Tempos de crise 16/8/13

11 de janeiro de 2014

Tempos de crise
Quando os desmandos, a omissão do governo, os voos de lazer de políticos em aviões da FAB, o governador Sérgio Cabral fazendo lotação do helicóptero oficial, levando pra lá e pra cá amigos dos filhos, babás, o cachorro de estimação. Quando os protestos e a crise que se avizinha nos convidam ao pessimismo ou até mesmo a depressão – está na hora de ler. Poesia, prosa ou até mesmo uma simplória revista em quadrinhos. Eu prefiro a releitura. Reler, sobretudo, aquilo que nunca se leu. Essas e outras confidenciei a um conhecido pouco chegado a leitura. Foi tiro e queda! Só que em vez de seguir meus conselhos e ler “Amor nos tempos de Cólera” ou se deliciar com a poesia direta e suave de Quintana, ele preferiu mergulhar de cabeça nas profundezas abissais do ardiloso Saramago e acabou se perdendo no hermetismo contido no relato de “Ensaio sobre a Cegueira”. Segundo ele: “um livro para doido varrido nenhum botar defeito”. Pode ser.
Um sujeito batuta, às vezes, um verdadeiro sábio, assim era o meu amigo Luis Roberto Meira. Enquanto viveu, teve uma relação direta e sem atalhos com a vida. Entre nós, não havia intermediação intelectual. Detentor de inúmeras qualidades, que repartia sem pedir nada em troca. Houvesse o que houvesse, sempre reservava uma palavra de consolo, um gesto de afeto para aqueles felizardos que comungavam de sua amizade. Trazia no coração uma medida de equilíbrio que era um dom de nascença, quem sabe herdado do velho Cécil. Equilíbrio que ele esbanjava para os outros, mas que lhe faltou no final da vida. E assim ele viveu até o último suspiro.
Em dado momento de nossas vidas, nos encontramos propositalmente numa das Bienais de Livro da vida. Entramos no Riocentro e nos despedimos, marcando encontro no final da tarde em frente ao estande da Nova Fronteira. À hora combinada, lá estávamos nós, carregados de sacolas cheias de livros. Vocês hão de perguntar por que nos separamos: é que um não queria influenciar o outro. Mas no final veio a surpresa. Ao conferirmos nossas aquisições, descobrimos que a maioria dos livros comprados eram os mesmos.
A crise do governo Collor corria célere. Desgoverno, escândalos, corrupção… O País ameaçava incendiar-se, os jovens caras pintadas saíram a rua para protestar pedindo a renúncia do Presidente, a imprensa pressionava os políticos com discursos moralizadores, e o Luis Roberto não estava nem aí pra crise. Sua preocupação era chegar em casa, guardar os livros e escolher onde íamos jantar. Horas depois, estávamos na Marques de Abrantes, aboletados numa mesa do “Lhamas”, estraçalhando um monumental filé à francesa. Montanhas de petit pois, batata palha, presunto fatiado e cebolas douradas. Enquanto o País ameaçava desmoronar, o horizonte andava borrascoso, meu amigo olhava distraído para as nuvens cinzentas, mas não mantinha o olhar fixo no pé-direito da crise. Muito pelo contrário! Baixava o olhar ao rodapé, pois o Brasil também estava no rés-do-chão.
No outro dia, passamos em revista os sebos do centro da cidade. E haja livros. Calados, porém vorazes, cumprimos a risca o ritual. Apartar o que interessa, avaliar bem a compra e depois pechinchar a exaustão. Lembro-me que ele adquiriu a preço de banana, as obras completas de Virgínia Wolf. Pegamos o metrô e retornamos a Zona Sul. Apesar do tempo nebuloso, foi um dia perfeito, como tantos outros haveriam de ser.
Hoje, a crise bate a porta novamente e me lembrei com carinho do inesquecível amigo. Se ele estivesse vivo, iríamos enfrentá-la de frente, conversas intermináveis, acepipes, e é claro – livros – muitos livros. Por que não?
cronista9@hotmail.com

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