Chegou o verão

23 de julho de 2009

E chegou novamente o modorrento mês de julho. Mês em que Belém, tal qual um grande balão cadente, se esvazia, fica tranqüila. As famílias vão para Mosqueiro, Salinas. As mais abonadas, Rio, America do Sul, Europa… A verdade é que nos últimos dez anos, não fui um só fim de semana para Salinas. Não me queixo. Em compensação, me quedo satisfeito na metrópole vazia, latifundiário todo poderoso, tomo conta da cidade como ela fosse só minha.

Acordo cedo, abro a janela, e respiro a brisa morna da manhã que promete ser das mais belas. O céu está azul, a lua cheia some aos poucos no horizonte se preparando enfim para dormir. As praças, as padarias estão às moscas. No meu prédio, poucos carros jazem na garagem sombria. Como moro no último andar, aproveito para perscrutar com mais vagar a cidade adormecida. A vista cansada ainda consegue alcançar o telhado do Theatro da Paz, o cume do coreto Do Largo da Pólvora e suas árvores centenárias. No apartamento em frente, uma senhora gordíssima derrama o busto enorme no parapeito da sacada. Ao lado, toalhas e peças íntimas dão um colorido bizarro, aleatoriamente pendurados no varal improvisado. Na janela do apartamento ao lado, um morador anônimo parece possuir o dom supremo da ubiqüidade. Fala ao celular, pita um cigarro, afaga o gato preguiçoso, enquanto observa o vai e vem dos carros. Que vida boa!

Chega de moleza – o dever me chama. Mas um dia, ainda hei de seguir à risca, a máxima de Ginsberg, que dizia que nunca é tarde para não fazer nada. Mas por enquanto, vou seguindo as premissas do filósofo Kushida Sensei: “Não se queixe do trabalho. Você terá tempo de sobra para descansar quando estiver morto”. Então… Vamos ao trabalho!

Pego o carro e rumo para o Ver-ô-Pêso. Até ele está diferente. Estacionamento à vontade, barracas vazias, fartura de verduras, frutas, carnes e peixes. Bom, bonito, mas nada barato. Resolvo comprar dois quilos de patas de caranguejo, cheiro verde, cebolinha, pimenta de cheiro e tomates. Na Ocidental do Mercado, peço pra dona Vanda moer dois reais de pimenta e cominho e um tantinho assim de colorau. Quando chegar em casa, retirarei as interseções das patas do saboroso marisco e refogarei a massa em azeite e condimentos. Pra acompanhar, feijão preto, arroz soltinho e farofa de cebola dourada. É bom demais!

Ao contrário das grandes cidades, Belém (em alguns aspectos) mais parece uma aldeia de muro baixo. Distante, bem distante, diferente, bem diferente de metrópoles como São Paulo, em que vizinhos do mesmo prédio mal se conhecem, mal se falam. Onde as pessoas ficam juntas sozinhas – Uma selva de pedra, um zoológico humano, uma grande cidade, uma grande solidão. Belém, graças a Deus, ainda não!

Ando até o final da feira pra comprar açaí. Peço pra embalar dois litros do grosso, um tanto de farinha de tapioca e sigo cantarolando “aquela” canção do Roberto. À minha frente, abarrotada de compras, uma jovem mãe empurra diligente um carrinho de bebê. Ao lado, agarrada a bainha da saia materna, a filha sussurra baixinho:

– Mamãe, você gosta de mim?

– Gosto.

– Muito?

– Muito!

A cena pungente fez meu combalido coração se contorcer. O suor porejar pelo corpo, latejar as têmporas, o peito doeu-me todo. Lembrei-me de minha filha Juliana. Por quê será que os filhos crescem? Há quanto tempo ela não me pergunta isso?

cronista9@hotmail.com

De volta ao paraíso

23 de julho de 2009

Semana passada, fui peremptório: durante as férias, prefiro ficar em Belém. Contudo, toda regra tem exceção. Na quinta, um casal de amigos nos convidou (ou eu me convidei?) para passar o fim de semana em sua aprazível residência, na praia do Maraú.

Na sexta, arrumei meus bregueços e partimos pra bucólica. Por incrível que pareça, o trânsito estava tranqüilo. Talvez por isso, resolvi seguir viagem direto, sem escalas. Resisti aos camarões, às frutas oferecidas aos montes à beira da estrada. Só dei uma paradinha numa biboca em Santa Barbara, a fim de comprar uma irresistível carne de sol. Já na ilha, me rendi aos saborosos pastéis do Oliveira.

Chegamos ao Maraú cerca de uma hora e meia depois. Os anfitriões nos esperavam com tapete vermelho estendido na porta. A casa é tudo de bom. Grandiosa e ao mesmo tempo aconchegante. Aceitei sem pestanejar uma dose generosa de puro malte, oferecido pelo meu amigo Charles, e me enfurnei na cozinha, território da Dona Val, e seu sorriso de piano. A quatro mãos, tratamos de preparar alguns acepipes para a turma. Escondidinho de bacalhau, carne de sol acebolada e outras milongas mais. De repente, não mais que de repente uma romaria de barcos cortou as águas tranqüilas da enseada. Eram dez, vinte, trinta barcos… Perdi a conta, em comboio rumo à pescaria.

Passamos horas agradabilíssimas, bebericando, petiscando, conversando. Quando me dei conta, já era noite. Tomei um banho rejuvenescedor e jantamos. Depois da sobremesa, cada casal se aboletou num sofá para assistir o show do Rei – Roberto Carlos. Como era de se esperar, dormimos cedo. No outro dia, caminhamos pela praia deserta. A maré estava vazando. A paisagem, luxuriante. Ilhéus operosos, recolhiam camarões nos matapis abarrotados. Namorados trocavam beijos à sombra de uma arvore. Garças ciscavam nos lagos formados pela maré vasante. Crianças espanavam a água…

Bem a nossa frente, um barquinho solitário retornou da pescaria. No fundo do casco, um filhote pesando uns seis quilos. Pechincha daqui e dali, e almoço está garantido. Seccionei o rabo e a cabeçorra do bruto pra fazer o caldo da moqueca, retirei com cuidado a gordíssima ventrecha e temperei, temperamos (eu e a diligente Val) o resto da carcaça. Nesse ínterim, outros amigos chegaram. Beber, comer, jogar conversa fora e viver. Tem coisa melhor? A farra foi até altas horas. Charles dando atenção a todos; Alberto e sua guitarra imaginária; Carlos Eduardo e sua alegria de viver… Com eles aprendi muitas coisas, dentre elas, que a vida é curta, efêmera, passageira. Então, pra quê acrescentar dias em nossa vida; em vez de vida em nossos dias? Vitorio Gassman tinha razão: O único erro de Deus foi não ter nos dado duas vidas: uma para ensaiar os erros. E outra para atuar, viver. Feliz aquele que antes de partir, amealhou amigos, riu muitas vezes, chorou sem pudor, falou a verdade, e amou – muito. Acho que bebi demais…

No domingo o dia amanheceu lindo. Aproveitei para ir até a ponte do Cajueiro, à cata de O Liberal. Na volta, dona Val me aguardava com um pratarraz de macaxeira fumegante. Espalhei manteiga à beça e mandei ver. De quebra, uma coca bem gelada. Arrumamos a tralha, e a contragosto, fomos embora. Os filhos nos esperavam ansiosos para o almoço domingueiro.

Na volta, vim matutando. Ainda vou comprar uma posse no Maraú. Quem sabe um dia, eu construa uma casinha por lá.

cronista9@hotmail.com

VOCE CONHECE BALTIMORE?

10 de julho de 2009

Ate ontem,o cronista tambem nao conhecia. Mas, gracas as atividades profissionais de minha mulher,  ca estou eu aqui.  A viagem ate Nova York foi longa e cansativa. Sem contar as cinco horas dirigindo ate chegarmos a Baltimore.Dormimos o sono dos justos. A bem da verdade – apagamos. No outro dia, fui acordado por um barulhento despertador. Esqueci que a mulher tinha coffee-break as seis da matina. Quem mandou casar com medica…

Enquanto ela e amiga iam para o batente, tratei de conhecer a cidade. A cote, meu amigo e parceiro de inumeras e inesqueciveis viagens – o boa praca Armando Chermont. Situada a 230 milhas de Nova York, Baltimore e uma cidade deveras interessante. Aparentemente, parece ser acanhada, pequena. Ledo engano. Ela possui todos os requesitos de uma metropole. Cerca de 20 museus, 7 galerias de arte, 9 teatros, tres estadios (basquete, soccer e beisebol), aquario marinho, centenas de restaurantes, pracas arborizadas, e um modernissimo Centro de Convencoes – de fazer inveja no Riocentro.

Os meios de transportes sao excelentes. Trem, onibus, metro… Ainda assim , e mais negocio andar de taxi. Nessa epoca, faz frio e chove muito. As distancias sao pequenas e  o preco da corrida sai por uma bagatela.  Isso se voce ficar de olho nos taxistas. Andam que nem loucos,  o cellular eternamente ligado, e se voce nao prestar atencao,  nem ligam o taximetro. Ai babau, ja era.  Macaco velho do rabo pelado, ja sabia de cor e salteado o preco das  corridas. Quando eles chutavam o preco la pra cima , eu ja estava do lado de for a do carro,  a grana na mao.  Jacare que nao se cuida vira bolsa de madame.

Mesmo tomando todos os cuidados, passamos inumeros apertos.  Na noite de sabado, resolvemos voltar a pe para o hotel. Foi um Deus nos acuda. Esquecemos o mapa, e ninguem queria nos dar informacao. Nos perdemos em meio a um bairro barra pesada. E nada de passar um taxi. Gente mal encarada, fumadores de crack, proxenetas, cafetoes, mulheres de vida facil… Ate que uma alma caridosa (ao ver nosso desespero), disse:

–          Where are you going?

–          Tremont Plaza Hotel.

–          Follow-me!

Em poucos minutos estavamos saos e salvos. Ufa!

Todo dia era a mesma coisa. Acordar cedo, preparar o café das meninas, deixa-las no onibus do congresso, voltar a  dormir ate as nove.  Depois, pernas pra que te quero.  Numas dessas saidas, quase pirei ao entrar na – Barnes& Nobles – Egua da livraria!  Tres andares, cerca de trezentos mil livros de todos os tipos.  Passei a manha inteirinha la. So sai (quase a forca) para almocar.

E por falar em comida – nesse dia tudo deu certo. Fomos a um restaurante sensacional! “Cheesecake”  Factory” . Que como diz o nome, comecou como uma modesta venda de tortas, e hoje, tornou-se uma rede de restaurantes em todo o pais. Os pratos, alem de saborosos, dao de sobra para duas pessoas. Sabem aquele trinomio (bom, bonito e barato) praticamente impossivel? No “ Cheesecake acontece .  A verdade e que os americanos comem muito e comem mal. Talvez por isso existam tantos obesos por aqui.

No derradeiro dia , andarilhando pelo centro da cidade, mais uma descoberta: uma loja especializada em artigos culinarios.  Facas alemas,  forninhos, centrifugas, processadores, dezenas de cortadores de temperos diferentes, uma cafeteria para preparar café expresso por modicos 95 dolares (no Brasil custa 700 pilas),panelas de cobre temperado e outras cositas mais.

Tudo que e bom dura pouco. O trem nos aguarda. Na proxima cronica, as aventuras em Nova York.

cronista9@hotmail.com

Esqueceram de mim

10 de julho de 2009

Catatônico, avisto um jurássico carro de raspa-raspa, sequioso e saudoso, estaciono rapidola o carro no meio fio. Que sabor escolher: Côco ou maracujá? Acabei optando pela perfumada graviola. Esparramo-me no banco do automóvel e me delicio com a guloseima. Há quanto tempo eu não tomava um raspa-raspa? No mínimo um cinco anos. Antigamente, em cada esquina da cidade esbarrávamos num carrinho desses. Entretido, só então reparei que havia estacionado bem em frente a uma escola. E o pior: bem na hora da saída dos alunos.  Em poucos minutos, o copo estava vazio. Saio do carro e peço um repeteco pro ambulante. Quando me preparava para tirar o time, avistei um pinguinho de gente sentado na escadaria.

Mochila aos pés, as mãozinhas apoiadas nos joelhos, o olhar ansioso, perdido. A maioria dos colegas já haviam se retirado, levados pelos pais e babás. Vez em quando ele olhava para a rua, pro relógio do celular. Fiquei a matutar: o que estaria passando pela sua cabecinha? Resolvi tirar minhas dúvidas puxando conversa com o pirralho.

– Cadê sua mãe?

– Já deve estar chegando. Ela me disse para não conversar com estranhos.

Menino esperto. Macaco velho do rabo pelado, resolvi pegar um atalho, introduzindo na conversa uma terceira pessoa – Seu Vianna – o sorridente vigia da escola. Falamos sobre a floresta, o meio ambiente, animais… Quando relaxou, me contou as estripulias do “Pingo” seu cãozinho de estimação. Foram momentos de raro prazer. Sem querer voltei no tempo, relembrando a vez que esqueceram de mim.

Eu morava no Rio e devia ter meus dez anos. Todo mês de julho, meu pai me levava para uma colônia de férias da ACM (Associação Cristã dos Moços), localizada na Serra das Araras. Menino criado em apartamento, me esbaldava escalando as encostas pedregosas, mergulhando nas cachoeiras geladas, me enfurnando nas noites sem fim ã beira da fogueira, ouvindo escabrosas estórias de terror.

Apesar do regime militar imposto pelos monitores: todo santo dia, tínhamos que arrumar as camas, hastear o pavilhão nacional, cantar os Hinos do Brasil da Bandeira “Salve lindo pendão da esperança / salve símbolo augusto da paz/ tua nobre presença é a lembrança que a pátria nos trás…” Que lindo né? Depois, era só lazer. Jogos, competições, gincanas… E o almoço – é claro. Como esquecer os tomates, o agrião, a alface, a couve, tudo fresquinho, colhidos na horta da fazendola. E o que dizer do aipim com carne assada, o arroz com aletria, o feijãozinho fumegante…  Os caquis sumarentos, as dulcíssimas frutas do-conde, o cheiro do café torrado na hora… Eram tempos de bonança. Um mês inteiro pra vadiar. Sem nenhum tipo de preocupação. Comer, brincar e viver.

Tudo que é bom dura pouco. De repente, não mais que de repente, o dia da partida chegou.  Arrumei minha tralha e fiquei à espera do velho. Uma hora, duas, e nada dele chegar. Todos meus colegas partiram, e eu lá, ansioso, preocupado, o que teria acontecido? Dormiram demais, um acidente… Nem pensar! Todas essas coisas passavam em minha mente, enquanto o olhar percorria a estrada sem fim.  Lá pelas tantas, ouvi o inconfundível som da Rural-Willys do velho.  Açodado, corri como um louco pela ponte ao encontro do meu pai. Estava tão feliz, tão aliviado, que nem notei que minha mão sangrava abundantemente. No afã de encontrá-lo, rasguei a palma da mão no corrimão da ponte de madeira. Lá se vão quase cinqüenta anos.

Desperto da minha catarse com a chegada do pai do garoto. Seu olhar era igualzinho ao meu. Assim como ele, eu também já passei por isso. Esqueceram de mim.

cronista9@hotmail.com

Faltou assunto.

9 de julho de 2009

Volta e meia acontece isso comigo. Papel e lápis na mão e nadica de inspiração, nada a escrever. Acreditem, no tempo dos chips minúsculos, pen-drivers de 20 gigas, da mais alta informática, o cronista ainda se encontra no tempo da pedra lascada. Só consegue escrever à mão. Escrevinha a crônica no papel e só depois (se conseguir decifrar a própria letra) é que passa a limpo no computador.O branco, o apagão total, teima em acontecer sempre que estou prestes a viajar.

Já apontei o lápis “ene” vezes, a cachola latejando, e nada de assunto. O papel limpo ulula à minha frente. O que fazer! Ao meu lado, o jornal do dia prestes a virar papel de embrulho. Macambúzio, folheio com vagar as manchetes do matutino. “Comissão de Ética arquiva o processo contra a vereadora”. Novidade.Era de se esperar. Todo mundo com o rabo preso… Pelo menos deveriam ter a decência de devolver o vultoso salário que indevidamente receberam as custas da domestica, que virou laranja.

No planalto, a mesma coisa. Quando o presidente da Câmara, Michel Temer (ele não é a cara daqueles mordomos de filme de terror antigos), resolve colocar um pouco de ordem no pedaço, seus pares se voltam contra ele. Tinha deputado que viajava pro exterior com o meu, o seu, o nosso dinheiro. Um cara de pau nordestino usou como argumento a seu favor, que não podia deixar a mulher sozinha em casa, sob pena de desestabilizar o casamento. Outro levou a amante e agregados para um tour pelas Ilhas Gregas. Até o Gabeira entrou nessa. E o que dizer das milhagens. Tinha assessor de deputado vendendo as milhas no mercado negro. Acho que vocês não sabem do pior. Os campeões dessas mutretas são os deputados mais abonados. Como diria o Boris Casoy: é uma vergonha!

Quando trabalhava no serviço publico (nunca mais), solicitei com antecedência, uma passagem para a Bienal do Livro. Passaram semanas, meses e nada das passagens. Teve gente que viajou no mesmo período pra mais de cinco vezes. Quando vi que daquele mato não iria sair nada, comprei do próprio bolso. Quem manda não entrar no esquema. Mas não tenho do que me queixar. Melhor assim. Ninguém poderá dizer que eu prevariquei.

Uma manchete que dói no bolso. “Petróleo baixa 40 % – mas o preço da gasolina continua o mesmo”. O governo apregoa aos quatro ventos que somos auto-suficientes no quesito petróleo. Todo mês se descobrem novas reservas. Então por que não baixar o preço nas bombas. Na seqüência, outra noticia aparentemente aziaga. , mas, pensando bem, nem tanto.

Vi as imagens da teve e fui lá conferir, com meu jornalismo (de vez em quando) investigativo: a big-enchente de Belém na segunda-feira. As pessoas que andavam pelas ruas ficaram ilhadas, sem possibilidade de socorro. Os carros tiveram que parar porque avançar, além do risco de naufragar, podia significar a destruição do motor. Em 15 minutos de águas de fazer Noé embevecer, a cidade afundou. Parecia São Paulo. Pelo menos em matéria de cheia, já não temos mais motivo para invejar a terra dos bandeirantes.

Mas a pior de todas as noticias, (pelo menos para mim) ficou para o final. Da leitura e da crônica. “Gripe Suína se alastra pelo continente. México, Estados Unidos e Canadá são os que têm o maior numero de casos.” A propósito: quando vocês estiverem lendo essas linhas, o cronista estará a caminho dos Estates. Mas não se preocupem. Já me vacinei contra a gripe (a nossa), comprei uma dúzia de mascaras cirúrgicas e tratarei de lavar bem as mãos… E seja o que Deus quiser!

Na próxima crônica voltarei a ser razoável.

cronista9@hotmail.com

A Arte de não fazer nada

2 de abril de 2009

Tenho um amigo que possui uma profissão única e invejável: fiscal da natureza. Ou seja, se dedica à sublime e difícil arte de não fazer nada. Há décadas começa o dia fazendo sempre a mesma coisa. Acorda, lê os matutinos, toma café e, ainda bubuiando, no fundo de uma rede, inicia os telefonemas para se atualizar, pôr em dia as novidades. Almoça cedinho (onze horas). Depois, liga a tevê e assiste aos canais de notícia. Esgotado, tira uma sesta até as quatro. Afinal de contas, ninguém é de ferro. Acorda, toma banho e vai à cata dos amigos. E são justamente as amizades seu maior paradoxo. Explico. Como não tem com o que se preocupar, se dedica de corpo e alma aos amigos. E olha que eles são muitos. Dorme, e no outro dia faz tudo sempre igual (como na letra de Chico Buarque). Vocês acham que é tarefa fácil? Então tentem.

Todo esse preâmbulo porque, na segunda, uma gripe (agora é virose) violentíssima me pegou de jeito. O corpo todo doía. Suei frio, uma tosse intermitente, uma febre terçã tomou conta do meu ser. Quando retirei o termômetro, não acreditei: 40.6 graus. Uau! Se botassem um ovo no meu sovaco, ficaria no ponto em poucos minutos. Tomei uma overdose de anti-térmicos, outra de antitussígenos, toneladas de vitamina C e me enfurnei no quentinho do meu edredon. Mas como apregoa o pessimista Murphy, muita coisa ainda estava por acontecer. A noite caiu e nada da família chegar. Tem coisa pior do que ficar doente e não ter ninguém pra cuidar da gente? Apesar do gosto de guarda-chuva velho na boca, a total falta de apetite, eu precisava me alimentar. O pior é que com a chegada da gripe, meus dois mais aguçados sentidos (olfato e paladar) foram totalmente anulados. Preparei um suquinho de laranja, abri um pacote de bolachas creme craker, lambuzei manteiga e enfiei goela abaixo. Para arrematar, um copinho de geléia de mocotó. Tirando a gripe – tem coisa melhor? Adormeci, tentando em vão ler um livro. Só acordei com os pingos da tempestade entrando sem pedir licença, janela adentro. Pai d´égua. Gripadíssimo, caindo pelas tabelas, e ainda pego chuva da madrugada.

No dia seguinte acordei pior, bem pior. Chegou-se a pensar em dengue, tal a quantidade de calafrios que acometiam meu corpo. Impossibilitado de me locomover, tratei de chamar o Laboratório Paulo Sergio Azevedo, em casa. Chegaram rapidola e me subtraíram hectolitros de sangue. Precisa tirar tanto sangue pra fazer uns examezinhos?

Passei o resto do dia razoavelmente bem, cheguei até a aventar a hipótese de mexer nas panelas no Baú Bistrô. Mas quando anoiteceu… Começou tudo de novo. Calafrios, febre, tosse… Mais uma noite gemendo. Calma lá! Apreendi como meu velho pai: quando algo dói, gema. Seja dor do corpo ou da alma. Incomoda quem está ao teu lado. Contudo, enquanto estiveres gemendo, não sentirás dor. Experimentem.

Como no dia anterior, fiquei jogado no fundo da rede, esperando a danada da gripe me largar de mão. E ela lá, renitente, a me perseguir como cães em filme de terror. Outra noite insone, mais uma noite passando mal. Quando esse suplício irá acabar?

Na quinta – como num passe de mágica – acordei sem febre, quase zerado. Eis aí a ligação entre eu e meu amigo do começo da crônica – aquele que não faz nada. Como ele consegue? Eu fiquei ilhado em casa por quatro longos e intermináveis dias e quase pirei. Repito: Como é que ele…?

cronista9@hotmail.com

O pão nosso de cada dia

2 de abril de 2009

“Felicidade é um hóspede discreto do qual só nos damos conta de que ele existe quando está de partida” (Theodor Adorno – filósofo alemão)

Era uma manhã radiosa, colorida, tais como as telas que o mestre Benedicto Mello sobejamente pintava. Minha fubica deslizava macia pelas ruas arborizadas da cidade. A verdade é que eu estava de bem com a vida. Banho tomado, camiseta de algodão, bermuda, chinela confortável. Meu primeiro destino matinal foi o Pão de Santo Antônio, à caça de antigos alfarrábios.

Quem me recebe – sorriso de piano estampado no rosto – é Armínia, simpática e competente, bota competente nisso, administradora do asilo. Confesso que nunca tinha entrado lá. Minto. Salvo uma ou outra incursão pela refrigerada Capela. Como toda boa anfitriã, Armínia ciceroneou-me pelas dependências do antigo e bem conservado casarão.

Fiquei impressionado com o que vi. Ao contrário da maioria dos asilos, o Pão de Santo Antonio é um primor. Nem parece um asilo. Está mais para um pensionato de luxo. Piscina, salão de jogos, salão de festas, assoalho reluzente, quartos e enfermarias bem ventiladas, banheiros, roupas de cama impecavelmente limpas, cinco refeições por dia (depois falarei sobre a cozinha) e uma equipe de prestimosos funcionários zela pelo bem estar dos velhinhos que lá residem. Ao passar pela secretaria, reencontro Cleide Acatauassu, cara amiga, e uma das mais fiéis colaboradoras do Pão de Santo Antônio.

Retorno ao meu inesquecível tour pelas incontáveis dependências do casarão. Enquanto me mostra tudo, minha anfitriã distribui sorrisos e afagos, uma palavra de conforto por onde passa. E acreditem: sabe de cor e salteado o nome de todos os velhinhos. Como vai, Bené? E você, Maria José, melhorou da gripe? Como vão os bisnetos, dona Antônia? Que dia lindo, seu Hamilton! Aliás. Por que será que a grande maioria dos que lá estão é de mulheres? Reparei também que todos os cômodos têm móveis, eletrodomésticos doados por abnegados e anônimos colaboradores.

Como não podia deixar de ser, fiz questão de conhecer a cozinha – e que cozinha! Para minha surpresa, encontro Patrícia Freire, nutricionista do pedaço. O que mais me impressionou na cozinha, além do número de refeições servidas diariamente – cerca de setecentas – foi o formidável fogão industrial – doado décadas atrás pelo Rômulo Maiorana. Enfim cheguei aos chalés. Mini-suítes com todo conforto possível. Sala, quarto refrigerado, cozinha, banheiro, varanda florida… Lá, casais de idosos vivem a vida que pediram a Deus. Têm segurança, companhia, assistência médica, lazer… E o principal: amor!

Fiquei surpreso ao saber como as voluntárias conseguem manter e prover digna e confortavelmente todos os velhinhos e ainda fazer novas obras no casarão. A resposta estava bem na minha frente: um adorável brechó coalhado de roupas, adereços, móveis… Essas e outras doações recebidas vão para o bazar, onde são vendidas regularmente pela melhor oferta recebida.

Faço uma pequena pausa, enquanto sorvo um copo de água geladérrima. Absorto, caminho com vagar pelos corredores centenários. Num dos quartos, uma simpática senhora me espreita pela nesga da porta entreaberta. Cumprimento-a com alegria e ela me indaga, os olhos rútilos, fixos em minhas madeixas grisalhas:

– Quando o senhor vem morar aqui?

Acho que estou ficando velho.

Só aí me lembrei o motivo da visita: os livros. Cadê os livros?

cronista9@hotmail.com

O outro lado da meia noite

5 de março de 2009

“O tempo, velho trapeiro da eternidade” (Machado de Assis)

De uma maneira ou outra, os livros nos fazem parar e pensar sobre nossas atitudes, sobre a vida que estamos levando. Sei muito bem o que é isso. Afinal de contas, desde que me entendo, eles me dão lições, me ensinam coisas que jamais aprenderia em outro lugar. Foi assim na semana passada, quando uma cliente ligou, oferecendo o acervo que havia pertencido ao pai. É sempre assim. O marido, o pai, o avô se vai e a família faz uma faxina geral nos pertences do finado. Os bens de valor, (imóveis, jóias, obras de arte, carros…) quase sempre, são disputados a tapa pelos herdeiros. Já o rebotalho…

Mas voltemos ao mote da crônica. Ao saber do meu interesse pelo acervo paterno, não se fez de rogada. Em minutos apareceu na livraria, o porta-malas do carro abarrotado de livros. Como de costume, separei os de mais serventia, descartando aqueles que os exércitos de traiçoeiras traças, divisões de vorazes cupins haviam engolido letras, palavras, lombadas, capas, capítulos inteiros. Para ela, pouco importava. Apressada, contou as notas do butim, enfiou o dinheiro na bolsa e tirou o time. No outro dia, tratei de separar o joio do trigo. Sidney Sheldon, Paulo Coelho, Morris West para um lado; Machado de Assis, Tolstoi, Eça, Monteiro Lobato, Pessoa, Pound, (apenas para citar alguns) pro outro. E foi justamente num exemplar carcomido de Sheldon – “O Outro lado da meia noite” – que encontrei a carta amarelada pelo tempo. Ela dizia mais ou menos assim:

“Amada filha. Apesar da distância que nos separa, em nenhum momento, deixei de te amar. Em nenhum instante, deixei de lembrar das fugazes ocasiões em que fomos, tentamos ser, uma família feliz. De quem é a culpa, quem tinha razão? Agora, de nada, pouco importa. Naquela época, seu velho pai era um jovem idealista, sonhador. Não estava preparado para o casamento, muito menos para ser pai – seu pai. Sua mãe me deixou levando você pra bem longe. Errei, erramos. Contudo, nunca é tarde para dar o braço a torcer, reconhecer que errei. Como você não responde minhas ligações, decidi fazer uso dessa para, humildemente lhe pedir desculpas. Quero, preciso recuperar o tempo perdido. Se você permitir, conhecer minha neta. Colocá-la no colo, embalá-la, contar as historias que contei pra ti. Lembra? Se você concordar, por favor, responda essa carta. Um beijo arrependido do pai que nunca deixou de te amar.”

Emocionado, conclui a leitura, colocando a missiva de volta no envelope. Será que ela sabia, será que a carta tinha chegado ao remetente? Como saber, o que fazer… Incontinenti, liguei para a filha.

– O senhor quer desfazer o negócio?

– Não é nada disso. Encontrei num dos livros que você me vendeu, algo que lhe pertence, que não tem preço.

– Já estou indo.

Quando ela chegou, estendi-lhe a carta que de direito, lhe pertencia. Enquanto lia a missiva paterna, seu semblante se transmutou. As mãos tremiam. Num improvável esgar, os lábios cerrados se entreabriram. Os olhos frios se encheram de lágrimas.

– Eu não sabia… Papai morreu subitamente, antes de postá-la para mim.

Fui tomado por um sentimento, uma tristeza danada. O orgulho, a destemperança, a insensatez, feridas insepultas, mágoas guardadas por anos a fio macularam, separaram inapelavelmente pai e filha. Uma família que tinha tudo para ser feliz.

cronista9@hotmail.com

Você já foi a Tracuateua?

5 de março de 2009

Fujo do carnaval como o diabo foge da cruz. Todo ano procuramos passar a quadra momesca num lugar tranqüilo. Esse ano escolhemos Tracuateua. O nome é complicado, esdrúxulo, cheio de vogais. O caminho é tortuoso, meio escondido, mas vale à pena chegar lá para conhecer e curtir as maravilhas que a natureza reservou para o local. Após duas horas de viagem, enfim chegamos à paradisíaca “Fazenda Vitória” município de Tracuateua – Região Bragantina.

A Fazenda (fundada no final do seculo XIX) tem de tudo um pouco. Lagos piscosos, onde todo final de tarde manadas de búfalos bubuiam, retornando a terra firme após pastar nas margens alagadas banhadas pelo Rio Caetés. Pela manhã, faça chuva ou faça sol, (mais chuva do que sol), revoadas de garças, maritacas, tetéus, papagaios barulhentos saem dos seus ninhos à cata de comida. O lugar é um convite explícito ao ócio. A começar pelas redes coloridas armadas por toda a varanda. E o que dizer das refeições? Começando pelo portentoso desjejum. Leite e coalhada de búfala, tapioquinha, mingal de milho, queijo de coalho derretido, pão feito na hora, sucos de todas as matizes, frutas de todas as cores e sabores… O almoço não fica atrás. Carneiro assado, carne de sol, galinha ao molho pardo, feijão tropeiro, pirão de leite, banana frita, tucunaré na manteiga… Chega? Depois desse pantagruélico banquete, só uma severa caminhada pelas redondezas a fim de fazer a digestão.

Mas o que mais me encantou foi conviver com as crianças hospedadas na fazenda. Fazia tempo que não acontecia isso. No quarto ao lado, um casal de gêmeos aprontava todo tipo de estripulia. Tinha também o Gabriel, o irmão mais velho, curtindo de montão a companhia do pai. Tinha a Samantha, um doce de menina. E tinha o Yude, um japonesinho adorável, só que muito esperto. Depois de muita insistência, ele me convenceu a jogar uma partida de xadrez. Pra quê… Foi eu vacilar e ele assoprou meu bispo. Argumentei dizendo que no xadrez isso não existe. Só se assopra quando jogamos damas. Sabe como é tio. Se colar colou – respondeu ele. O jogo terminou quando ele reinventou mais uma regra – torre andando em ziguezague. Aí já é demais. A verdade é que cada uma daquelas crianças me fez sentir uma enorme saudade dos tempos em que meus filhos eram pequenos. Por isso, ouso desdizer o poeta: Filhos – melhor tê-los.

Não bastasse tudo isso, ainda tem passeio de chalana, caiaque, búfalo mansinho, cavalo trotador, carneiro comedor de manga. Tem também o Didi, o coringa da fazenda. Didi faz de tudo um pouco. Ora pilotando a chalana e contando “causos”. Num piscar de olhos lá está ele em cima de um búfalo, cuidando dos cães… A noitinha se transmuta em garçom, somelier… Grande Didi.

Não poderia esquecer dos Martins. Mãe, pai e o filho Robson. Como todo empresário, poderiam se manter distantes, frios, profissionais. Não foi o que aconteceu. Desde o instante que colocamos o pé na fazenda, eles se desdobraram para nos proporcionar, fazer o possível e o impossível para tornar nossa estadia inesquecível.

Desperto de minha catarse com o badalar do sino avisando que nossa última refeição está servida. Me quedo ensimesmado, triste. Nosso tempo se esgotou, é hora de partir.  No coração, uma certeza. Se o paraíso existe, um pedacinho dele, está aqui.

cronista9@hotmail.com

Quando os chefes se encontram

5 de março de 2009

Seria mais um sábado chuvoso como outro qualquer. Seria… Como de costume, acordo cedo, deixo a modorra de lado e parto para a labuta. No finalzinho da manhã caiu a ficha. Tinha me esquecido do convite para almoçar na casa de um dileto amigo.

Tomei uma chuveirada, e ¼ de hora depois, lá estava eu. Ao chegar ao apartamento do Miuqaoj (o nome dele é assim mesmo), fui surpreendido pela moderna e bem montada cozinha. Pra falar a verdade, nunca vi nada igual. Coisa de primeiro mundo. Cumprimento os convidados, que já bebericavam uns uisquinhos, reunidos em torno do reluzente fogão Rollissroiciano.

Afio com vagar a faca, visto o avental, enfio o chapéu na cabeça e me preparo para iniciar os trabalhos. Quem disse! Um outro amigo, dono de restaurante e metido a cozinheiro, tinha furado a fila. Fiquei fulo da vida. Quem manda chegar atrasado. Não há de ser nada: o fogão tem oito bocas – dá pra todos. Enquanto ele finalizava um razoável bacalhau, tratei de preparar meu primeiro prato. Joelho de porco caramelado com chucrute de repolho roxo. É obvio que o prato dele ficou pronto primeiro. Mesmo assim, minutos depois, o fenomenal joelho estava servido. A sorte estava lançada. Em poucos minutos, os pratos foram devorados pela turba esfomeada.

No segundo tempo, tratei de tomar a dianteira. Bandei duas dúzias de lagostinhas, temperei-as com sal e limão, untei-as com manteiga de ervas e colquei-as no forno. Quase me dei mal. Não sabia eu que a temperatura do bruto era medida em graus Farenheit – por pouco, muito pouco mesmo – meu prato não levou o farelo. Nesse ínterim, meu oponente já tinha fritado deliciosos bolinhos de bacalhau. Achei estranho. Como ele tinha preparado a massa em tão pouco tempo? Enquanto os convivas elogiavam o acepipe, olhei de soslaio para a lata de lixo que jazia entreaberta. Só aí descobri o milagre. Duas bandejas vazias de bolinhos congelados. Mas assim…

Como vocês podem ver, a disputa estava acirradíssima e só seria decidida por uma diferença mínima. Pescoço, cabeça – quem sabe até no fotochat. Fizemos um intervalo para jogar conversa fora, molhar o bico, ouvir uma música. Foi nessa hora que eu quase tive um troço. Um dos meus amigos me chamou, dizendo:

– Vais assistir o melhor cantor do mundo!

Aí me deu medo. Pensei com meus botões. Lá vem um Nat King Cole, Sinatra… Aboletei-me num confortável sofá e me preparei para o show. Vocês não vão acreditar. Sabem quem surgiu na tela? José Augusto. Fala sério! Que mau gosto… Sou mais o Wakdick Soriano. E o pior é que ele me obrigou a ouvi-lo até a ultima faixa. Gosto não se discute – mau gosto também.

Tá na hora de voltar ao batente. Chamei meu amigo gourmet e de comum acordo decidimos fazer um risoto a quatro mãos. Enquanto isso, nosso anfitrião se desdobrava para atender seus convidados. Um licorzinho aqui, um vinhozinho ali, um uisquinho acolá… Tudo de bom. Nem precisa falar que o risoto foi nosso melhor prato. Comida não tem mistério. Ingredientes de qualidade, panela boa e o principal: competência e carinho de quem prepara. Não tem como dar errado.

Ao ver o preguiçoso Lorran, (gato de estimação de Miuqaoj) não resisti a tentação e, à socapa, dei uma lagostinha pro bichano. Acostumado com ração, ele se fartou com o saboroso crustáceo. Mais um vacilo de minha parte: o título da crônica deveria ser “Quando os amigos se encontram”.

cronista9@hotmail.com