A Arte de não fazer nada

2 de abril de 2009

Tenho um amigo que possui uma profissão única e invejável: fiscal da natureza. Ou seja, se dedica à sublime e difícil arte de não fazer nada. Há décadas começa o dia fazendo sempre a mesma coisa. Acorda, lê os matutinos, toma café e, ainda bubuiando, no fundo de uma rede, inicia os telefonemas para se atualizar, pôr em dia as novidades. Almoça cedinho (onze horas). Depois, liga a tevê e assiste aos canais de notícia. Esgotado, tira uma sesta até as quatro. Afinal de contas, ninguém é de ferro. Acorda, toma banho e vai à cata dos amigos. E são justamente as amizades seu maior paradoxo. Explico. Como não tem com o que se preocupar, se dedica de corpo e alma aos amigos. E olha que eles são muitos. Dorme, e no outro dia faz tudo sempre igual (como na letra de Chico Buarque). Vocês acham que é tarefa fácil? Então tentem.

Todo esse preâmbulo porque, na segunda, uma gripe (agora é virose) violentíssima me pegou de jeito. O corpo todo doía. Suei frio, uma tosse intermitente, uma febre terçã tomou conta do meu ser. Quando retirei o termômetro, não acreditei: 40.6 graus. Uau! Se botassem um ovo no meu sovaco, ficaria no ponto em poucos minutos. Tomei uma overdose de anti-térmicos, outra de antitussígenos, toneladas de vitamina C e me enfurnei no quentinho do meu edredon. Mas como apregoa o pessimista Murphy, muita coisa ainda estava por acontecer. A noite caiu e nada da família chegar. Tem coisa pior do que ficar doente e não ter ninguém pra cuidar da gente? Apesar do gosto de guarda-chuva velho na boca, a total falta de apetite, eu precisava me alimentar. O pior é que com a chegada da gripe, meus dois mais aguçados sentidos (olfato e paladar) foram totalmente anulados. Preparei um suquinho de laranja, abri um pacote de bolachas creme craker, lambuzei manteiga e enfiei goela abaixo. Para arrematar, um copinho de geléia de mocotó. Tirando a gripe – tem coisa melhor? Adormeci, tentando em vão ler um livro. Só acordei com os pingos da tempestade entrando sem pedir licença, janela adentro. Pai d´égua. Gripadíssimo, caindo pelas tabelas, e ainda pego chuva da madrugada.

No dia seguinte acordei pior, bem pior. Chegou-se a pensar em dengue, tal a quantidade de calafrios que acometiam meu corpo. Impossibilitado de me locomover, tratei de chamar o Laboratório Paulo Sergio Azevedo, em casa. Chegaram rapidola e me subtraíram hectolitros de sangue. Precisa tirar tanto sangue pra fazer uns examezinhos?

Passei o resto do dia razoavelmente bem, cheguei até a aventar a hipótese de mexer nas panelas no Baú Bistrô. Mas quando anoiteceu… Começou tudo de novo. Calafrios, febre, tosse… Mais uma noite gemendo. Calma lá! Apreendi como meu velho pai: quando algo dói, gema. Seja dor do corpo ou da alma. Incomoda quem está ao teu lado. Contudo, enquanto estiveres gemendo, não sentirás dor. Experimentem.

Como no dia anterior, fiquei jogado no fundo da rede, esperando a danada da gripe me largar de mão. E ela lá, renitente, a me perseguir como cães em filme de terror. Outra noite insone, mais uma noite passando mal. Quando esse suplício irá acabar?

Na quinta – como num passe de mágica – acordei sem febre, quase zerado. Eis aí a ligação entre eu e meu amigo do começo da crônica – aquele que não faz nada. Como ele consegue? Eu fiquei ilhado em casa por quatro longos e intermináveis dias e quase pirei. Repito: Como é que ele…?

cronista9@hotmail.com

O pão nosso de cada dia

2 de abril de 2009

“Felicidade é um hóspede discreto do qual só nos damos conta de que ele existe quando está de partida” (Theodor Adorno – filósofo alemão)

Era uma manhã radiosa, colorida, tais como as telas que o mestre Benedicto Mello sobejamente pintava. Minha fubica deslizava macia pelas ruas arborizadas da cidade. A verdade é que eu estava de bem com a vida. Banho tomado, camiseta de algodão, bermuda, chinela confortável. Meu primeiro destino matinal foi o Pão de Santo Antônio, à caça de antigos alfarrábios.

Quem me recebe – sorriso de piano estampado no rosto – é Armínia, simpática e competente, bota competente nisso, administradora do asilo. Confesso que nunca tinha entrado lá. Minto. Salvo uma ou outra incursão pela refrigerada Capela. Como toda boa anfitriã, Armínia ciceroneou-me pelas dependências do antigo e bem conservado casarão.

Fiquei impressionado com o que vi. Ao contrário da maioria dos asilos, o Pão de Santo Antonio é um primor. Nem parece um asilo. Está mais para um pensionato de luxo. Piscina, salão de jogos, salão de festas, assoalho reluzente, quartos e enfermarias bem ventiladas, banheiros, roupas de cama impecavelmente limpas, cinco refeições por dia (depois falarei sobre a cozinha) e uma equipe de prestimosos funcionários zela pelo bem estar dos velhinhos que lá residem. Ao passar pela secretaria, reencontro Cleide Acatauassu, cara amiga, e uma das mais fiéis colaboradoras do Pão de Santo Antônio.

Retorno ao meu inesquecível tour pelas incontáveis dependências do casarão. Enquanto me mostra tudo, minha anfitriã distribui sorrisos e afagos, uma palavra de conforto por onde passa. E acreditem: sabe de cor e salteado o nome de todos os velhinhos. Como vai, Bené? E você, Maria José, melhorou da gripe? Como vão os bisnetos, dona Antônia? Que dia lindo, seu Hamilton! Aliás. Por que será que a grande maioria dos que lá estão é de mulheres? Reparei também que todos os cômodos têm móveis, eletrodomésticos doados por abnegados e anônimos colaboradores.

Como não podia deixar de ser, fiz questão de conhecer a cozinha – e que cozinha! Para minha surpresa, encontro Patrícia Freire, nutricionista do pedaço. O que mais me impressionou na cozinha, além do número de refeições servidas diariamente – cerca de setecentas – foi o formidável fogão industrial – doado décadas atrás pelo Rômulo Maiorana. Enfim cheguei aos chalés. Mini-suítes com todo conforto possível. Sala, quarto refrigerado, cozinha, banheiro, varanda florida… Lá, casais de idosos vivem a vida que pediram a Deus. Têm segurança, companhia, assistência médica, lazer… E o principal: amor!

Fiquei surpreso ao saber como as voluntárias conseguem manter e prover digna e confortavelmente todos os velhinhos e ainda fazer novas obras no casarão. A resposta estava bem na minha frente: um adorável brechó coalhado de roupas, adereços, móveis… Essas e outras doações recebidas vão para o bazar, onde são vendidas regularmente pela melhor oferta recebida.

Faço uma pequena pausa, enquanto sorvo um copo de água geladérrima. Absorto, caminho com vagar pelos corredores centenários. Num dos quartos, uma simpática senhora me espreita pela nesga da porta entreaberta. Cumprimento-a com alegria e ela me indaga, os olhos rútilos, fixos em minhas madeixas grisalhas:

– Quando o senhor vem morar aqui?

Acho que estou ficando velho.

Só aí me lembrei o motivo da visita: os livros. Cadê os livros?

cronista9@hotmail.com

O outro lado da meia noite

5 de março de 2009

“O tempo, velho trapeiro da eternidade” (Machado de Assis)

De uma maneira ou outra, os livros nos fazem parar e pensar sobre nossas atitudes, sobre a vida que estamos levando. Sei muito bem o que é isso. Afinal de contas, desde que me entendo, eles me dão lições, me ensinam coisas que jamais aprenderia em outro lugar. Foi assim na semana passada, quando uma cliente ligou, oferecendo o acervo que havia pertencido ao pai. É sempre assim. O marido, o pai, o avô se vai e a família faz uma faxina geral nos pertences do finado. Os bens de valor, (imóveis, jóias, obras de arte, carros…) quase sempre, são disputados a tapa pelos herdeiros. Já o rebotalho…

Mas voltemos ao mote da crônica. Ao saber do meu interesse pelo acervo paterno, não se fez de rogada. Em minutos apareceu na livraria, o porta-malas do carro abarrotado de livros. Como de costume, separei os de mais serventia, descartando aqueles que os exércitos de traiçoeiras traças, divisões de vorazes cupins haviam engolido letras, palavras, lombadas, capas, capítulos inteiros. Para ela, pouco importava. Apressada, contou as notas do butim, enfiou o dinheiro na bolsa e tirou o time. No outro dia, tratei de separar o joio do trigo. Sidney Sheldon, Paulo Coelho, Morris West para um lado; Machado de Assis, Tolstoi, Eça, Monteiro Lobato, Pessoa, Pound, (apenas para citar alguns) pro outro. E foi justamente num exemplar carcomido de Sheldon – “O Outro lado da meia noite” – que encontrei a carta amarelada pelo tempo. Ela dizia mais ou menos assim:

“Amada filha. Apesar da distância que nos separa, em nenhum momento, deixei de te amar. Em nenhum instante, deixei de lembrar das fugazes ocasiões em que fomos, tentamos ser, uma família feliz. De quem é a culpa, quem tinha razão? Agora, de nada, pouco importa. Naquela época, seu velho pai era um jovem idealista, sonhador. Não estava preparado para o casamento, muito menos para ser pai – seu pai. Sua mãe me deixou levando você pra bem longe. Errei, erramos. Contudo, nunca é tarde para dar o braço a torcer, reconhecer que errei. Como você não responde minhas ligações, decidi fazer uso dessa para, humildemente lhe pedir desculpas. Quero, preciso recuperar o tempo perdido. Se você permitir, conhecer minha neta. Colocá-la no colo, embalá-la, contar as historias que contei pra ti. Lembra? Se você concordar, por favor, responda essa carta. Um beijo arrependido do pai que nunca deixou de te amar.”

Emocionado, conclui a leitura, colocando a missiva de volta no envelope. Será que ela sabia, será que a carta tinha chegado ao remetente? Como saber, o que fazer… Incontinenti, liguei para a filha.

– O senhor quer desfazer o negócio?

– Não é nada disso. Encontrei num dos livros que você me vendeu, algo que lhe pertence, que não tem preço.

– Já estou indo.

Quando ela chegou, estendi-lhe a carta que de direito, lhe pertencia. Enquanto lia a missiva paterna, seu semblante se transmutou. As mãos tremiam. Num improvável esgar, os lábios cerrados se entreabriram. Os olhos frios se encheram de lágrimas.

– Eu não sabia… Papai morreu subitamente, antes de postá-la para mim.

Fui tomado por um sentimento, uma tristeza danada. O orgulho, a destemperança, a insensatez, feridas insepultas, mágoas guardadas por anos a fio macularam, separaram inapelavelmente pai e filha. Uma família que tinha tudo para ser feliz.

cronista9@hotmail.com

Você já foi a Tracuateua?

5 de março de 2009

Fujo do carnaval como o diabo foge da cruz. Todo ano procuramos passar a quadra momesca num lugar tranqüilo. Esse ano escolhemos Tracuateua. O nome é complicado, esdrúxulo, cheio de vogais. O caminho é tortuoso, meio escondido, mas vale à pena chegar lá para conhecer e curtir as maravilhas que a natureza reservou para o local. Após duas horas de viagem, enfim chegamos à paradisíaca “Fazenda Vitória” município de Tracuateua – Região Bragantina.

A Fazenda (fundada no final do seculo XIX) tem de tudo um pouco. Lagos piscosos, onde todo final de tarde manadas de búfalos bubuiam, retornando a terra firme após pastar nas margens alagadas banhadas pelo Rio Caetés. Pela manhã, faça chuva ou faça sol, (mais chuva do que sol), revoadas de garças, maritacas, tetéus, papagaios barulhentos saem dos seus ninhos à cata de comida. O lugar é um convite explícito ao ócio. A começar pelas redes coloridas armadas por toda a varanda. E o que dizer das refeições? Começando pelo portentoso desjejum. Leite e coalhada de búfala, tapioquinha, mingal de milho, queijo de coalho derretido, pão feito na hora, sucos de todas as matizes, frutas de todas as cores e sabores… O almoço não fica atrás. Carneiro assado, carne de sol, galinha ao molho pardo, feijão tropeiro, pirão de leite, banana frita, tucunaré na manteiga… Chega? Depois desse pantagruélico banquete, só uma severa caminhada pelas redondezas a fim de fazer a digestão.

Mas o que mais me encantou foi conviver com as crianças hospedadas na fazenda. Fazia tempo que não acontecia isso. No quarto ao lado, um casal de gêmeos aprontava todo tipo de estripulia. Tinha também o Gabriel, o irmão mais velho, curtindo de montão a companhia do pai. Tinha a Samantha, um doce de menina. E tinha o Yude, um japonesinho adorável, só que muito esperto. Depois de muita insistência, ele me convenceu a jogar uma partida de xadrez. Pra quê… Foi eu vacilar e ele assoprou meu bispo. Argumentei dizendo que no xadrez isso não existe. Só se assopra quando jogamos damas. Sabe como é tio. Se colar colou – respondeu ele. O jogo terminou quando ele reinventou mais uma regra – torre andando em ziguezague. Aí já é demais. A verdade é que cada uma daquelas crianças me fez sentir uma enorme saudade dos tempos em que meus filhos eram pequenos. Por isso, ouso desdizer o poeta: Filhos – melhor tê-los.

Não bastasse tudo isso, ainda tem passeio de chalana, caiaque, búfalo mansinho, cavalo trotador, carneiro comedor de manga. Tem também o Didi, o coringa da fazenda. Didi faz de tudo um pouco. Ora pilotando a chalana e contando “causos”. Num piscar de olhos lá está ele em cima de um búfalo, cuidando dos cães… A noitinha se transmuta em garçom, somelier… Grande Didi.

Não poderia esquecer dos Martins. Mãe, pai e o filho Robson. Como todo empresário, poderiam se manter distantes, frios, profissionais. Não foi o que aconteceu. Desde o instante que colocamos o pé na fazenda, eles se desdobraram para nos proporcionar, fazer o possível e o impossível para tornar nossa estadia inesquecível.

Desperto de minha catarse com o badalar do sino avisando que nossa última refeição está servida. Me quedo ensimesmado, triste. Nosso tempo se esgotou, é hora de partir.  No coração, uma certeza. Se o paraíso existe, um pedacinho dele, está aqui.

cronista9@hotmail.com

Um programa diferente.

9 de outubro de 2008

Semana passada minha fubica resolveu me deixar na mão. E olha que ele havia acabado de sair de uma minuciosa revisão. Pneus calibrados, velas, pastilhas de freio, filtros, óleos, fluidos trocados. Vá se entender. E o pior de tudo: chovia a cântaros e eu estava longe, bem longe de casa. Sem seguro, sem reboque, sem celular (furtado no mesmíssimo dia). Estacionei no meio fio e procurei em vão um táxi. Neca-neca. Nessas horas sou obrigado a acreditar nas premissas pessimistas da Lei de Murphy. Ando meia quadra e encontro um providencial ponto de ônibus.

Desorientado, indago a um ambulante qual me levará próximo de casa. Momentos depois ele chega. Lotadéssimo. Fazer o que… Enfio o relógio no bolso, a carteira debaixo da camisa e embarco em meio à turba ensandecida. Lá pelas tantas, um lugar se apresenta. Ao me acomodar me lembrei de uma frase lapidar de Gogol – “O trem é o melhor lugar para meditarmos” Quem não tem trem, caça de ônibus. Diante de mim, através da janela embaçada, a tarde esmaecia.

Abro a bolsa e retiro caneta e uma folha de papel. Quem sabe esse passeio forçado não fornece material para uma crônica? À minha frente, uma mulher mastiga uma bolacha. Ao meu lado, um escolar envia uma mensagem pelo celular. O cobrador conta a féria. Açodado, o motorista porfia com sua sombra. Ninguém me nota – sou mais um na multidão.

Esqueci de contar: era uma sexta-feira, a mulher viajando, os filhos curtindo a deles e eu enfurnada num ônibus. Elocubrava essas e outras quando dois sujeitos sentam ao lado. Égua da algazarra. Desnecessário dizer que não escrevi uma linha sequer. Impossível não escutar o que eles diziam:

– A cerveja, a carne de sol, a caranga nos espera.

E eu salivando. A inveja é uma droga!

Nesse ínterim, o veiculo engasga e para de súbito. Acreditem. Tal qual minha fubica, o ônibus também deu prego. Foi aquele escarcéu, um Deus nos acuda. Sai todo mundo a espera do substituto. Ao contrario de quase todos os ocupantes (inclusive eu), meus colegas de infortúnio não estavam nem aí.

– Vamos rachar uma Van!

Falaram isso olhando pra mim. Peguei corda e topei rapidola. É bom que se diga que estávamos no meio da Duque de Caxias. Numa das vicinais da Avenida, eles me fizeram um convite irrecusável:

– E aí velho. Vamo tomar uma no “Dedão”?

Mas rapaz… E ainda tem gente que duvida das coisas que acontecem comigo. E o pior é que acontecem mesmo! Será que tenho imaginação Julioverniana?

Entramos no “Dedão” (um pé sujo de responsa) e mandamos ver. Como abomino cerveja e não havia minha bebida predileta, mandei ver uma cuba esperta. Gente simples é outra coisa. Trataram-me como um irmão. E haja tira-gosto: charque acebolado, peixe frito, carne de sol, caranguejo, pimenta… Só aí fiquei sabendo o porquê do nome do boteco – Dedão. É que o garçom levava os acepipes com o dedão enfiado no prato.

Após ene Cubas, me despedi e tirei o time. Há muito tempo o cronista não fazia um programa diferente. Corajoso, pensei com meus botões: pra que fazer somente o que os outros esperam de nós?

Molhado até os ossos, ligeiramente cossado, enfim cheguei em casa. O porteiro demora a me reconhecer. Entro no elevador afrouxando o cinto, desabotoando a camisa, tirando o cadarço da chulipa, torcendo para não encontrar ninguém. Quem disse?

Ao abrir a porta do elevador, dou de cara com um vizinho vestido de Nike da cabeça aos pés.

– E aí Denis – vamos malhar?

Quarta-feira 13.

29 de agosto de 2008

Existem dias que deviam ser descartados, não servem pra nada. Sabe aqueles dias em que nada de bom acontece? Dias em que o time joga tudo, mete quatro bolas na trave e perde com um gol de mão aos 48 do segundo tempo. Dias em que você chega do trabalho, caindo pelas tabelas, e a mulher, nos píncaros da TPM, cisma em te aporrinhar. A filha briga com o namorado e desconta na gente. Sabe aqueles dias em que você procura os óculos, a chave do carro, a chinela, o aparelho de barbear, e não encontra? Dias em que você acorda feliz da vida e é obrigado aturar o inimigo figadal, ouvir as falácias sibilinas do genro, as potocas e chatices de um bebum anônimo Dias em que cortam nossa luz, o cheque polpudo volta, o médico faz forfait…  Pois é.

Foi num desses dias sombrios, aziagos, em que nada dá certo, que o cronista apreendeu a valorizar os pequenos prazeres da vida, aceitar as mazelas que sempre irão acontecer. Ao chegar à livraria, uma leva de más noticias: o ar refrigerado pifou, a internet não entra, a privada entupiu, Emily, minha dileta secretaria deixou um bilhete, dizendo que passou no concurso da Caixa (implícito que não volta). Não bastasse tudo isso – acreditem – um passarinho Kamicase, deu uma rasante e batizou minha cabeça com um torpedo fenomenal. Égua da momó!

Aporrinhado, invejei o Mashico (para quem, aliás, o amigo João Carlos Pereira já escreveu uma crônica. Trata-se de um pirado que perambula, acendendo fósforos pela cidade). Segundo ele, a vida é fácil. Somos nós que a complicamos. Conferi o relógio: 8h30. Quarta-feira, 13.  O dia mal começou e os pepinos se acumulam. O que mais há de acontecer? 

Apesar de nunca ter cultivado superstições, sou obrigado a acreditar nas premissas pessimistas da Lei de Murphy (querendo ou não, quando a torrada cair no chão é quase certo que o lado é o da manteiga) Pensem nisso. Conformado, resolvi esfriar a cabeça. Primeiramente, fui ao caixa eletrônico verificar o saldo. Ufa! Ainda bem. Tudo nos trinques. Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca termine. Ao lado, um desconhecido gesticulava aborrecido. “Meu saldo está negativo”. E eu com isso. Próxima parada – Extrafarma. Remédios. Fazer o quê? Pra rinite, colesterol, coração. Quando engatei a primeira marcha, ouvi um estrondo. Um motora desavisado abalroou a traseira de outro veículo. Minha fubica estava a centímetros dele. Por pouco muito pouco mesmo, não fui atingido.  Pensei com meus botões: a bruxa está solta.

Desliguei o celular, descartei o relógio. O que iria acontecer? A família, os amigos, os funcionários, os credores sentirão minha ausência? Sejam pacientes – a resposta vos aguarda no final da crônica.

Entrei no carro e saí sem rumo. Entrei numa locadora e aluguei “A Felicidade não se compra”. Feito isso, entrei numa igreja e orei por mim, por todos nós. Travestido de turista, admirei as obras do Museu do Estado, de Arte Sacra, as obras inacabadas da Igreja da Sé, as ruínas do Instituto Histórico e Geográfico. Aborrecido, cara de poucos amigos, fiz um providencial pitstop numa barraquinha, onde sorvi sequioso um coco gelado, troquei dois dedos de prosa com seu Juvenal (simpático vendedor) que me fez um breve relato de sua vida. Sem chorumes (apesar da vista turva, das mazelas que o destino lhe reservou) sem saber, deu-me inequívoca lição.

– Veja bem, doutor.Todos os dias, as cinco em ponto estou de pé. Minha mulher tirou o time. Meu filho caçula enveredou pelo crime e deixou três bacuris pra eu criar. Depois disso, larguei a bebida e continuo lutando. E o senhor: tá mofino por quê?

 

cronista9@hotmail.com

Viajar é preciso.

21 de agosto de 2008

Ao apagar das luzes do mês de julho, me vi obrigado a engolir um mala sem alça. Sabem aquele sujeito que se apraz, aporrinhando seu semelhante? Pois é. Imprensado na fila de um supermercado, não tive como escapar. Puxando assunto, ele perguntou:
– Você não vai viajar?
– Não. Aproveitarei para ler, escrever, arrumar minhas tralhas.
– Que programa insosso. Estou indo pra China.
Me deu vontade de mandá-lo pra Cochabamba. China, na antevéspera de uma Olimpíada? Que eu saiba, ele mal fala o português. Mandarim, então, nem pensar… Será que ele sabe o que lhe espera do outro lado do planeta? Carne de cachorro, macaco guisado, gafanhoto torrado? Fechei os olhos e visualizei a cena. Ele e uma leva ensandecida de turistas, à bordo de uma excursão mambembe, galgando as íngremes e tortuosas muralhas chinesas. Vai que é tua, Taffarel.
Ao contrário da maioria, prefiro viajar sem lenço e sem documento. Tal qual meu velho e amado pai. Belém-Brasília sem asfalto, à bordo de uma Vemaguete três cilindros. Hospedarias desestreladas, quarto comunitário, prato feito, banheiro no quintal. Querem saber a verdade? Apesar dos pesares, foi o maior barato! Do mesmo jeito e maneira conheci o Nordeste, o litoral paulista, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul. Que saudade de Bento Gonçalves, Caxias do Sul, a festa da uva, os chocolates de Gramado, Canela.
Bom mesmo é botar o pé na estrada, trocar pneu, comer numa espelunca, dormir numa biboca, conhecer vilarejos, trocar idéias com os moradores. Qual é a graça de viajar na viagem dos outros? Acreditem: tem um montão de gente que só viaja desse jeito.
Quando vejo as colunas sociais anunciando os périplos dos novos-ricos, fico penalizado. Depois não sabem por que o fisco cai de pau em cima deles. Queriam o quê? Fulano comprou uma lancha de 200 pés, uma Mercedes de 12 cilindros, passou o “revèillon” em Monte Carlo (olha o Caciolla). Será que nunca ouviram falar sobre sinais aparentes de riqueza? Milionário que se preza não faz isso. Vocês já viram alguém noticiar a viagem de Antonio Ermírio de Morais, Eike Batista, Bené Mutran? Novo rico é flórida! Adora aparecer.
Um dia desses, li no jornal uma nota hilária. Como é que existem pessoas que têm a cara de pau de pagar pra serem notícia? “Fulano de tal foi convidado (e aceitou) participar de um Congresso em Bali.” Desde quando alguém é convidado pra congresso? Que eu saiba, só doutores, ex-ministros são convidados a ministrar palestras pelo Brasil e o exterior. A arraia miúda paga a inscrição, parcela a passagem, a hospedagem, assiste à palestra inicial. Como pinto no lixo, se esbalda, saca fotos, recebe o certificado (depois emoldura), compra souvenir, volta pra casa devendo os tubos e não apreende lhufas.
No instante em que botam o pé em Belém, reúnem a patuléia, distribuem a larga brindes de 1.99, contam vantagens. “Bali é sensacional!”. Como a maioria dos puxa-sacos nunca ouviu falar, nem imagina onde fica, aplaude e engole as potocas. Vocês conhecem alguém assim?
Para aqueles que almejam seus quinze minutos de fama, uma dica de suma importância: escolham um local inóspito, tipo Cazaquistão, Alasca, Madagascar… E não esqueçam: Antes de viajar, contratem um assessor de imprensa sedento de chem. Pra quem não sabe, chem é sinônimo de propina, ponta. Mas uma coisa. Tirem fotos. Feito isso, é só aguardar.
Por essas e por outras, prefiro ficar na minha. Quando o sufoco passar, quando a patuléia retornar, (da China, Mikonos, e coisa tal) sigo na contramão e vou pro sal. Cerveja gelada, peixe barato, caranguejo graúdo, estrada, praia vazia. Sem algazarra, bafômetro…
cronista9@hotmail.com

Ensaio sobre o passado

14 de agosto de 2008

O retrato que eu te dei / Se ainda tens não sei/ Mas se tiver, devolva-me…” (Leno e Lílian)

 

 Se um Oficial de Justiça quiser me intimar, se um credor quiser me cobrar, se um desafeto quiser tirar satisfação, não encontrarão a menor dificuldade. Faça chuva ou faça sol, todos os finais de tarde, tal qual um pássaro migrante, o cronista retorna pro aconchego do ninho. Como de costume, toma uma chuveirada gelada, veste a bermuda surrada, prepara uma generosa dose de malte, um tira-gosto esperto, coloca um vinil na vitrola. Feito isso – dá uma de Bilac – perde o senso, ouvindo estrelas.

Anteontem, sem que nem porque, quebrou a rotina ao amesendar-me com o leptop. Pra quê?

 Ao abrir a caixa de mensagens, foi surpreendido pela missiva duma antiga colega do Colégio “Andrews” (tempo em que o cronista morava no Rio). Dizia mais ou menos assim: “Li uma crônica hilária (Um Durango na Daslu), replicada à exaustão na Internet. O autor era tal de Denis Cavalcante. É aquele mesmo Denis? Eu sou a Sheila. Estudamos Latim, Literatura, Geografia na sua casa, na “Marquês de Olinda”. Você foi pro norte né?  Lembra de mim?” 

Apesar das décadas passadas, minha memória permanece intacta. É lógico que eu lembro da Sheila. Como esquecê-la? Cabelos encaracolados, lábios carnudos, coxas roliças, mãos de fada, colo farto, voluntariosa. Rosto de menina, corpo de mulher. Uma mina, um pitéu. Era assim que se nominavam as gatas naquele tempo. Me deu uma saudade… Saudade dos folguedos, das brincadeiras, das escapadas até a Sears – o primeiro shoping, a primeira escada rolante do Rio de Janeiro. Como esquecer os voleios, as fintas durante as aulas de Botânica, ministradas no Parque Laje, no Jardim Botânico? O rala-e-rola sob os caramanchões floridos, a queda desastrada, o joelho ralado, a monitora passando o ardido merthiolate, e Sheila assoprando, tentando minimizar minha dor.

 Foi com ela que curti o primeiro por do sol na Enseada de Botafogo. Foi com ela que contei as estrelas do céu, foi com ela a primeira rusga no recreio – o motivo? Já nem sei. Foi  ela que me concedeu o primeiro beijo, furtado no banco da Praia Vermelha. Foi com ela que assisti, uma pá de vezes, (no escurinho do cinema Azteca) ao “Menino de Engenho”. Inocente, contrito, apaixonado, tal qual o protagonista da película. Foi com ela que arquitetei planos impossíveis. Fugir de casa, seqüestrá-la para Teresópolis. E agora, quando a memória esmaecia, Sheila reaparece, desenterrando fantasmas insepultos.

Relembrei a dor do namoro que nunca existiu, que só aconteceu nas minhas fantasias. E o pior de tudo: quando a flagrei debaixo da escada, flertando com um anônimo. Naquele dia, meu mundo caiu. É – cara, colega – revelo-te agora em primeiríssima mão. Eras, fostes tudo, ou quase tudo, pra mim. Orgulhoso, magoado, engoli o choro. Tal qual um Mustang, galopei pra casa. Só aí entreguei os pontos.

– Mãe! Quero morrer!

Tudo isso me veio à mente, ao ler a mensagem da Sheila. Será que ela sabia disso? Creio que não. Garotas sempre fizeram, sempre farão gato e sapato conosco. Contudo, o tempo é cruel, crudelíssimo. Hoje, minha musa jaz solitária, remoendo saudades, confinada em seu exíguo apê, em Laranjeiras, é refém da matilha preguiçosa de siameses, do controle remoto, dos netos, das recordações.

Por todos os motivos acima citados, achei por bem não estender nosso papo virtual. Pra quê? Sheila faz parte de um passado irretornável. Melhor guardá-lo numa caixa hermeticamente fechada. Após tanto tempo, eu, ela, todos nós, jamais seremos os mesmos. O que passou, passou.

cronista9@hotmail.com

Ensaio sobre a amizade.

8 de julho de 2008

Uma madrugada dessas, acordei tomado de amores e saudades pelo Babalu. A grande maioria dos leitores não sabe e nem tem obrigação de saber de quem se trata. Babalu, ou melhor, Luis Roberto Coelho de Souza Meira, foi, é, e sempre será, um dos meus mais diletos amigos. Éramos tão dispares, que até hoje não sei como nos tornamos amigos.

Ele era Tricolor, eu Alvinegro. Ele curtia os Beatles, eu, os Rolings Stones. Ele era centrado, linear, contido. Eu açodado, pirado, intempestivo. Opostos que se atraiam,“O Gordo e o Magro, Pepe Legal e Babalu”… Alcunha carinhosa dada pelo Toninho Klautau.

Luis Roberto era tudo de bom. Por vezes angustiado, quase sempre brilhante, iluminado. Acima de tudo amigo. Desde a mais tenra idade, foi cobrado por tudo e por todos. Pela avó opressora, pela família, pelos mestres, pelos colegas…

Foi ele que avalizou minha primeira duplicata. Foi ele que me apresentou ao Abade, “Papai Chuí”, Cabral e as pescarias. Foi ele que quando me aperreei, me emprestou uma pequena fortuna (sem pedir garantia alguma). Foi ele que me amparou quando claudiquei. Foi ele que me consolou quando meu pai partiu. Foi ele que insistiu para criarmos o Baú – nosso alfarrábio. Foi ele que alicerçou a amizade com a Rose – sua companheira, amiga e confidente. Grande Rose. Foi ele, (sem saber) que inspirou minha primeira crônica – na tarde chuvosa e tristonha após seu sepultamento. O titulo? “Meu amigo de fé, meu irmão camarada.”

Foi ele também que atiçou minha paixão pela leitura. Estávamos na Bienal do Livro. Chegamos cheios de expectativas. Ingênuo, sugeri que compartilhássemos os livros a serem comprados. Lembro como se fosse hoje, sua réplica rascante. “Livro, revolver e mulher, não se reparte. Vamos marcar hora e local para nos encontrarmos” E assim foi.

Além da paixão pela literatura, muitas coisas nos uniam. O gosto pela aventura, a esbornia, a culinária, a família, os amigos, o Rio. E foi no Rio que curtimos inolvidáveis momentos. No Amarelinho, no Caneco 70, Lord Jim. Garimpando alfarrábios insepultos pelos sebos do centro da cidade.

Vivíamos numa eterna e saudável disputa. Se eu lhe apresentei os acepipes do “Manolo”, ele me levou ao “Adegão Português” – onde saboreei o melhor bacalhau da minha vida. Se eu lhe levei a Livraria Argumento, ele rebatia me levando a Timbre. Eu vinha de Cony,  Rubem Braga. Ele mandava Camus, Nelson Rodrigues. Não tinha, nunca teve combate.

Pra falar a verdade, jamais quis ou tentei supera-lo. Até porque era missão impossível. Nos derradeiros meses em que desfrutei de sua companhia, a saúde combalida, ia a sua casa nos finais de tarde tentando acalentar sua mente inquieta.

Não sei se foi o destino, se foi o acaso. Mas meu amigo deu seu ultimo suspiro nos meus braços. Numa segunda-feira modorrenta, encontrei seu corpo esparramado no sofá. Na mão direita, um livro entreaberto. Na esquerda, um cigarro apagado. Catatônico, deitei-o no chão frio, esmurrei seu coração inerte. Pus meus lábios trêmulos sob os seus, numa ultima e desesperada tentativa de trazê-lo de volta a vida. Tudo em vão. Deus já o tinha levado.

Hoje, é sexta-feira da paixão. Como nos velhos tempos, esperá-lo-ei na barraca do Zacarias. Aboletado em nossa mesa cativa. Pedirei uma cerveja, ½ dúzias de unhas, outro tanto de pasteis. Quem sabe um milagre acontece e ele aparece?

Se nada disso der certo, mergulharei nas águas mornas da Praia do Farol. Quem sabe elas levem pra bem longe a saudade, a dor que há dentro de mim.

Uma abençoada Páscoa.

A Repartição

8 de julho de 2008

“Repartição pública é como uma tela de Renoir. Exuberante de longe; pavorosa, quando se vê de perto.”

Um dia desses esbarrei com uma ex-colega de trabalho. Pouca gente sabe; mas o cronista já foi funcionário público. Adorei de montão receber meu primeiro salário, sala, cadeira, armário, 13? … Mas alegria de pobre dura pouco. Como tudo na vida, o emprego passageiro deixou boas e más recordações. A parte boa foi conhecer, me relacionar, fazer novos amigos, tentando entender os meandros da “burrocracia” governamental. Antes, as coisas eram mais fáceis. Depois, tudo ficou difícil. Até para apontar o lápis precisava autorização. – Égua! Tu és doido! Acabou o papel da impressora, o copo descartável. O que fazer? Uma requisição para adquirir o mesmo. O tempo? No mínimo uma semana. Como todo brasileiro, dava meu “jeitinho” pedindo emprestado na sala ao lado. Pra tudo na vida existe uma saída. Até em repartição.
Até que um dia caí doente. Um misto de virose, gota, pavor, de dar de cara com a bruxa que habita toda repartição. Sorte que ela ia quando queria, geralmente á tarde, quando eu já estava bem longe. Não fosse isso, já teria torcido o pescoço da mocréia. Se Moisés tivesse conhecido a megera que me perseguia não teria escrito um dos mandamentos: não matarás! Mas voltando a virose, acordei baleado, e na impossibilidade de ir ao trabalho, liguei para meu superior hierárquico e avisei:
 – Hoje não tenho condições de trabalhar.
 – Você vai se ausentar quantos dias?
– Sei lá! Quem pode mensurar uma virose?
– Se passar de cinco dias, você vai precisar de atestado médico.
Precavido, procurei um médico que depois de me examinar, deu-me quinze dias. No final da semana melhorei e segunda retornei serelepe ao trabalho. Pra quê…
 – O que você está fazendo aqui? Ainda faltam dez dias, vai pra casa! Assim é uma repartição.
É bom que se diga que diante das circunstâncias, fui um recordista. No meu setor teve gente que implorou para sair, teve crise nervosa… Como não puxei saco, nem aceitei cabresto, até que durei muito. Foi difícil assimilar que em repartição poucos dão “bom dia”, “muito obrigado”então… Apesar de avisado por experientes raposas felpudas, ainda no primeiro mês bati de frente com a manda-chuva do pedaço e sua puxa-saco mor. Foi um horror! Aí começou minha derrocada. Tenho todos os defeitos do mundo. Só não levo desaforo pra casa.  Deu no que deu.
Durante minha breve estadia no batente procurei dar o melhor de mim. Acordava cedo e na maioria das vezes era o primeiro a chegar. O problema era o inicio, e o final da manhã. Uma de minhas colegas de trabalho vivia, vive, de mal com o mundo, (mas para alívio geral dos que lá ainda penam, está para se aposentar). Sacam aquelas pessoas que estão sempre com TPM? Achou de pegar no meu pé. Até a respiração dela incomodava. Isso para não falar no arrastar dos pés e a voz de taquara rachada. Ligava no começo da manhã “a cobrar”, e vociferava:
– Pede para a fulana mandar meu carro. Acreditem! Além de não ter horário ainda possuía motorista privativo. É por isso que o país não vai pra frente. E eu:

 – Me larga de mão! Pega o Pedreira-Nazaré, e salta aqui na frente. Os colegas vibraram quando depois de muito penar, mandei-a pros quintos dos infernos. Foi o começo do fim. O óleo da fritura já estava pelando, como era de esperar, levei cartão vermelho. Não culpo meu algoz. Em seu lugar faria o mesmo. Entre uma puxa-saco submissa e um doidivanas pavio curto: quem escolher?
Hoje, sinto falta do salário, do cafezinho no meio do horário, e do bolão acumulado da repartição, que ainda espero vencer.
A aposta? Quando é que ela irá sorrir?

 – Me larga de mão! Pega o Pedreira-Nazaré, e salta aqui na frente. Os colegas vibraram quando depois de muito penar, mandei-a pros quintos dos infernos. Foi o começo do fim. O óleo da fritura já estava pelando, como era de esperar, levei cartão vermelho. Não culpo meu algoz. Em seu lugar faria o mesmo. Entre uma puxa-saco submissa e um doidivanas pavio curto: quem escolher?
Hoje, sinto falta do salário, do cafezinho no meio do horário, e do bolão acumulado da repartição, que ainda espero vencer.
A aposta? Quando é que ela irá sorrir?