Medo de avião

11 de janeiro de 2014

Historias de avião.

Não é de hoje que morro de medo de avião. Basta ele decolar, e o suplício começa. Não tenho nenhum problema em confessar: se puder evitar, vou a pé, de ônibus. Se não nasci com asas, pra que arriscar? Já viajei pelas asas da Panair, da Cruzeiro do Sul, da Paraense. Os Electra da ponte aérea. Tempos depois, Sadia, Transbrasil, Vasp, Varig, Taba… Agora a TAM, Gol, Azul… Foram tantas companhias, tantos aviões, que até perdi a conta. Desnecessário falar sobre a crise aérea que tomou de roldão o País. Filas quilométricas, esperas inevitáveis. E a duvida cruel: Quando, como, de que maneira chegaremos?
A primeira vez que me dei conta do risco de viajar de avião, foi na década de 60, quando um Hirondelle da Paraense despencou na Baia de Guajará. Conhecido meu, apenas o Coronel Ludugero – personagem folclórico da época. Muito tempo depois, o fatídico 727 da Varig, aquele do Comandante Garcez, que caiu nas matas do Mato Grosso. Dentre os doze mortos: Graça, uma vizinha do Ismênia, Zé Luis, um colega do colégio, e o irmão do meu amigo Nagib Mutran.
A mais inusitada experiência aérea aconteceu há uns 15 anos, ao embarcar um voo para Macapá. Embarquei cedinho, com o intuito de tentar receber uma divida antiga. Cheguei à casa do caloteiro lá pelas 7 da matina. Bati na porta, e a mãe dele me recebeu desconfiada.
– O Matheus se encontra?
– Pera lá, vou ver.
– Filho. Um tal de Denis quer falar contigo.
– Diz pra ele que eu estou dormindo.
Mal sabia ele que eu não estava no telefone.
Pego no contrapé ele aparece.
– Oi, tudo bem! Vamos entrando.
Algo me dizia que eu entraria numa fria.
Vestiu-se às pressas, e me levou pra conhecer a cidade. Malandro é florida!
– Macapá está crescendo. O Sarney está investindo na cidade, até Zona Franca já tem. Tua mulher gosta de perfume? – Quem não gosta.
Levou-me na casa de um catrepeiro – que segundo ele – lhe devia uma nota preta. Adoçou minha boca com um vidro de “Kenzo” e três cheques pré-datados voadores. Feito isso, serviu-me um almoço de rei. Ao cair da tarde, me despejou no Aeroporto. Trambiqueiro é tudo igual.
Alegre como pinto no lixo, fui fazer meu chek-in. Quem disse? A atendente comunicou que Belém não tinha teto. Para piorar a situação, eu não tinha levado roupa, escova de dentes. Enquanto matutava o que faria, avisto o Lazera, que, assim com eu, também estava lá pelo mesmíssimo motivo: tentar receber uma divida.
Vindo do nada, aparece um sujeito com cara de cobrador sugerindo: – Quem quiser ir pra Belém, a hora é agora! – Mas rapaz… Pela metade do preço, topamos todos. Eu, o Lazera, José do Carmo, Paulo Lima, uma mulher grávida e um deputado – não me perguntem o nome. Pra resumir: topamos! Na hora do embarque, a verdade. O avião era um jurássico Bandeirantes, a serviço dos Correios, abarrotado de malotes. O cobrador, na verdade, era o piloto. Sem saber, Quinze anos antes, fizemos o que a Ministra preconizou: relaxa e goza.
Foram os piores momentos que passei no ar. As únicas poltronas disponíveis eram as do piloto e a da grávida. Nós, pobres mortais, fomos “acomodados” em cima dos malotes. Levantar, nem pensar. O interior da aeronave foi feito pra anão. Nem parecia que estávamos num avião. Cigarro na boca, camisa arregaçada, braço pra fora, o piloto avisou: “se segurem, vamos decolar. Rezem pra chegarmos antes da tempestade” – Pai d´egua…
Não recebemos a divida, mas chegamos sãos e salvos. Comemoramos nosso memorável voo no saudoso Corujão.
Nélson Rodrigues estava coberto de razão: é preciso sorte até para chupar um picolé. Vai que a gente se entala com o palito.
cronista9@hotmail.com

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