Ophir Cavalcante & Brandão 9/12/13

11 de janeiro de 2014

OFHIR CAVALCANTE – ANTONIO CARLOS BRANDÃO.

No começo de 2014, no breve interregno de duas horas, perdi dois entes queridos. O primeiro, Tio Carlos. Horas depois, meu primo Ophir Cavalcante. Apesar dos laços sanguíneos paralelos (Tio Carlos era casado com a irmã da minha mãe e o Ophir era um dos filhos do Tio Níger, irmão do meu pai). Que eu saiba, eles jamais se encontraram durante o tempo que estiveram na terra. Quis o destino que partissem quase que ao mesmo tempo.
Brandão, como era mais conhecido, era um sujeito iluminado. Semanas antes de ser internado, 90 anos completos, trabalhava todo santo dia. Parece mentira, mas é a mais pura e cristalina verdade. Saía de casa em Copacabana em direção ao centro da cidade e só retornava no final da tarde. Aos sábados, frequentava assiduamente a missa na Igreja N.S. de Copacabana, na Hilário de Gouveia. Comungava, comprava o lanche e ia a pé pra casa, na Av. Barata Ribeiro esquina com a Prado Júnior – 9 longos e intermináveis quarteirões. Tio Carlos era um exímio violonista, durante parte de sua existência, levava uma vida dúbia: de dia trabalhava no SENAI, e nas noites, tocava violão. Foi parceiro de Hermínio Belo de Carvalho, Zé Kéti, João Roberto Kely, o gaitista Maurício Einhorn….Sabem aquele sujeito que você começa a papear e não quer parar? Assim era o Brandão. Antes de se mudar para a Zona Sul, Morou décadas na Rua Cândido Mendes, ao pegado a “Casa da Suíça”, point de inúmeras gerações de boêmios cariocas.
Perdi a conta das vezes em que ficávamos papeando, bebericando e ouvindo ele dedilhar com maestria o pinho sempre afinado. Depois, uma ida ao Capela, um boteco pé sujo porreta, traçar uma língua ao molho madeira, iscas de fígado acebolado, um filé à francesa – meu acepipe predileto. Em maio de 2013, a família se reuniu e lá estava ele – sorridente e fagueiro, olhos azulados de Sampaku – como no “Sétimo Selo” – jogando xadrez com a morte. Foi a derradeira vez que o vi.
Conheci meu primo Ophir nos anos 60, quando cheguei a Belém. A família Cavalcante sempre foi festeira, e apesar da diferença etária, o afeto logo nos uniu. Tenho guardada com carinho uma foto perdida no tempo. Tio Adiel, Tia Ruth, Tio Níger, Eliel – meu pai. E a segunda geração: Ana Maria, Dia, Ophir, Antônio Maria e eu – o primo caçula recém-chegado.
Não vou perder tempo falando sobre a trajetória vitoriosa do Ophir (os periódicos de todo o Brasil já o fizeram). Trajetória culminada com a até então improvável Presidência Nacional da OAB, onde poucos se lembram – foi ele que assinou a petição pedindo o impeachment de Collor. Parece pouco? Então tentem. Não bastasse isso, seu filho Ophir Cavalcante Júnior, seguiu a risca suas premissas e repetiu a façanha do pai.
Prefiro lembrar do Ophir pai, avô, irmão, esposo… E por falar em esposo, impossível falar do Ophir, sem citar, com respeito e admiração, sua alma gêmea e grande amor, desses que atravessam encarnações: Célia Medina Cavalcante.
Apesar de vivermos em um mundo interligado pela modernidade da informação, somente um dia desses fiquei sabendo que a doença que o levou era antiga. Vejam só quanto altruísmo! Para não incomodar a família e os amigos, ele guardou o segredo a sete chaves e só quando o desfecho era eminente, finalmente foi revelado. Um homem público que, até o último sopro de vida, soube honrar o povo do Pará. Um demiurgo que vivia em eterno plantão cívico, ardente de paraensismo, e, paradoxalmente, adorava reunir a família e colecionar amigos. Mas todos nós temos a nossa hora. Apesar de toda a luta, tinha chegado a sua vez.

cronista9@hotmail.com

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