ou o estapafúrdio da vida.

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